Arrumando a casa

John Beddington

Neste ano a mudança climática receberá uma atenção sem precedentes.
Impulsionados por uma nova vontade política em Washington, os líderes políticos começarão a assinar acordos de redução de emissões muito mais duros do que Kyoto. Em novembro, a Inglaterra aprovou o compromisso legal de cortar 80% das emissões até 2050. Barack Obama prometeu seguir o exemplo. Mesmo assim, é urgente fazer uma grande reavaliação da forma como usamos energia.

Onde devemos colocar mais esforços? O senso comum diz que o principal são os carros, aviões e energia eólica. Tanto a mídia quanto os ativistas contra a mudança climática, que no mês passado fecharam o aeroporto London's Stansted, ajudaram a consolidar essa visão. Mas as viagens aéreas contribuem com uma porcentagem pequena das emissões mundiais. Ao passo que as atividades dentro das casas e escritórios britânicos respondem por mais da metade. Se de fato quisermos um planeta sustentável, devemos arrumar as construções onde moramos, trabalhamos e nos divertimos. Em 26 de novembro, o departamento de ciência do governo, que eu comando, publicou o relatório "Powering our Lives" (algo como "Energizando nossas Vidas"), argumentando que nós precisamos de uma nova orientação para transformar nossas construções antigos e ineficientes nas casas livres de carbono do futuro.

A maioria das construções são famintas por carbono e usam energia de forma intensiva. Mas nossas novas casas serão melhores. O governo introduziu metas para fazer com que todas as novas construções sejam neutras em carbono até 2019. Mas em 2050, sete em cada dez construções ingleses ainda serão as mesmos que existem hoje. Uma demolição em larga escala não é uma opção viável.

Felizmente, não é difícil reformar a maioria dos prédios. Os métodos são surpreendentemente prosaicos. Apenas um terço dos lares britânicos tem forros bem isolados. Até melhorias modestas, quando combinadas com as caldeiras modernas, podem reduzir o uso de energia para o aquecimento em mais de 30%. E comparadas às ambiciosas instalações de "micro-geração" de energia - novas formas de produzir energia em pequenas quantidades, próximo das casas - a maioria dessas medidas compensam a curto prazo.

Esta é uma das razões pelas quais poucos "empregos totalmente verdes", ligados à alta tecnologia, serão criados para reformar nossos prédios.

Poderá haver algumas vagas que combinem a arquitetura com a tecnologia da informação. Mas o que de fato precisamos é de muitos eletricistas, encanadores e engenheiros civis tradicionais. O isolamento térmico continuará sendo simplesmente isolamento térmico.

Empregos verdes também surgirão em outras profissões, como o planejamento. Diminuir as emissões também significa mudar o uso que o governo faz das regulamentações. Hoje, oferecemos incentivos para construções com melhor isolamento térmico, incluindo programas importantes com nomes como "Frente Quente". Mas as pessoas simplesmente não estão aderindo com a rapidez necessária.

Por que não? Precisamos de uma lei compulsória de eficiência energética para as construções já existentes. Não há incentivo para os donos ou inquilinos melhorarem os 2,6 milhões de casas particulares alugadas do país. Além disso, temos idéias culturais enraizadas sobre como a atmosfera de um prédio deve ser. Nos anos 70, a temperatura média dentro de casa era de 12ºC. Em 2002, era 18ºC.

Enquanto isso, as mudanças demográficas aumentam a demanda de energia.
Um quarto das casas britânicas são hoje ocupadas por apenas uma pessoa - ao todo são 7 milhões, que devem aumentar para quase 10 milhões em uma década ou duas. Muitas dessas pessoas também serão idosos, com a população de 65 anos ou mais aumentando para 6 milhões nos próximos 20 anos. Muitos sentirão frio durante o inverno.

O governo deve fazer mais para pressionar as casas e firmas a agir. O primeiro passo deve ser um pacote melhor de subsídios e cortes, apoiados na promessa de introduzir novas regulamentações compulsórias dentro de três a cinco anos. Também devemos mudar as regras confusas ou contraditórias - como a diferença de IVA (imposto de valor agregado) entre as reformas e construções novas, o que faz com que demolir e reconstruir seja mais vantajoso para os construtores do que reformar.

E precisamos ser criativos. Gastamos dinheiro com o MOT [certificado ambiental e de segurança dos veículos britânicos] anualmente. Por que não fazemos o mesmo com nossas construções? Os certificados de uso energético atuais só influenciam o comportamento das pessoas quando uma casa está à venda (e nem mesmo nessa ocasião, dadas as várias outras razões para escolher uma casa). Em vez disso, o governo deveria introduzir um certificado anual para todas as casas.

As regras poderiam ser mudadas para encorajar as companhias energéticas a experimentarem também. Por exemplo, se as companhias de energia fornecessem aquecimento como serviço, em vez de apenas cobrar por cada unidade de gás, elas teriam um novo incentivo para apoiar todo tipo de isolamento térmico que pudesse ser empurrado para dentro das casas.

Uma eficiência maior também pode vir dos governos locais, que poderiam criar esquemas-piloto - como redes de eletricidade "privadas". (Que já são usadas em grandes aeroportos, alimentadas por geradores de pequena escala). Os custos dos investimentos para sistemas locais, como um pequeno moinho de vento, poderiam ser divididos pelos vizinhos, enquanto o governo poderia providenciar incentivos como a redução de impostos para os envolvidos. Sabemos que isso pode funcionar. O programa piloto alemão "Zukunft Haus", que foi implantado entre 2003 e 2005, cortou o consumo de energia em mais de 80% em mil casas.

Mas copiar os alemães não é suficiente. Nós também precisamos reduzir as emissões de nossas tarefas diárias. Nossas fábricas e escritórios estão cheios de coisas que demandam energia, e o sistema britânico é mal projetado para se transformar num sistema de geração de energia descentralizado. Energia eólica, solar, de biomassa e pequenas redes de aquecimento têm um grande potencial local. Mas elas concorrem com nossa rede nacional centralizada. Precisamos abri-la.

A história mostra problemas como esses podem ser superados. Mas não temos tempo para uma longa contemplação. A mensagem é clara: nenhum de nós pode se dar ao luxo de deixar as construções fora do debate da mudança climática. É fácil as pessoas pensarem que, se reciclarem, voarem menos, forem trabalhar de bicicleta, estão sendo "mais verdes do que o próximo". Mas, assim como em qualquer guerra importante, a batalha começa em casa.

(John Beddington é o conselheiro-chefe científico do governo britânico.)

Tradução: Eloise De Vylder

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