Os Dez Mandamentos: um manifesto progressista

David Bodanis*

Sou fã de Christopher Hitchens. Mas às vezes ele entende as coisas muito errado, e sua postura em relação aos Dez Mandamentos - que ele compartilha com muitos ateus modernos - é um desses erros. Segundo Hitchens, eles representam pouco mais que as arengas de um Deus irado, vaidoso e vingativo. Quem possivelmente desejaria seguir sua "vaga moralidade pré-cristã do deserto", que dá todos os sinais de ter sido inventada por um "demagogo da Era do Bronze"?

Martin Luther King Jr. quis. Ele encontrou grande força nos Mandamentos e em toda a história do Êxodo. Por extensão, eles motivaram muitas pessoas na luta pelos direitos civis e ajudaram a transformar os EUA em um momento crucial de sua história.

Hitchens está reagindo à história mítica dos Mandamentos encontrada nos relatos religiosos padrão: o Corão e o Antigo Testamento. Mas se os olhasse como um historiador ou um antropólogo poderia ter uma visão mais simpática dessa lista extraordinária.

Pistas espalhadas pela Bíblia, escavações arqueológicas e outras fontes mostram que os Mandamentos, pelo menos no início, eram muito diferentes de algo que um demagogo da Era do Bronze teria proposto. Eles não foram criados para manter um povo na passividade servil e supersticiosa. Na verdade, eram um credo progressista, que ajudou um bando de refugiados fugitivos a encontrar liberdade em uma nova terra.

A história dos israelitas começa em algum momento entre 1250 a.C. e 1150 a.C. No início desse período, o antigo Oriente Médio era pouco mais que uma prisão gigante. Ao longo da costa mediterrânea, a maioria das pessoas labutava como servos, presos a cidades-estados que dominavam a região. Mais a oeste, no grande reino do Egito, a servidão também era generalizada - e a escravidão era tão dura quanto descrita no livro do Êxodo.

Alguns desses escravos eram de língua semita, de Canaã (mais ou menos o Israel moderno), que haviam emigrado como homens livres para o fértil delta do Nilo, somente para ser escravizados. Outros eram líbios que viviam no deserto ou núbios negros, muitas vezes feitos prisioneiros em tempo de guerra. Os governantes egípcios haviam construído uma vasta série de fortificações em suas fronteiras orientais, não apenas para defender o reino de ataques, mas também para manter os escravos presos.

O Egito tinha dividido o Mediterrâneo oriental com o reino dos hititas (baseados na moderna Turquia), e entre eles existia uma florescente zona-tampão. Esse sistema havia sobrevivido durante séculos, e nem os servos presos nas cidades-estados nem os escravos do Egito tinham muita possibilidade de escapar.

Então, nas décadas que antecederam a 1200 a.C., uma série de mudanças perturbou essa fácil "détente" imperial e começou a destruir as estruturas que tinham mantido esses trabalhadores forçados presos durante gerações. No limite norte do mundo conhecido, as cidades da antiga Grécia começaram a ser destruídas, invadidas por atacantes misteriosos que vieram a ser conhecidos como os "povos do mar". Ninguém sabe exatamente quem eles eram. Mas o impacto desses ataques rapidamente se fez sentir.

Afinal os povos do mar chegaram ao Egito. Seus ataques venceram o exército imperial, que abandonou seus fortes nas fronteiras. Pela primeira vez na memória, as fronteiras do Egito estavam mal defendidas. Esse turbilhão abriu uma janela pela qual qualquer grupo de escravos, com o líder certo, poderia escapar.

Como sabemos que alguns dos fugitivos desse período eram os ancestrais dos hebreus históricos? Há algumas evidências sugestivas, e a Bíblia também é uma fonte. A famosa história dos israelitas fugitivos atravessando o mar Vermelho não é o único relato registrado na Bíblia. Existe uma história anterior e mais plausível, que ficou escondida e não foi incluída nas traduções inglesas. Para descobri-la, é preciso saber que o Antigo Testamento foi escrito em hebreu "comum"; algumas partes, porém, são compostas em linguagem mais arcaica. Para o olhar treinado, essas partes são tão diferentes quanto Chaucer e Hemingway.

A versão arcaica nada diz sobre paredes de água. Na verdade, nada diz sobre atravessar uma extensão de água. Mas sugere uma história em que os soldados egípcios, perseguindo escravos fugitivos, se aventuraram em barcas para apanhá-los e foram derrubados na água, ou talvez suas charretes tenham atolado no pântano. Esses relatos poderiam facilmente ser distorcidos por séculos de repetições da narrativa.

Traduções posteriores em latim e línguas vernáculas - como as traduções do Rei James no início dos anos 1600 - exageram ainda mais, traduzindo "sopa de inhame" em hebreu como "mar Vermelho". O mar Vermelho é um vasto corpo de água, e muito distante das principais cidades que abrigavam escravos de língua semítica. Por outro lado, realmente havia muitas terras pantanosas e lagos rasos perto dessas cidades, todas com suas correntezas repentinas e bancos de lama traiçoeiros. A "sopa de inhame" hebréia provavelmente significava apenas "mar de caniços".

Mas, mesmo que um punhado de escravos escapasse, para onde iriam? Do outro lado do deserto do Sinai erguia-se o planalto florestal de Canaã, um refúgio perfeito da autoridade (e de onde provavelmente alguns deles eram originários). Nesse violento período ao redor de 1200 a.C., centenas de aldeias começaram a surgir nesses planaltos isolados. Os governantes egípcios parecem ter ficado furiosos com isso, pois pouco depois escribas imperiais registraram em uma lápide de granito de 3 metros as façanhas de uma missão militar enviada a Canaã. Sua tarefa era atacar uma nova comunidade de pessoas que consistiam em escravos fugidos e agricultores que escapavam das cidades-estados na planície. O hieróglifo usado para descrevê-los nunca havia sido usado antes. Quando pronunciado, parecia "Is-ra-el".

É uma boa história, mas ainda poderíamos nos perguntar: e então? Por que uma pessoa sensata desejaria seguir hoje as leis tribais que um grupo aleatório daquele tempo antigo teria inventado? É aí que começa a grande virada.

A devastação dos povos do mar havia destruído as regras sociais, além das cidades e da propriedade - e isso criou uma rara oportunidade para recomeçar. Por isso o tratado de Moisés não se dirigia unicamente a um rei; ele é falado para todo um povo. Essa sutileza é mascarada na tradução do rei James, que usa o arcaico "thou shalts" [tu deverás]. Em hebraico, porém, essa segunda pessoa do singular era um tratamento íntimo, como o "tu" do francês moderno. Esse tratamento era inédito. Na verdade, uma lista pública de leis também era uma novidade.

O fato de que elas foram forjadas em uma rebelião de escravos significa que a verdadeira mensagem dos Mandamentos falou aos povos que tentaram se libertar da dominação injusta através das eras. Mesmo quando os governantes tentaram apropriar-se deles, ou escondê-los, seu verdadeiro enunciado permaneceu oculto no judaísmo, no cristianismo e até certo ponto no islamismo; transmitido como um gene recessivo que se arrasta para o futuro, permanecendo dormente para quando chegasse o momento certo - como foi com Martin Luther King Jr. e a América nas décadas de 1950 e 60.

Albert Einstein certa vez disse que achava que as verdades do universo eram como uma série de volumes grossos e fechados esperando em uma biblioteca mal iluminada. Muito de vez em quando, um de nós é autorizado a avançar, levantar um dos antigos livros e dar uma olhada no que foi escrito em apenas uma página. Muito pouco atravessou a poeira de 30 séculos para nos moldar hoje. Os Dez Mandamentos atravessaram.

*David Bodanis é vencedor do prêmio Aventis por "Electric Universe" (ed. Abacus)

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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