Dores de mudança

James Crabtree
Da Prospect Magazine

Uma sala de conferências estéril, em um prédio anônimo de Chicago, suja com latinhas de Coca-Cola e pacotes de biscoito, parecia um lugar pouco auspicioso para anunciar planos de mudar o mundo. Ainda assim, nesta sala em 2006, Barack Obama disse aos seus mais fiéis assessores que, sim, ele ia concorrer à presidência. Ele tinha clareza em um ponto, porém: seria "um tipo de campanha muito diferente".

A diferença da campanha dirigida por Obama - e do "movimento" dos milhões que se uniram a ele - tornou-se folclore político muito antes das cédulas chegarem às urnas. A superação da equipe de Clinton, em particular, derrubou a sabedoria convencional de toda uma geração sobre como funciona a política. Campanhas anteriores que dependeram de voluntários idealistas e de inovações tecnológicas, como a do governador de Vermont Howard Dean, tendiam a perder. Entretanto, Obama pegou esse modelo básico, acrescentou profissionalismo e dinheiro e venceu com conforto. Sua combinação de sites inteligentes e campos de treinamento intensivo para ajudar a montar um exército de voluntários foi genuinamente nova.

Comentadores e blogueiros rapidamente disseram que esse modelo de campanha era a prova de uma série de teorias adoradas, em geral sobre o poder da Internet para mudar a política. Eles dizem que Obama é um "presidente de fonte aberta" em uma era em que "a política é viral" e dirige uma campanha "que coloca em ação a multidão". Gurus de tecnologia, como o ex-jornalista da "Wired" Peter Leyden, falam de forma desconcertante sobre como "Obama está atualizando a mudança de paradigma na política americana".

O que isso tudo significa não é óbvio, mas parece suspeito. A campanha de Obama foi convencional em aspectos importantes. Ele gastou mais em propaganda negativa do que qualquer outro político anterior, enquanto sua operação de mídia disciplinada nenhuma vez saiu do rumo. Seu lema - "Obama sem drama"- transmitia mais uma disciplina militar do que uma abordagem tranquila.

Com a posse, os problemas de incompatibilidade entre o movimento de campanha popular e os compromissos delicados de governo estão se tornando óbvios. Os 13 milhões de eleitores e 3 milhões de doadores de Obama não podem se mudar em massa para Washington nem ser consultados sobre cada lei, e bater de porta em porta nem sempre resolve a maior parte dos problemas políticos. Em suma, o "movimento" não vai para o "governo".

Muitos membros da campanha, entretanto, vão se encaixar bem. Em 1997, apenas poucas dúzias de membros do Partido Trabalhista seguiram Tony Blair para o número 10 da rua Downing. Milhares de membros e voluntários da campanha de Obama, contudo, vão assumir papéis no novo governo. (As histórias de voluntários empacotando suas casas e dirigindo-se para Washington para trabalhar são numerosas demais para acreditar que são todas falsas). Esse quadro de obamaníacos vai querer fazer as coisas de forma diferente.

Entretanto, enquanto os cargos menores estão sendo distribuídos para fiéis verdadeiros, os grandes foram compartilhados entre antigas figuras da era Clinton e pessoas estabelecidas em Washington. Poucas dessas mostram o menor interesse em um novo estilo de governo "de baixo para cima". De fato, diante do cenário da crise financeira, a forma tradicional do processo decisório está em alta.

E mesmo que alguns trabalhadores pareçam estar recebendo um pedaço da torta, tentar encontrar uma forma de manter o interesse de milhões voluntários (e ainda mais envolvê-los em decisões importantes) é uma imensa dor de cabeça para a equipe de Obama. Administrar as expectativas e atividades de tal grupo não é fácil. Simplesmente pergunte ao texano Ross Perot, que reuniu 2 milhões de eleitores para seu "movimento" pós-eleitoral, "Unidos Permanecemos America" em 1992. Angariou dezenas de milhões de dólares, mas conseguiu pouco. Na tentativa de evitar esse destino, Obama primeiro montou um site, Change.gov, e fez alguns debates on-line (altamente criticados). Aparentemente sem outras ideias, o comitê de campanha resolveu pedir às pessoas que organizassem ainda mais festas em suas casas. No sábado anterior à posse, Obama anunciou um programa novo, porém vago para manter as pessoas envolvidas "Organizando para os EUA". Os voluntários, enquanto isso, montaram sites como o Fixthisbarack.com.

O "Los Angeles Times" divulgou uma reunião altamente secreta em um final de semana em dezembro na qual a equipe de Obama tentou descobrir o que fazer com o movimento que insiste em segui-la. Como observou o comentador Micah Sifry na época, a reunião secreta cimentou uma visão de que, aquilo que alguns chamam de OFA II -ou Obama pela América II - foi "de cima para baixo".

Ainda assim, Obama foi representado em seu desejo de fazer as coisas diferentemente. Em particular, ele disse que queria construir sua campanha -e seu governo- "de baixo para cima", seguindo as lições que aprendeu como organizador comunitário em Chicago. Mas foi aí que os admiradores tecnológicos e patrocinadores liberais de Obama não o compreenderam. Para o presidente, a expressão "de baixo para cima" não quer dizer blogueiros e maníacos por computação. Em vez disso, significa seguir as teorias "organizadoras" de pensadores como Saul Alinsky, intelectual e autor que também organizou comunidades em Chicago nos anos 30.

O método de organização de Alinsky -copiado por outros pensadores como o acadêmico de Harvard Marshall Ganz - foi central na abordagem da equipe de Obama para treinar e entusiasmar os voluntários. O livro mais famoso de Alinsky, "Rules for Radicals" (regras para radicais), inclui alguma retórica incendiada, mas suas idéias subjacentes são estranhamente moderadas, argumentando que "qualquer mudança revolucionária deve ser precedida por uma atitude passiva, afirmativa e não desafiadora em relação a mudanças, em meio ao povo". Em outras palavras, evitar confrontos é um passo crucial para alcançar o que você quer.

Obama claramente acredita nisso. É por isso que ele faz um esforço extraordinário para envolver a oposição - como gastar US$ 300 bilhões (cerca de R$ 600 bilhões) em cortes de impostos altamente ineficazes como parte do pacote de resgate, simplesmente para comprar a boa vontade republicana. Entretanto, seus admiradores liberais mais ardentes, muitos prestes a embolsar seu primeiro salário no governo, ainda querem que o 44º presidente americano use a força de seus voluntários. Eles falam de montar novos grupos de campanha poderosos para argumentar em favor de suas prioridades - para superar os republicanos e promover um programa verdadeiramente liberal.

Uma abordagem combativa da era Bush é pouco provável. Vai contra a teoria de mudança na qual Obama acredita, que se preocupa com a retaguarda tanto quanto com a vanguarda. Seus admiradores mais ferventes talvez fiquem duplamente desapontados. Obama não pode levar seu movimento para os corredores do poder americano. Mesmo que pudesse, seus defensores achariam sua moderação menos cativante do que esperavam.

(James Crabtree é vice-editor da "Prospect")

Tradução: Deborah Weinberg

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