Desgosto no aniversário do Irã

Christopher de Bellaigue

Pela maior parte desta década, enquanto o preço dos hidrocarbonetos quebrava recorde após recorde e grandes exportadores de petróleo observavam seus ganhos saltarem, o Irã parecia capaz de superar todos os choques lançados contra ele pela política internacional, especialmente por George W. Bush. Teerã prosperou enquanto Bagdá e Cabul sofreram, e uma nova classe média deixou de lado antigas austeridades revolucionárias e descobriu o consumismo.

Hoje, talvez pareça ao visitante casual que pouco mudou em Teerã. Mas nem tudo é como parece.

Quando a crise financeira global se iniciou no ano passado, o presidente Mahmoud Ahmadinejad argumentou que a economia do Irã seria protegida por sua orientação interna. Apesar de toda sua participação entusiasmada no comércio internacional - o Irã é o segundo maior exportador de petróleo da Organização de Países Exportadores de Petróleo e é um importante importador de alimentos, bens de consumo e materiais de construção - o país não é plenamente integrado ao sistema econômico global. Está claro até para os defensores do governo que o Irã enfrenta uma aguda dor econômica. Essa é a consequência da atitude esbanjadora de Ahmadinejad diante da queda do petróleo e da sua incapacidade de se preparar para seu fim inevitável.

Quando Ahmadinejad assumiu a presidência após o clérigo reformista Muhammad Khatami, que tinha terminado seu máximo de dois mandatos consecutivos, a economia estava esclerótica, mas funcionava. Khatami tinha usado liberalmente uma reserva para os dias de chuva feita do excedente do petróleo, chamada de fundo de estabilização do petróleo, mas seu governo também fez esforços modestos para tirar a economia de sua dependência do petróleo e estimular os iranianos, especuladores imobiliários inveterados, a investirem seus riyals em manufatura. Ahmadinejad conquistou os iranianos que se sentiam excluídos da prosperidade de Khatami ou o viam como uma mudança para o niilismo ocidental. Ele foi eleito não apenas por sua religiosidade e estilo de vida humilde, mas também por sua promessa de distribuir a receita do petróleo com o povo. Uma vez eleito, foi exatamente o que fez.

De acordo com números do Banco Central, o governo gastou US$ 130 bilhões (em torno de R$ 260 bilhões) da receita do petróleo nos últimos três anos. O governo de Khatami por outro lado, usou US$ 97 bilhões (cerca de R$ 194 bilhões) da mesma fonte em todos seus oito anos de mandato. Repetidamente, altos economistas e políticos da oposição advertiram sobre as más conseqüências das políticas de Ahmadinejad - com razão, como está claro agora. A inflação, que estava pouco acima de 10% quando ele foi eleito, está alcançando 30%. O poder de compra dos iranianos foi erodido, particularmente no que diz respeito à moradia e alimentação. Pela primeira vez em uma década, a classe média está se tornando menos próspera.

Ahmadinejad não conseguiu diversificar a economia - um objetivo tão urgente que foi firmado em um plano de cinco anos para todos os governos, independentemente de orientação ideológica. Pelo contrário, argumenta Saeed Leylaz, crítico proeminente do governo, a dependência do Irã sobre o petróleo como fonte de renda aumentou mais do que sete vezes desde que ele chegou poder. O recente colapso no preço do petróleo, de um pico no verão de quase US$ 150 para cerca de US$ 35 por barril em meados de janeiro, está lembrando os iranianos de sua vulnerabilidade aos ventos externos.

De acordo com Tahmasb Mazaheri, ex-diretor do BC, "dias ruins" virão. Para o resto do mundo, a questão é como a dificuldade econômica afetará a capacidade do Irã de resistir à pressão internacional crescente para abandonar sua longa busca por auto-suficiência em combustível nuclear - uma posição que lhe permitiria produzir uma bomba atômica. A sensação de imunidade dos iranianos está finalmente sendo ameaçada - bem no final da presidência belicosa de Bush, quando se imaginaria que estaria mais forte. Muitos se lembram da última vez em que a queda no preço de petróleo coincidiu com um período de perigo estratégico - durante a longa e sangrenta guerra que o Irã travou nos anos 80 contra Saddam Hussein. Dificuldades tanto econômicas quanto militares obrigaram o aiatolá Ruhollah Khomeini, o primeiro líder supremo do Irã revolucionário a concordar com um cessar-fogo com o Iraque em 1988, uma decisão que ele comparou a beber um "cálice de veneno". Agora, os adversários do Irã esperam que os clérigos cedam novamente.

Neste ano é o 30º aniversário da revolução que derrubou o xá e fez do Irã uma República Islâmica - um híbrido político, parte teocracia, parte democracia, que se provou notavelmente resistente. O Irã desenvolveu um sistema bifurcado, onde o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, não pode ser questionado, enquanto muitos outros membros da elite governante, tais como o presidente e membros do parlamento, são sujeitos ao escrutínio eleitoral regular pelo voto universal.

No dia 12 de junho, Ahmadinejad concorrerá a um segundo mandato, e seu oponente mais importante talvez seja Muhammad Khatami, o reformista moderado que deixou o poder em 2005 e agora está sendo estimulado por seus partidários a levar seu turbante de volta ao ringue.

Desde 2002, quando foram revelados dados impressionantes de inteligência sobre a extensão do programa nuclear iraniano, as ambições do Irã tornaram-se uma questão de preocupação internacional. Envaidecido pela atenção mundial, o Irã cimentou alianças com xiitas no Iraque, Líbano e Afeganistão e agora se considera uma potência regional, com razão. Se conquistarem capacidade nuclear, os iranianos poderão pular seus vizinhos do Oriente Médio e ameaçar Israel, até este ponto o único poder atômico da região. Isso transformaria o Oriente Médio e aumentaria o prestígio do Irã entre os milhões de muçulmanos irritados com a cooperação de seus governos com os EUA.

A chegada de Barack Obama talvez represente menos mudança do que o esperado. Ele quer expandir a diplomacia com a República Islâmica; ele se opôs à invasão no Iraque, como fez o Irã; e compartilha um nome - Hussein - com o mais amado do imames xiitas. Entretanto, talvez seja mais fácil para Obama continuar com a política herdada de negociações multilaterais secas e pressão econômica. O embaixador americano na Agência de Energia Atômica Internacional prevê pouca mudança na abordagem americana ao programa nuclear iraniano.

O Irã hoje, contudo, não é o Irã do final de 2001. Na época, o temor com a ira dos EUA após os ataques de 11 de setembro levou até os clérigos de linha-dura a deixarem de pedir "morte à América" nas preces de sexta-feira. Teerã se esforçou para ajudar os EUA com informações de inteligência durante o ataque ao Afeganistão. O Irã queria evitar provocar os EUA e, pouco após a invasão do Iraque, propôs uma détente entre os dois países. A principal demanda dos iranianos era que os EUA assumissem publicamente que não tinham a ambição de derrubar a República Islâmica; de acordo com autoridades americanas, o Irã parecia disposto a diminuir sua associação com grupos armados, tais como Hamas e Hezbollah, que se opõem à existência de Israel. O governo Bush nem se dignou a responder.

Se Obama estiver falando sério sobre melhorar o relacionamento com o Irã, ele pode começar declarando sua intenção de não interferir nos assuntos internos do país e depois convidá-lo para negociações mais amplas para a estabilização do Iraque e do Afeganistão - uma abertura que reforçaria a noção iraniana de potência regional. E, mais importante, Obama precisa reanimar as tentativas de intermediar um entendimento entre israelenses e árabes.

Obama e sua equipe talvez queiram esperar pelos resultados das eleições presidenciais em junho antes de explorar suas opções de negociação. Isso seria um erro, porque nenhum presidente iraniano, inclusive Ahmadinejad, controla as políticas externa e nuclear. Na República Islâmica, que é construída sobre um sentimento anti-americano, o processo delicado de negociar com os EUA sem minar a ideologia oficial é um papel para o sistema de poder não eleito -composto pelo sucessor de Khomeini como líder supremo, Khamenei, meia dúzia de altas autoridades e outros clérigos e líderes militares. Esse poder continuará o mesmo, independentemente das urnas.

Enquanto isso, castigados pela ascensão do Irã, especialistas em política externa americanos abandonaram sua abordagem maximalista. Um antigo agente da CIA, Robert Baer, até argumentou que, como o Irã não é mais um Estado ideológico cego, agora é um aliado natural dos EUA no Oriente Médio. Tal pensamento talvez não convença os diplomatas cautelosos em torno de Obama, mas indica uma compreensão mais madura que a abordagem de Bush ao Irã funcionou tão mal quanto o resto de sua política para o Oriente Médio.

(Christopher de Bellaigue é jornalista.)

Tradução: Deborah Weinberg

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