O acordo de paz de Obama

Bernard Avishai

O presidente Obama pode estar cercado de especialistas, mas ninguém parece estar dizendo a ele o que realmente precisa saber sobre o conflito entre israelenses e palestinos: que ambos os lados são povos divididos.

A maioria das pessoas sabe, mais ou menos, que a Palestina é duas entidades: uma maioria na Cisjordânia, nominalmente liderada pela Autoridade Palestina -mas realmente por uma classe empresarial e profissional em Ramallah- e uma minoria islamita, centrada em Gaza, liderada por um discutivelmente pragmático mas indiscutivelmente totalitário Hamas. O que ainda não sabemos, entretanto, é que Israel também é dividido em duas entidades.

Há uma ligeira maioria secular, uma república de língua hebraica centrada em Tel Aviv que lucra cada vez mais com seus elos com o mundo exterior. Esta Israel é linha-dura em relação à segurança, mas contrária à anexação do território ocupado. Ela é comparativamente cosmopolita e de alta escolaridade, vagamente comprometida com as normas democráticas e portanto com um processo de paz. Ela consegue imaginar um Estado palestino ao lado de um israelense.

Mas há o segundo Estado israelense. Ele não é composto pelo um quinto de minoria árabe que poderia nunca aceitar um Estado judeu. Em vez disso, desde 1967, as políticas de assentamento sionistas de Israel e as leis que privilegiam a ortodoxia criaram um imenso Estado judeu dentro do Estado: ancorado em Jerusalém, altamente teocrático e profundamente envolvido nos assentamentos em andamento na Cisjordânia.

A Judéia tem menos escolaridade que seu primo hebreu e é instintivamente mais tribalista. Os judeus ortodoxos são em grande parte tutelados pelo Estado. A maioria vê a paz -isto é, um retorno de 2 milhões de refugiados palestinos para a Grande Jerusalém- como um fim do seu modo de vida.

Apenas com o entendimento das divisões fundamentais em ambos os lados é que o presidente Obama poderá romper o impasse. Na Palestina, as elites da Cisjordânia querem minar o Hamas, mas se recusam a combater aqueles que apóiam o Hamas por temer beneficiar Israel. Os israelenses seculares, por sua vez, não enfrentarão os judeus ortodoxos por temerem beneficiar os palestinos. Ambos os grupos de moderados temem a perda da solidariedade social em seu próprio lado, de forma que os líderes moderados se vêem presos. Anos de vinganças fazem o cinismo em relação à paz soar inteligente e corajoso. E considerando que um quarto das crianças que entraram nas escolas israelenses em 2008 são árabes, e outro quarto de ultraortodoxos de vários tipos, é mais fácil antecipar um futuro de limpeza étnica em vez de paz.

Não se engane: pesquisa após pesquisa mostra que a maioria dos palestinos deseja a paz com Israel. A elite de Ramallah quer cooperação em questões de negócios, ensino superior, construção e turismo. E a maioria dos israelenses quer a paz com a Palestina, por mais cética que seja em relação às instituições políticas palestinas. Ela sabe que seu próprio crescimento econômico e vitalidade cultural dependem da paz; seus filhos, que estão deixando o país em grande número, odeiam proteger e pagar pelos assentamentos.

Mas a aliança lógica -entre Tel Aviv e Ramallah, e contra os extremistas- parece impossível. Os líderes de ambos os lados não conseguem se imaginar provocando uma luta de curto prazo com seus próprios rejeicionistas, o que poderia até mesmo levar a uma guerra civil, visando uma negociação a longo prazo que estaria refém da primeira atrocidade. O Hamas e os extremistas israelenses não são contrários a um acordo de paz da forma como os republicanos se opõem a John Maynard Keynes. Eles mataram seus próprios líderes para que as coisas sejam como desejam.

É neste ponto que entram os Estados Unidos. Novas negociações são supérfluas; um acordo razoável já foi estabelecido em Taba, em dezembro de 2000, entre o governo trabalhista de saída de Ehud Barak e a liderança do Fatah atualmente no poder na Autoridade Palestina. As lacunas que faltavam foram preenchidas pelos "parâmetros Clinton" (que receberam o nome do ex-presidente) em janeiro de 2001. Eles incluem o uso das fronteiras de 1967, indenização e repatriação dos refugiados palestinos, Jerusalém como capital dupla e um Estado palestino não militarizado, reforçado por uma "força internacional". A secretária de Estado, Hillary Clinton, deve vir algum dia a Israel para tornar seus os parâmetros de seu marido. Ela deve começar a falar sobre a paz no Oriente Médio como um problema global tão urgente quanto a reabilitação dos mercados financeiros.

Além disso, os Estados Unidos precisam se abrir para a visão do presidente da França, Nicolas Sarkozy, de uma união mediterrânea, com Israel e a Turquia como âncoras. Clinton deve oferecer ajuda para mediar um acordo que leve água turca para a Síria, Jordânia, Palestina e Israel. Deve ser discutido um mercado comum entre Israel, Palestina e Jordânia. O novo conselheiro de segurança nacional, o general James L. Jones, deve falar sobre um pacto de defesa bilateral com Israel e uma base naval americana em Haifa.

O mais importante, entretanto, é o governo Obama deixar inequivocamente claro que a implantação dos parâmetros Clinton é vital para o interesse nacional americano. Como, sem escorar as relações com os Estados árabes moderados e com os árabes em geral, os Estados Unidos podem esperar conduzir sua ocupação no Iraque a um fim razoável? Ser contrário ao plano de paz americano, em outras palavras, é ser contrário à América. Os líderes de Israel devem, como disse Bob Simon da "CBS", ser colocados em "pânico", de que o apoio americano agora é condicional a um comportamento específico, como o fim dos assentamentos.

Mas -e isto é crucial- o presidente deve destacar que as mudanças não precisam ser feitas às pressas. O Estado israelense precisa de tempo para repatriar, indenizar e abrigar sua própria população em retorno. Os colonos devem ter pelo menos cinco anos para encontrar novos lares, sob monitoramento da Otan. Os palestinos também precisam de tempo para formar uma força de segurança, como as de Ramallah e Jenin.

Se aprendemos algo neste último ano, é que as coisas que "não podem continuar" no final não continuarão. A recente carnificina em Gaza é um aviso de alerta: a paz não é impossível, mas Jerusalém poderia igualmente se transformar em uma Sarajevo em questão de semanas, com os árabes israelenses se juntando à briga. Como na Bósnia, os demônios tribais só podem ser contidos pela pressão externa e, se necessário, pela intervenção. Como todas as crises, a do Oriente Médio fornece uma grande oportunidade para o presidente Obama. Ele pode promover uma nova era na região. Mas, assim como seus planos para recuperação econômica, o maior risco está em pensar pequeno.

(Bernard Avishai é autor de "The Hebrew Republic" - Harcourt Books)

Tradução: George El Khouri Andolfato

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