O duto dos sonhos da Europa

Derek Brower

A discussão anual da Rússia com a Ucrânia em torno do gás irrompeu novamente em dezembro, suspendendo as exportações por quase duas semanas. Bruxelas agitou-se, Moscou e Kiev trocaram insultos e suas duas estatais de energia -Gazprom e Naftogaz- digladiaram-se antes de fecharem um acordo. (A Rússia queria aumentar a conta da Ucrânia, alinhando-a com os preços europeus, enquanto a Ucrânia queria mais dinheiro para transportar o gás.) A briga, mais séria que sua anterior em 2006, vai gerar ainda mais debate sobre as fontes energéticas da Europa. Três anos de dura retórica da UE, contudo, geraram pouco progresso. A falha da estratégia da UE -que a liberalização do mercado trará segurança em energia- ficou clara na medida em que as empresas de energia, despreocupadas com as necessidades de longo prazo mais amplas do continente, buscam lucros de curto prazo.

O gás é um ponto particularmente chamativo. Queima mais limpo que o óleo e o carvão, o que é importante para os planos de combate ao aquecimento global. Suas usinas também são baratas, o que as empresas de energia gostam. Isso promoveu a demanda: apesar da recessão, o consumo europeu vai pular de 493 bilhões de metros cúbicos em 2010 para 625 bilhões em 2030. As reservas locais em erosão farão com que as importações de gás pela Europa praticamente dobrem.

A UE está presa em uma sinuca. Quer mais gás em geral, mas menos da Rússia. Uma rota de fuga poderia ser importar mais gás natural liquefeito -gás convertido em forma líquida para poder ser transportado pelo mundo. Por enquanto, este tipo de gás é barato, mas exige terminais especiais caros para recebê-lo. E muitos desses estão em lugares errados. A capacidade excedente britânica, por exemplo, não ajuda a Bulgária. Propostas de construção de novas instalações, em geral, não avançam porque os vendedores querem preços garantidos, e os compradores não conseguem as verbas para construir os terminais sem a garantia de fornecimento. As empresas de energia, que se saem bem em um mercado apertado, têm pouco incentivo para construir novos depósitos, então o gás líquido navega para os terminais que já existem, frequentemente na Ásia. O resultado é típico dos fracassos de mercado que devem levar a UE a repensar seus instintos liberais.

As limitações do gás natural líquido tornam o projeto do gasoduto Nabucco mais importante. Espera-se que comece a bombear 31 bilhões de metros cúbicos por ano da Turquia para a Áustria em 2013. Esse esforço, que é apoiado pelos EUA, faz sentido de forma superficial. A Ásia Central tem gás suficiente, assim como o Oriente Médio. Andris Piebalgs, comissário de energia da UE, por anos insistiu na importância desse "corredor de gás do sul" para a Europa Oriental.

O projeto, contudo, enfrenta grandes problemas. O Turcomenistão e o Cazaquistão atualmente exportam seu gás pela Rússia. Os defensores do Nabucco dizem que, em vez disso, poderiam enviá-lo pelo Mar Cáspio para o seu gasoduto. Mas isso exigiria a aprovação russa. Improvável. Os mesmos patrocinadores acham que o Azerbaijão fornecerá 15 bilhões de metros cúbicos; metade dessa quantia é mais provável, dizem os analistas. Irã, Iraque e Egito são outras opções. Mas o Irã tem infra-estrutura fraca e nenhum dinheiro para melhorá-la. A promessa de energia do Iraque continua elusiva, enquanto o Egito depende de encontrar mais gás no mediterrâneo. Poucos bancos, portanto, estão se apressando para patrocinar a conta de 7,9 bilhões de euros (em torno de R$ 24 bilhões) do Nabucco. Mesmo na melhor das hipóteses, o duto atenderia apenas 5% da previsão de demanda europeia e nada faria para diminuir sua dependência de energia importada.

Então, qual é a resposta? Soluções técnicas que permitam que os países tenham gás excedente para enviá-lo aos que não têm reservas podem ajudar, como o financiamento de novas instalações de gás natural líquido. O progresso da UE em energia renovável e nuclear também é importante. Entretanto, a opinião pública, especialmente na Alemanha, opõe-se à energia nuclear. E os políticos não gostam de dizer às pessoas para gastarem menos energia. O que a Europa realmente precisa é de um vendedor com muito gás e com apetite para vender mais. Por sorte, existe um. Chama-se Gazprom.

O que quer que a Europa faça, sua dependência da gigante russa provavelmente apenas aumentará, se construir os dois novos gasodutos planejados -um pelo Báltico e o outro pelo Mar Negro- para evitar a complicada Ucrânia. Oponentes do primeiro projeto, chamado "Nord Stream", dizem que é uma jogada cara da Rússia com a Alemanha. O segundo, "South Stream", pode meramente duplicar o Nabucco. A única certeza é que os dois enriqueceriam a Gazprom enquanto aumentariam a dependência da Europa.

Entretanto, é necessária uma dose de realidade. A liberalização da energia não funcionou. Nabucco é um sonho. Melhor infra-estrutura de gás natural líquido e gasodutos dentro da UE não serão suficientes. Impedir a criação do Nord Stream -como querem muitos nos Bálticos, nos EUA e na Europa- é se auto-derrotar. O diretor de exportações da Gazprom, Alexander Medvedev, disse em 2008 que qualquer um que "assuma a responsabilidade de bloquear (o Nord Stream) terá que assumir a responsabilidade pela falta de gás". Gostando ou não, ele está certo.

Para evitar outro inverno frio no leste do continente, Bruxelas precisa compreender que a Gazprom é parte da solução, e não apenas o problema. O continente precisa de mais gás russo e não menos. Qualquer viciado em drogas diria o mesmo. Se você não consegue encontrar um traficante melhor, deve ficar com aquele que tem.

Derek Brower é jornalista

Tradução: Deborah Weinberg

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