O povo fantasma de Israel

Adam Lebor

Longe da guerra em Gaza, outra história está se desenrolando em Israel. A minoria árabe do país está se tornando cada vez mais radical.

Dezenas de milhares de cidadãos árabes tomaram as ruas de Sakhnin, no norte de Israel, em janeiro para protestar contra a invasão militar israelense na faixa de Gaza. Alguns ativistas árabes dizem que foi o maior protesto do tipo desde 1948, ano em que Israel declarou independência e que é chamado pelos palestinos de "al Nakba", ou "a catástrofe".

Durante as primeiras décadas de existência de Israel, a minoria árabe ficou inativa, intimidada pelo Shin Bet, o serviço de segurança interna, e pela experiência de viver sob o poder militar, que em algumas áreas durou até os anos 60. Eles eram chamados de "árabes israelenses". Nada mais. Cerca de 20% da população de 7,3 milhões de Israel é árabe, que cada vez mais chamam a si mesmos de "cidadãos palestinos de Israel".

Os protestos de Sakhnin representam o último estágio de uma confiança cívica em evolução que usa a liberdade da democracia israelense para articular uma identidade nacional palestina dentro das fronteiras de Israel.

Para os que fugiram em 1948, os árabes que ficaram colaboram com
Israel: eles falam hebraico, pagam impostos e são cidadãos israelenses. Eles também são motivo de inveja: apesar da relativa pobreza entre os árabes israelenses, eles têm oportunidades econômicas e educacionais muito melhores do que os que vivem na Cisjordânia ou Gaza.

Os árabes israelenses argumentam, ao contrário, que eles são os guardiões verdadeiros da nacionalidade palestina. Afinal, eles ficaram. Mas poucos recebem bem a idéia de mudar para um Estado palestino de existência real. Não é difícil ver o motivo - comparados aos seus semelhantes étnicos do resto do Oriente Médio, os árabes em Israel estão prosperando. Há uma classe média árabe emergente, que consiste de empresários e advogados, diplomatas e juízes, militares e artistas.

Israel tem até mesmo seu primeiro ministro de gabinete árabe-muçulmano, Raleb Majadele, encarregado de ciência, cultura e esportes para o Partido Trabalhista de Ehud Barak.

Apesar do sucesso, Majadele incorpora a desconexão e o paradoxo da vida da minoria nativa no Estado judeu. Ele insultou a direita israelense ao dizer para o jornal Yediot Aharonot que fica em posição de sentido ao ouvir o "Hatikvah", hino nacional do país, mas que não o canta.

"Hatikvah", que significa "esperança", é um poema musical vivaz que celebra a "alma judaica". Majadele e seus compatriotas árabes em Israel não são judeus. E esse paradoxo, de não ser judeu em um Estado judaico, inevitavelmente os confere uma posição de segunda classe.

Ainda existem profundas disparidades entre os judeus e os árabes israelenses - em termos de emprego, saúde, bem-estar social e educação. É quase impossível para os árabes comprar terra do Estado, e as taxas de mortalidade infantil são mais altas do que as dos judeus.

Oito por cento de todos os empregos de serviço civil devem ser dados para árabes, mas apenas um pequeno número é empregado pelo Estado. Não havia nenhum árabe trabalhando no Banco de Israel até o final do ano passado, observou um parlamentar, lamentando a discriminação "deliberada e intolerável".

"Foi criado um ciclo em que, por um lado, a população árabe não sabe como estabelecer um sistema de gerenciamento apropriado e, por outro, os governos negaram a eles o direito de melhorar sua qualidade de vida". Quem disse isso? O primeiro-ministro Ehud Olmert.

Tem havido um aumento paulatino na animosidade mútua entre os nacionalistas árabes e os israelenses de direita nos últimos anos. A decisão recente do Knesset de proibir os partidos árabe-israelenses Balad e União Árabe List-Ta'al de concorrer na próxima eleição geral
aumentou mais ainda a segregação árabe. A decisão foi aprovada pelos
37 membros do comitê eleitoral central.

Os membros acusaram os dois partidos, que juntos têm sete cadeiras no Knesset, de incitar e apoiar o terrorismo e recusar-se a reconhecer o direito de existir de Israel.
Mas a maioria dos observadores acredita que o Tribunal Superior invalide a decisão do comitê.

Nos últimos anos, muitos intelectuais palestinos e organizações não-governamentais também pediram para que Israel se torne um "Estado de todos os seus cidadãos". Algumas reivindicações fazem paralelo com a luta antiapartheid e argumentam que um estado palestino viável não é mais possível, e que os territórios palestinos e Israel deveriam se fundir em um só país com direitos iguais para todos os cidadãos. Essas demandas são irrealistas e contraprodutivas.

Elas provocaram a ira da direita e a consternação da esquerda israelense, que dá mais apoio à causa árabe. Para a esquerda e o centro israelenses, as injustiças sofridas pelos árabes-israelenses, desde a tomada da posse até a falta de funcionários árabes no Banco Nacional Israelense, são problemas de direitos civis que podem ser resolvidos.

Mas a elite árabe de Israel tem uma nova visão - e suas propostas são uma ameaça para a existência de Israel. As mudanças que eles pedem alterariam tanto a base de Israel que o Estado, de fato, não existiria mais. Seu nome seria mudado; o hino e a bandeira seriam abolidos, assim como a lei do retorno que fornece cidadania automática a judeus de todo o mundo.

Existiria um veto árabe em relação à legislação que afeta a comunidade árabe ou as relações entre árabes e judeus. Como esse Estado binacional ou multicultural funcionaria na prática e lidaria com a política econômica, fronteiras, defesa e relações exteriores ainda não foi explicado.

Ainda assim, alguém precisa encontrar uma solução de consenso, porque a irritação árabe já explodiu em violência repetidas vezes. Em outubro de 2000, motins tomaram conta das cidades e vilarejos árabes depois que Ariel Sharon, o então primeiro-ministro israelense, saiu para caminhar no Monte do Templo em Jerusalém.

Treze cidadãos árabe-isralenses foram assassinados a tiros pela polícia, que fizeram batidas contra os manifestantes desarmados. Uma comissão de inquérito determinou que os policiais tinham agido em defesa própria. Nenhum foi indiciado. Para muitos árabes, o veredicto foi a confirmação de seu status de cidadãos de segunda-classe; eles são cidadãos de um Estado que pode matá-los e permanecer impune.

Talvez a ficção possa lidar melhor com os paradoxos da vida de um cidadão árabe em Israel. Sayed Kashua é colunista árabe-israelense do jornal diário Ha'aretz e escritor premiado, que escreve em hebraico.
Seu livro "Let it Be Morning" se passa num vilarejo árabe-israelense que é repentinamente cercado por tanques israelenses. Os telefones são cortados, as ruas bloqueadas. Ninguém sabe por quê. O vilarejo se volta para os trabalhadores palestinos convidados. Eles são desnudados e forçados a ir em direção das linhas israelenses. Vários são mortos a tiros.

O fornecimento de água e comida começa a escassear. Então o motivo do cerco é revelado: Israel e Palestina assinaram um acordo de paz, e o vilarejo deve ser cedido para a Palestina numa troca de territórios. Mesmo assim, as notícias não trazem alegria, mas horror; os moradores acusam os judeus de traí-los. E isso não é um exagero - uma pesquisa feita em 2008 mostrava que 77% dos árabes-israelenses preferiam viver no Estado judeu a viver em qualquer outro lugar.

Adam LeBor é escritor e jornalista

Tradução: Eloise De Vylder

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