Obama está fadado a desapontar

Bartle Bull*

Barack Obama sempre esteve fadado a desapontar. Quando um indivíduo promete quase tudo a quase todos, ele inevitavelmente decepcionará muita gente. Mas poucos esperavam que o novo governo saísse de ritmo assim tão rapidamente. Transcorridas apenas algumas semanas após a posse, a Casa Branca de Obama está em apuros. O mercado de ações dos Estados Unidos perdeu um quarto do seu valor desde a eleição de Obama. O governo está em meio a uma crise total de quadros para a sua equipe: tendo perdido uma quantidade recorde de dez nomes escolhidos para cargos graduados, ele está com vários cargos importantes no Poder Executivo ainda desocupados - incluindo todos os postos do Departamento do Tesouro que estão abaixo do cargo principal. E o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, parece estar apavorado tanto em frente às câmeras de televisão quanto perante os executivos.

Até mesmo a imprensa que tem simpatia pelo governo está começando a falar de uma "crise de incompetência". No exterior, Coreia do Norte, Rússia, China e Irã adotaram um tom mais agressivo. Em casa, a agenda "cavalo de Troia" de Obama - usar a crise econômica como desculpa para promover mudanças sociais radicais em áreas que não têm relação com o retorno do crescimento econômico - ameaça arrastar o seu governo para areias movediças ideológicas quanto tudo o que a população realmente deseja são empregos.

Um presidente que tem ambições históricas jamais se contentaria com a resolução de uma simples recessão. Assim, no seu discurso na televisão perante ambas as casas parlamentares em fevereiro ele deu uma lição especial de história: "A nossa economia não entrou em declínio da noite para o dia. E os nossos problemas também não começaram quando o mercado imobiliário entrou em colapso ou o mercado de ações afundou". Ele disse que a atual recessão e os problemas imobiliários e financeiros têm causas mais profundas. E quais são esses males subjacentes que necessitam tanto do toque do xamã? O presidente citou quatro: energia, sistema de saúde, educação e dívida.

Os norte-americanos que se concentraram nas palavras do presidente e não no seu discurso caracteristicamente bem declamado acharam o diagnóstico desconcertante. De fato, a educação, o setor de energia e a política de saúde nos Estados Unidos, como quase em todos os países, precisam de ajuda. Mas será que as falhas dos Estados Unidos nessas áreas são de fato as causas do colapso do setor imobiliário e da paralisação do sistema bancário?

Dois dias após o seu discurso no Congresso, o presidente apresentou um esboço de 150 páginas do seu orçamento, que, no valor de US$ 3,6 trilhões, já representa a maior e a mais ambiciosa expansão do Estado norte-americano desde a Great Society (Grande Sociedade) de Lyndon Johnson. Apesar das promessas em contrário, o orçamento defende um déficit que - correspondendo a 12,7% do produto interno bruto - é quatro vezes maior do que quaisquer dos grandes déficits registrados durante o governo de George W. Bush.

Dirigido pelos compromissos colossais com as três áreas sociais prioritárias de Obama, o orçamento dele propõe ampliar os gastos federais, que em 2008 corresponderam a 21% da economia, para 28% em 2009. Acrescentem-se a isso os gastos nos níveis estadual e municipal, e a parcela governamental da economia dos Estados Unidos chegará a cerca de 45%, o que é mais ou menos o patamar do Reino Unido. O esboço do orçamento de Obama apresenta os adicionais US$ 634 bilhões para o sistema de saúde como um adiantamento do custo integral do serviço de saúde universal, que ele calcula que será o dobro da quantia que está fornecendo. Segundo Obama, o Congresso terá que encontrar o resto do dinheiro.

A educação nos Estados Unidos é uma questão pertinente aos Estados individuais, e não ao governo federal. A constituição é clara quanto a isso, mas Washington, especialmente durante o regime Bush, avançou inexoravelmente sobre esta área. E agora Obama apodera-se de forma sem precedentes dela em nome do governo central, ao pedir a aplicação de padrões universais nas escolas. As cifras referentes a essa iniciativa ainda não foram publicamente divulgadas, mas serão enormes.

Quanto ao setor de energia, acredita-se que Obama obtenha US$ 600 bilhões com a venda de direitos negociáveis de emissão de carbono. Isto representa fundamentalmente um grande imposto adicional sobre todas as atividades do setor privado - US$ 800 por ano em novos impostos para cada norte-americano. O novo imposto de emissão de carbono é formulado de forma a tornar a tradicional economia do setor de energia tão cara que as outras alternativas tornem-se viáveis.

Ainda que você aprecie o rumo liberal seguido por Obama, este é exatamente o oposto de uma política formulada para lidar com a atual crise, política esta que se fundamentaria simplesmente no fato de que os norte-americanos precisam de empregos.

A apressada e não debatida legislação de estímulo do presidente, no valor de US$ 800 bilhões, foi a maior medida individual de gastos na história do governo dos Estados Unidos. Ela pouco tem a ver com consertar a economia atual e tudo a ver com uma agenda social do tipo "grande Estado": 80% dos gastos previstos no projeto ocorrerão após o final deste ano, quando até mesmo a equipe de Obama prevê um saudável crescimento de 3% do produto interno bruto. Não é de se admirar que, apesar de ter passado duas semanas cortejando os parlamentares republicanos, Obama não tenha sido capaz de atrair nem um só deles, o que acabou com as suas promessas de campanha no sentido de adotar ações bipartidárias.

Assim, o plano do presidente Obama representa um realinhamento radical da economia política dos Estados Unidos. Para tornar este programa aceitável, Obama faz um uso agressivo de comparações com a Grande Depressão. Mas essa comparação é falsa.

A recessão atual consiste em uma contração econômica normal, em termos de gravidade e duração, segundo os padrões históricos. Considerando-se que todos os setores preveem que o crescimento econômico retornará na segunda metade deste ano, a economia dos Estados Unidos está se saindo substancialmente melhor do que durante a recessão de 1981-1982, quando o desemprego, que atualmente é de 8,1%, chegou a 10,8%.

Assim, apesar dos constantes paralelos traçados pelo presidente, a situação atual não é nem remotamente comparável à Grande Depressão. A produção automotiva caiu 90% em 1932, contra 25% em 2008. Em 1931 e 1932 mais de 10 mil bancos faliram, enquanto que em 2008-2009 houve apenas um punhado de falências similares. E em 1932 o índice de desemprego ultrapassou os 25%.

A economia dos Estados Unidos pode não estar tão ruim quanto Obama diz, mas ela encontra-se de fato em dificuldades. E ele sem dúvida deveria estar fazendo algo a respeito disso. No entanto, em vez disso, Obama está usando isso como uma oportunidade para promover aquilo que, para os padrões dos Estados Unidos, é uma agenda ideológica tremendamente ambiciosa. Do "New York Times", à esquerda, ao "Wall Street Journal", à direita, o orçamento de Obama tem sido classificado como a maior mudança nas políticas dos Estados Unidos desde a revolução Reagan na década de 1980.

Obama de fato prometeu algumas dessas enormes iniciativas políticas durante a campanha de 2008. Mas o maior momento de franqueza que emergiu deste governo até o momento deu-se quando o chefe de gabinete, Rahm Emanuel, afirmou: "Ninguém deseja jamais que uma crise séria seja desperdiçada. Esta crise proporciona a oportunidade para que façamos coisas que não teríamos sido capazes de fazer antes". Hillary Clinton, a outra grande força no governo, fez a mesma observação recentemente, em Bruxelas: "Jamais desperdice uma boa crise... Não a desperdice quando ela pode ter um impacto bastante positivo sobre a mudança climática e a segurança energética".

Isso é de tirar o fôlego. Os membros mais graduados do governo Obama estão confessando publicamente (e talvez involuntariamente) a existência de precisamente aquele tipo agenda cabalística secreta que era o fator mais odiado quanto ao governo Bush. Imaginem a apoplexia da base política de Obama se Dick Cheney tivesse chamado o 11 de setembro de uma "boa crise" porque ela proporcionou uma boa desculpa para uma invasão do Iraque que há muito o governo pretendia fazer.

A retórica alarmista de Obama é muito diferente do tom do seu herói econômico, Franklin Roosevelt. Os desafios atuais de Washington são pequenos se comparados àqueles enfrentados por Roosevelt. A natureza do Estado norte-americano mudou. Em 2008, após uma enorme expansão fiscal sob Bush, o governo federal respondia por 20% da economia. Em 1930 essa parcela governamental era de 3%. E, ao contrário de Roosevelt, Obama contou com o benefício de 80 anos de história.

Obama prometeu tentar usar impostos para procurar sair do buraco de gastos que está criando, com cada vez mais taxações sobre aqueles que ganham mais de US$ 250 mil por ano. Isso não tem como funcionar. Independentemente dos danos que tais desincentivos causarão aos investimentos e aos pequenos negócios, os impostos de estilo Obama, concentrados nos ricos, simplesmente não são capazes de arrecadar dinheiro suficiente para cobrir os gastos de estilo Obama. Incapaz de tapar o buraco com impostos, o Tio Sam será obrigado e imprimir papel moeda em uma escala jamais vista desde o governo Jimmy Carter.

Obama cita Ronald Reagan quase com a mesma frequência com que cita Roosevelt, mas caso ele deseje uma comparação apropriada para a situação atualmente enfrentada pelos Estados Unidos, o exemplo não seria nem a Grande Depressão nem a revolução Reagan, e sim os problemas da era Carter: debilidade e pessimismo impressionantes tanto no país quanto no exterior.

Ao retornar ao estado de espírito da breve (1931-1939) experiência do New Deal, que foi por si só uma anomalia nos 240 anos do país, Obama está revertendo o rumo filosófico do Estado norte-americano. Isso é o oposto daquilo que os norte-americanos moderados acreditavam que receberiam ao votarem nele.

Um centrista pós-partidário: essa foi a mentira do século. Agora o Obama real emergiu. A versão moderada e sustentável do Partido Democrata, personificada pelos presidentes Kennedy e Clinton, baseada na responsabilidade fiscal e em uma economia de baixos impostos e elevado crescimento, foi arquivada. A ideologia retornou. Para os democratas pragmáticos em um país politicamente moderado que ainda se baseia em uma filosofia de forte liberdade individual, essa expansão revolucionária do governo federal é muito preocupante. Não é essa a mudança que buscávamos.

Assim, a grande pergunta atual nos círculos democratas é: "O que Hillary Clinton fará a respeito disso?" Aqueles que a apoiaram ainda sentem que roubaram a eleição da sua candidata. Com o capital em greve, os Estados rebelando-se contra a agenda de dependência traçada pelo presidente, o secretário do Tesouro provavelmente prestes a ser substituído, vários cargos ainda não preenchidos, a imprensa liberal ansiosa e os índices de popularidade despencando, a saída de Hillary Clinton poderia afundar um governo que já dá a impressão de ser uma canoa furada, colocando à frente dela um caminho desimpedido para a candidatura democrata em 2012.

Pessoas sérias não gostam de estar associadas a uma Casa Branca que, oito semanas após a posse e quatro meses após a eleição, em um momento de conturbação econômica concreta, não conta com um único indicado para os vários cargos do Departamento do Tesouro, e muito menos com um indicado concreto sentado atrás de uma mesa de trabalho. Esse fiasco quanto ao preenchimento dos cargos repete-se nos departamentos de Defesa, de Estado e muitos outros. Nunca se viu nada semelhante a isso em Washington.

O Partido Republicano encontra-se tão confuso que está deixando a crise de Obama ser desperdiçada. O governador da Louisiana, Bobby Jindal, de 37 anos, um astro republicano em ascensão, fez um discurso sem brilho em resposta ao discurso do presidente no parlamento. O novo presidente do comitê nacional republicano, Michael Steele, teve recentemente um desentendimento público com o titã dos programas de rádio conservadores dos Estados Unidos, Rush Limbaugh. Sarah Palin e Mike Huckabee estão dividindo entre si a classe trabalhadora a direita religiosa, e Mitt Romney está silencioso por ora. No longo prazo, um governo Obama poderia ser resgatado por uma figura do tipo Newt Gingrich que trouxesse de volta a Washington, a partir da direita, políticas econômicas voltadas para o crescimento. Em tal caso, muitos senadores e deputados democratas não seriam reeleitos. Por ora, porém, a verdadeira ameaça ao presidente está dentro do seu próprio partido cada vez mais inquieto.

Para os democratas moderados que veem na tendência nacional predominante a melhor esperança do partido para a obtenção de uma maioria de longo prazo, é extremamente perigoso associar-se a uma presidência tão ideologizada. E a situação é ainda pior quando a ideologia em questão é aquela que tem a menor probabilidade de funcionar. Mais guerra e menos crescimento significa liderança e política ruins.

* Bartle Bull é editor de notícias internacionais da "Prospect"

Tradução: UOL

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