Todos juntos agora

Gerald Holtham*

O encontro dos líderes do G20 em Londres nesta semana, de forma preocupante, está sendo comparado com a fracassada conferência de Londres de 1933. Na época, o recém eleito presidente Franklin Roosevelt recusou-se a aceitar as políticas acordadas em Londres (provavelmente com razão). As perspectivas de sucesso hoje não são muito melhores, especialmente se aqueles reunidos não concordarem com um plano global de reflação e não tiverem a coragem de reformar o Fundo Monetário Internacional.

Em 1933 como agora, os EUA eram o principal jogador da economia mundial. Novamente, temos um presidente americano novo ansioso em preservar o apoio interno para um programa de reforma radical. Ele não vai querer passar a impressão de sacrificar os interesses americanos pelos estrangeiros. E há pouco consenso entre outros delegados sobre o que deve ser feito sobre a crise. Alguns governos agiram com audácia, mas outros ficaram para trás, com uma sucessão de respostas ad hoc, fazendo remendos, surpresos a cada volta que as coisas davam para pior.

Hoje a crise está em um estágio mais inicial; em 1933, a Grande Depressão já tinha três anos. Contudo, a contração da produção industrial em muitos países nos últimos seis meses tem sido comparável. Políticos alarmados responderam de formas variadas, nacionalizando bancos, cortando taxas de juros, expandindo a oferta de capital pela redução de impostos, comprando dívidas e entrando em déficits sem precedentes. A previsão do déficit dos EUA está em 12% do produto interno bruto e o do Reino Unido pode exceder 9% nos próximos dois anos. Muitos outros países estão em situação similar.

Tais políticas são inevitáveis, mas ainda assim causam preocupação. Um temor é que o gasto público e as decisões de investimento estejam substituindo os privados. Isso será difícil de reverter, e os impostos terão que subir para impedir que a dívida dos governos exploda. Outra preocupação é que os governos não serão capazes de reconhecer quando suas economias começaram a melhorar e reverter a política monetária em tempo de impedir uma inflação severa. De fato, alguns têm uma opinião mais preconceituosa e dizem que os governos vão achar a inflação a forma mais conveniente de reduzir a carga de dívidas acumuladas.

No final, essas preocupações não são o centro da questão. A deflação da dívida não será resolvida por muitos anos. O primeiro objetivo da reunião do G20 deve ser impulsionar e manter a demanda na economia mundial. É necessária uma ação rápida, e o método mais seguro é os governos cortarem impostos e aumentarem os gastos, enquanto "monetarizam" o déficit resultante. (Quando o governo imprime mais dinheiro para comprar sua dívida de volta, então mais dinheiro circula na economia como um todo.)

O governo britânico começou a fazer esse "relaxamento quantitativo" em fevereiro, mas nem todo governo pode fazer isso: alguns são limitados por grandes déficits orçamentários que, se piorarem, podem resultar em uma perda de confiança do mercado em seus bônus e moeda. Uma ação internacional coordenada é a única forma de evitar novas corridas às moedas, e todas devem aceitar sua parte na reflação geral.

É aí que os líderes do G20 enfrentam uma dura escolha, porque o tamanho da carga deve estar associado não apenas a quem é mais culpado pela crise, mas ser proporcional à capacidade do país de carregá-la. Isso significa que países com excedente em conta corrente - como Alemanha, China ou Japão - devem fazer expansões fiscais maiores proporcionalmente do que países em déficit, como Reino Unido e EUA. Se não, um conjunto de reflações desequilibradas vai tornar os desequilíbrios comerciais anteriores à crise piores e minar a confiança.

O primeiro deve ser passo concordar com um organograma firme de ação. Entretanto, é possível que alguns países não o cumpram, então a reforma das instituições econômicas globais também é essencial. O FMI obviamente é controlado pelos EUA e pelos "velhos" países europeus. Para tornar-se um monitor confiável, o fundo deve admitir quotas maiores e votar para dar direitos às grandes economias emergentes e a alguns países com excedentes. Uma grande barganha deve ser feita: em troca de assumir maior responsabilidade pela reflação fiscal, os países com superávit e outras economias asiáticas ganhariam influência. Um gesto simbólico útil seria a remoção da sede do FMI de Washington. As próprias regras do fundo ditam que deve estar situado em seu maior Estado membro, e o Congresso americano provavelmente não impediria isso. Mas se a zona do euro concordar em agir como um único membro, vai se tornar a maior participante. O fundo então poderia se mudar para um local mais neutro, como Bratislava.

Um FMI assim reformado precisaria de uma nova autoridade para policiar um plano de reflação para os próximos dois ou três anos. Para que tenha mais armas, deve reviver a cláusula moribunda de moeda rara, do Artigo VII de sua constituição. Qualquer país que estiver relaxando em seus compromissos com um superávit excessivo e insistente teria sua moeda formalmente declarada "rara". Isso permitiria que outros países discriminassem contra ela no comércio. É claro, poucos países aceitariam tal limitação em sua soberania, e outros vão objetar a qualquer infração à doutrina sagrada do comércio livre - mas a cláusula de moeda rara é como uma bomba atômica. Sua utilidade está em seu valor inibidor, não em seu uso. Além disso, um fracasso na reflação e uma depressão vão provocar o fim do comércio livre de qualquer forma.

O fundo também deve ser capaz de prover apoio a países mais pobres presos aos efeitos da recessão global. Um grande aumento nos acordos de empréstimos assim como nas subscrições e quotas, que são os meios pelos quais os membros fornecem recursos ao fundo, poderia ajudar a fechar os vãos criados pelo reduzido fluxo bancário de curto prazo para países em desenvolvimento, fornecendo o financiamento tão necessário para o comércio mundial. Se os recursos do fundo tivessem a mesma relação para o comércio mundial de quando foi criado em 1944, teriam que ser aumentados em quatro vezes. Para cumprir os desígnios do FMI maior imaginado originalmente por John Maynard Keynes, os recursos precisariam aumentar 16 vezes.

Originalmente, o FMI foi criado para uma era de coordenação política internacional, mas essa época se foi há muito. Durante o período de liberalização de 1980 em diante, as finanças privadas expandiram e assumiram muitas das funções do FMI, como de empréstimos entre países ricos e pobres. Mas, com as finanças privadas em crise e uma cooperação política internacional urgentemente necessária, essas instituições agora devem ser reforçadas.

Politicamente, será difícil. O FMI original foi resultado da hegemonia americana. Agora, só pode ser reformado por um acordo internacional envolvendo uma dúzia de agentes internacionais substanciais. Alguns países que dominaram o fundo até hoje, como o Reino Unido, terão que sacrificar seus papéis principais. Os políticos serão tentados a se retirar para atividades tais como atacar portos seguros de impostos ou fundos "hedge". Ainda assim, precisamos esperar que, contra todas as probabilidades e em desafio aos precedentes históricos, a liderança do atual G20 esteja à altura da ocasião e cumpra as necessidades imperiosas dos tempos.

*Gerald Holtham é ex-diretor do Instituto de Pesquisa de Política Pública.

Tradução: Deborah Weinberg

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