As novas guerras civis são repugnantes, brutais e longas

Monica Toft*

Esta é uma época movimentada em termos de guerras civis. O exército cingalês penetrou profundamente em território tamil, buscando uma vitória decisiva. Os assassinatos na Irlanda do Norte demonstram como perdedores inconformados tentam ganhar vantagem sobre os rivais em qualquer processo político. Além disso há o perigo de que guerras civis recém-pacificadas, como as do Iraque e do Sudão, ressurjam, enquanto a recessão global pode provocar o aparecimento de outras.

Primeiro, as boas notícias. Se a opinião pública na Irlanda do Norte servir como indicador, a violência fracassará. Uma grande parcela da população considera os assassinos elementos criminosos, e a simpatia pelas vítimas é grande. No entanto, o mesmo não se aplica ao Iraque ou ao Sudão. Neste último país, cláusulas vitais do acordo da paz de 2005 ainda não foram implementadas. Já no Iraque, uma paz estável parece ser improvável por muito tempo. E o mais preocupante é que tudo indica que as lutas internas no Paquistão poderão desandar para uma guerra civil total.

Atualmente sabe-se mais como tais guerras começam e terminam. Desde 1940, o mundo presenciou mais de 130 guerras civis. A maioria delas terminou; somente cerca de uma dúzia continua em andamento, em países como Afeganistão, Mianmar e Congo. Mas a maneira como elas terminaram transformou-se. Antes do término da Guerra Fria, mais de 90% das guerras civis terminavam em uma vitória clara, ou do governo ou dos rebeldes - é esse tipo de conclusão definitiva que o governo do Sri Lanka está desejando (os rebeldes venceram cerca da metade de todas as guerras). Mas, desde a queda da União Soviética, aproximadamente a metade de todas as guerras civis terminaram através de negociações. O Acordo da Sexta-Feira Santa na Irlanda do Norte é um bom exemplo disso.

Essa transição ocorreu em parte porque as causas das guerras civis mudaram. As antigas guerras civis costumavam ser travadas por causa de território e dinheiro. Hoje em dia, a luta por poder e recursos deu lugar a conflitos que giram em torno da capacidade de praticar uma fé, falar uma língua e determinar quem é o seu vizinho.

Tantas identidades estão em jogo nos conflitos civis que é difícil fazer generalizações - e, portanto, o estudo desses conflitos é impopular entre os acadêmicos, que sabem que são as grandes teorias, e não o conhecimento localizado, que garantem boas carreiras.

Mas, nos últimos anos, políticos e acadêmicos começaram a aceitar uma realidade sombria: as cerca de 130 guerras civis ocorridas desde 1945, em uma média aproximada de 22 por década, mataram de 14 milhões a 33 milhões de pessoas (é difícil chegar a números exatos) - com uma média de 91 mil a 187 mil mortes para cada guerra. Tais números demonstram que as guerras civis são mais destrutivas e mais difíceis de serem contidas do que as guerras entre países, travadas por desentendimentos ideológicos ou pela posse de riquezas. Elas também duram mais tempo e tendem a tornar-se mais complicadas a medida que se desenrolam (pensem no Congo ou na Colômbia).

No entanto, as guerras civis baseadas em questões de identidade são as piores de todas, não só porque a identidade - seja nacional, étnica ou religiosa - pode funcionar como um disparador dessas guerras, mas também porque para acabar com tais conflitos faz-se necessária uma ameaça verossímil de danos e a promessa de benefícios às partes beligerantes.

Isso nos leva a um dilema moderno peculiarmente doloroso. Sabemos que, tradicionalmente, as guerras civis terminam quando alguém vence. Sabemos ainda que os atuais conflitos civis, baseados na questão da identidade, são particularmente letais. Mas os governos não apoiam mais as intervenções militares como um meio verossímil de garantir acordos negociados. Em vez disso, eles recorrem ao oferecimento de cargos privilegiados e vantagens financeiras. Isso significa que um número cada vez maior de guerras civis está atualmente ressurgindo após alguns anos de paz problemática.

A abordagem aparentemente mais racional dos acordos negociados, adotada desde a década de 1990, tem uma possibilidade três vezes maior de fracassar do que a antiquada imposição da força. A guerra civil sudanesa é um caso típico disso. Nem mesmo os vários anos de uma brutalidade dolorosamente óbvia por parte de Cartum foram suficientes para estimular as democracias liberais a fazer uma ameaça crível.

Portanto, aquilo que ocorrerá no Iraque, e talvez no Paquistão, continua sendo uma questão em aberto. A situação do Iraque indica que poderá haver uma continuidade da guerra civil. Os Estados Unidos estão exercendo pressões para a adoção de um acordo debilmente negociado, mas o governo iraquiano é frágil e nenhuma das partes confia nele. A transição do país rumo à estabilidade será tempestuosa - perturbada por divisões entre curdos, sunitas e xiitas, mas também por confrontos internos em cada uma dessas comunidades.

Além do mais, cada comunidade ocupa e domina regiões específicas do país; elas não são mais etnicamente misturadas, de forma que cada grupo possui uma base de operações. E o pior de tudo é que o Iraque é pobre, mas possui muito petróleo - fazendo com que valha a pena brigar por esse produto.

O Paquistão constitui-se em um problema por motivos diferentes. As guerras civis ocorrem tipicamente durante transições de poder, especialmente em países sem uma história de transferência estável de poder. A União Soviética, no final da década de 1980, a ex-Iugoslávia, na década de 1990 e o Iraque após a primeira Guerra do Golfo demonstram esse padrão. O Paquistão está passando por uma transição similar - uma crise política doméstica, mas que se desenrola simultaneamente na arena internacional, devido à proximidade do Afeganistão e do Irã. Acrescentem-se a isso os problemas do país relativos ao orgulho nacional e à identidade, para não falar do fato de o Paquistão possuir armas nucleares, e tem-se uma receita para encrencas.

Portanto, acabar com as guerras civis atuais é uma tarefa paradoxalmente difícil. Não estamos dispostos a intervir para acabar com elas ou ajudar um dos lados a vencer rapidamente. Mas nós tornamos mais difícil a garantia da paz porque também raramente permitimos que um dos lados vença. Como resultado, as novas guerras civis são repugnantes, brutais e longas. Contra este pano de fundo, a Irlanda do Norte provavelmente continuará sendo uma rara história de sucesso. Conforme constatamos no decorrer da história, uma nova guerra civil está sempre na iminência de eclodir. Com o recrudescimento da recessão global, elas poderão surgir com rapidez ainda maior.

* Monica Toft é professora de políticas públicas da Universidade Harvard

Tradução: UOL

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