O que poderá vir após o capitalismo?

Geoff Mulgan*

O sistema bancário americano enfrenta perdas de mais de US$ 3 trilhões. O Japão está em uma depressão. A China caminha para crescimento zero. Alguns ainda esperam que uma cirurgia de emergência possa restaurar o status quo. Entretanto, cada vez mais pessoas sentem que estamos em um daqueles pontos raros de inflexão quando nada será novamente o mesmo.

Mas se um sonho acabou, que outros sonhos aguardam nas sombras? O capitalismo se adaptará? Ou devemos nos perguntar de novo uma das grandes perguntas que agitam a vida política há quase dois séculos: o que poderá vir após o capitalismo?

Há poucos anos atrás a pergunta foi abandonada, considerada tão sensível quanto perguntar o que viria após a eletricidade. Mas a lição do próprio capitalismo é de que nada é permanente. Dentro do capitalismo há tantas forças que o minam quanto há forças que o conduzem adiante.

Nas primeiras décadas do século 19, as monarquias da Europa pareciam ter se livrado de seus desafiantes revolucionários, cujos sonhos foram enterrados na lama de Waterloo. Monarcas e imperadores dominavam o mundo e tinham provado ser extraordinariamente adaptáveis. Assim como os atuais defensores do capitalismo, aqueles que os apoiavam podiam argumentar de forma plausível naquela época que as monarquias estavam enraizadas na natureza. Mas assim como a monarquia se deslocou do centro do palco para a periferia, o capitalismo não mais dominará a cultura e a sociedade tanto quanto atualmente. Em resumo, o capitalismo poderá se tornar servo em vez de mestre, e a atual depressão acelerará esta mudança.

Para entender no que o capitalismo poderá se transformar, nós primeiro temos que entender o que ele é. Isto não é tão simples. O capitalismo inclui uma economia de mercado, mas muitas economias de mercado tradicionais não são capitalistas. Ele inclui o comércio, mas o comércio também há muito precede o capitalismo. Ele inclui o capital - mas os faraós egípcios e os ditadores fascistas também administravam superávits.

O historiador francês Fernand Braudel ofereceu talvez a melhor descrição do capitalismo quando escreveu sobre ele como sendo uma série de camadas construídas acima da economia de mercado comum de cebolas e madeira, encanamentos e cozinha. Estas camadas, local, regional, nacional e global, são caracterizadas por uma abstração ainda maior, até no topo se encontrar finanças sem corpo em busca de retorno em qualquer lugar, sem compromisso com qualquer lugar ou setor em particular, e transformando tudo e qualquer coisa em commodity.

O capitalismo tem um relacionamento complicado com a política: às vezes restringido e domado por ela, às vezes buscando dominá-la. O mesmo padrão pode ser visto nos Estados Unidos, onde ambos os partidos estão emaranhados em Wall Street -um motivo para terem tido dificuldade em responder a uma crise que desafiava tanto as suas suposições (os primeiros passos de Obama às vezes pareciam menos seguros e menos radicais do que os de Roosevelt em parte porque, enquanto Roosevelt procurou o conselho de pessoas de fora do sistema, Obama optou por pessoas de dentro, como Larry Summers e Tim Geithner).

Há apenas poucas décadas, havia grande interesse no que substituiria o capitalismo. As respostas variavam de comunismo ao gerencialismo, e de esperanças de uma era dourada de lazer a sonhos de um retorno à harmonia comunitária e ecológica. Mas o capitalismo inquieto continuava a fornecer base para a crença de que poderia destruir a si mesmo. Há uma geração, o cientista social americano Daniel Bell escreveu sobre as "contradições culturais do capitalismo", argumentando que o capitalismo minaria as normas tradicionais sobre as quais se apoia - a disposição de trabalhar arduamente, de transmitir legados aos filhos, de evitar o hedonismo excessivo. O Japão nos anos 90 foi um bom exemplo - seus adolescentes preguiçosos rejeitavam a ética de trabalho de seus pais que levou ao milagre econômico.

Os argumentos relacionados apresentavam a demografia como o calcanhar de Aquiles. O materialismo capitalista minava os incentivos para as pessoas terem filhos, sacrificando renda e prazer pelo esforço árduo da vida familiar.

Outros críticos enfatizaram a vulnerabilidade do capitalismo ao sucesso. Ganhos extraordinários de produtividade na manufatura reduziam sua participação no produto interno bruto, deixando as economias mais dependentes do setor de serviços cujo crescimento é inerentemente mais difícil. Há uma vulnerabilidade equivalente no consumo. Após atender com sucesso as necessidades materiais das pessoas, o capitalismo é ameaçado se então perderem o interesse no trabalho árduo e em ganhar dinheiro, optando pelo aconselhamento da nova era, a anos de pausa de meia-idade e aos fins de semana com três dias. A única resposta do capitalismo é investir cada vez mais na criação de novas necessidades alimentadas pela ansiedade por status, beleza ou massa corpórea, um resultado perverso que pode tornar as sociedades capitalistas desenvolvidas mais problemáticas psicologicamente do que seus pares pobres.

Todas estas críticas atingem alguns de seus alvos, apesar de que nenhuma dar alguma ideia de como as contradições do capitalismo poderiam ser resolvidas. Para encontrar algumas ideias de como a atual crise pode se ligar a estas tendências de longo prazo nós precisamos olhar para o trabalho de Carlota Perez, uma economista venezuelana cujos textos atraem cada vez mais atenção.

Perez é uma estudiosa dos padrões de longo prazo da mudança tecnológica. Na visão de Perez, os ciclos econômicos começam com o surgimento de novas tecnologias e infraestruturas que prometem grande riqueza; elas então alimentam frenesis de investimento especulativo, com aumentos dramáticos nos preços de ativos e outros. Os booms são então seguidos por colapsos dramáticos. Após estes colapsos, e períodos de turbulência, o potencial de novas tecnologias e infraestruturas é então percebido, mas apenas quando surgem novas instituições melhor alinhadas com as características da nova economia. Assim que isso acontece, as economias então passam por ondas de crescimento assim como de progresso social.

Antes da Grande Depressão, os elementos de uma nova economia e nova sociedade já estavam disponíveis - e encorajaram as bolhas especulativas dos anos 20. Mas elas não foram nem entendidas pelas pessoas no poder, nem estavam inseridas nas instituições. Então, durante os anos 30, a economia se transformou, nas palavras de Perez, de uma baseada no "aço, equipamento elétrico pesado, grandes obras de engenharia e química pesada... em um sistema de produção em massa para atender aos consumidores e aos enormes mercados de defesa. Precisaram ocorrer inovações radicais na gestão da demanda e na redistribuição de renda, dentre as quais o papel econômico direto do Estado talvez tenha sido o mais importante". O que resultou foi a ascensão do consumismo em massa e uma economia apoiada pela nova infraestrutura de eletricidade, estradas e telecomunicações. Durante os anos 30, não estava claro que inovações institucionais seriam mais bem-sucedidas, mas após a Segunda Guerra Mundial um novo modelo de capitalismo regulado pelo Estado surgiu, caracterizado pelos subúrbios e estradas, pelo bem-estar social e gestão macroeconômica, que serviram de base para o crescimento do pós-guerra.

Vista sob esta luz, a Grande Depressão foi tanto um desastre quanto uma aceleradora de reforma. Ela ajudou a promover novas políticas econômicas e de bem-estar social em países como Nova Zelândia e Suécia, que posteriormente se tornaram comuns por todo o mundo desenvolvido.

Uma implicação da obra de Perez é que parte do velho precisa ser varrido antes que o novo possa encontrar suas formas mais bem-sucedidas. Sob esta luz, escorar setores fracassados é uma política arriscada. Perez sugere que podemos estar à beira de outro grande período de inovação institucional e experiência que levará a novos acordos entre as reivindicações do capital, da sociedade e da natureza. Em retrospecto, estas acomodações periódicas são tão integrais ao capitalismo quanto as crises financeiras - de fato, apenas por meio de crises e reformas institucionais é que o capitalismo se adapta a um ambiente em mutação e redescobre a bússola moral que é tão vital para que os mercados funcionem bem.

Se outra grande acomodação está a caminho, esta será moldada pela tripla pressão da ecologia, globalização e demografia. As novas tecnologias - de redes de alta velocidade a novos sistemas de energia, fábricas com baixa emissão de carbono a software com código fonte aberto e medicina genética- têm um tema em comum: cada uma transforma potencialmente o capitalismo em servo em vez de mestre, seja no mundo do dinheiro, trabalho, vida cotidiana ou do Estado.

O consumo é o segundo lugar onde os sinais de mudança são inconfundíveis. Nos países altamente endividados, simplesmente haverá menos dele e mais poupança. É uma ironia que muitas das medidas adotadas para lidar com o impacto imediato da recessão, como os pacotes de estímulo fiscal, apontem na direção oposta do que é necessário a longo prazo. Mas já há fortes movimentos para restringir o excesso do consumismo em massa: o slow food, o movimento da simplicidade voluntária e as muitas medidas para conter o aumento da obesidade são todos sintomas de uma inclinação para o ver o consumismo menos como uma dádiva inofensiva e mais como um vilão.

Espelhando estas mudanças estão modificações em como as coisas são feitas, à medida que o capitalismo se afasta da destruição da natureza para algo mais próximo de um equilíbrio com ela. Visite as fábricas da BMW na Alemanha e você poderá ver um novo modelo de capitalismo que tenta reutilizar todos os materiais necessários para se fazer um carro.

O conhecimento também está dividido entre modelos capitalistas e alternativas cooperativas. Há uma década, todas as políticas industriais de cada governo valorizavam a criação e proteção da propriedade intelectual. Mas contrariando as expectativas, modelos diferentes também prosperaram. Uma proporção alta dos programas usados na Internet possui código fonte aberto.

O terceiro lugar onde devemos procurar mudanças é no mundo do trabalho. As variedades de experiência de trabalho são vastas, com enormes disparidades de pagamento, realização e poder. Em alguns setores a depressão dará um novo impulso à velha idéia de que os trabalhadores devem empregar o capital em vez do contrário. Em outros setores, há uma tendência a longo prazo de mais pessoas querendo que o trabalho seja um fim tanto quanto um meio, uma fonte de realização tanto quanto de renda.

Muitas dessas mudanças estão forçando os Estados a considerarem de novo como socializar os novos riscos. As duas últimas acomodações - a do final do século 19 e de meados do século 20- tratavam em sua raiz do risco, enquanto os governos assumiam a tarefa de proteger as pessoas do risco da pobreza na velhice, saúde ruim e desemprego. A China parece destinada a alcançar o Ocidente neste aspecto; ela precisa desesperadamente criar um serviço de saúde e Estado de bem-estar social viável caso o Partido Comunista deseje permanecer legítimo e conter uma reação política contrária aos excessos capitalistas. Em outros lugares o campo de batalha será os cuidados à população. Enquanto a população envelhece, em princípio é viável para todos segurarem a si mesmos, e mesmo que o seguro seja calibrado com base em resultados de DNA e estilos de vida. Mas a experiência sugere que é difícil projetar mercados de seguro para atendimento de saúde e social que sejam tanto eficientes quanto justos. Para a maioria, o abismo entre o que é necessário e o que é oferecido está crescendo, à medida que a expectativa de vida continua crescendo e a incapacidade se torna a norma. Em uma geração nós poderemos estar à beira de uma grande expansão da provisão coletiva, nascida de nossa vulnerabilidade compartilhada à incapacidade, demência e ficar sem filhos ou cônjuges que cuidem de nós. Esta provisão será moldada pelo acesso a uma informação mais precisa a respeito das disposições individuais, ou a respeito da eficácia dos tratamentos, e sem dúvida empregará capacidades de negócios. Mas é altamente improvável que será capitalista.

Os governos também poderão ser mais atraídos aos serviços financeiros. Até o momento, o setor de serviços financeiros tem sido notavelmente lento em oferecer produtos mais adequados às necessidades contemporâneas. Contas de bem-estar social; orçamentos pessoais para saúde; cotas pessoais de carbono. Tudo isso poderá se transformar em partes distintas da arquitetura de um Estado reformado que promova um pool dos riscos ao mesmo tempo que personaliza seus serviços.

A tendência mais longa é de ver o produto interno bruto com menos importância do que outras medidas de sucesso social, incluindo o bem-estar.

A crise do capitalismo é, é claro, uma global, e tem exibido as limitações das instituições globais que foram moldadas há meio século. A China caminha para se tornar um agente dominante em um Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial fortalecidos, seguida pela Índia e Brasil. O G20 está superando o G8 como o clube que importa. E no aguardo estão possíveis novas instituições para policiamento e gestão do carbono.

O resultado é que um grande espaço político está se abrindo. A curto prazo, ele está sendo preenchido com raiva, medo e confusão. A longo prazo ele poderá ser preenchido com uma nova visão do capitalismo, e seu relacionamento tanto com a sociedade e a ecologia, uma visão que será mais clara a respeito do que queremos para crescer e o que não queremos.

No passado as democracias domaram, guiaram e ressuscitaram repetidas vezes o capitalismo. Elas impediram a venda de pessoas, votos, cargos públicos, trabalho infantil e órgãos do corpo, e asseguraram o cumprimento de direitos e regras, assim como despejaram recursos para atender a necessidade do capitalismo de ciência e perícia, e foi desta mistura de conflito e cooperação que o mundo atingiu progresso extraordinário no último século. Nós precisamos reacender nossa capacidade de imaginar, e ver através da tempestade que ainda está se formando o que se encontra além.

Geoff Mulgan é o diretor da Young Foundation.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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