Por que não votei no CNA nas eleições da África do Sul

Mark Gevisser*

Em 27 de abril de 1994, junto com milhares de outros sul-africanos, esperei por horas numa longa fila sinuosa para votar nas primeiras eleições democráticas do país. Eu tinha 30 anos de idade, e apesar de ser um sul-africano branco, nunca havia votado. Assim como 63% dos eleitores, fiz um xis ao lado da imagem de Nelson Mandela e do Congresso Nacional Africano (CNA). Apesar de nunca ter sido um membro do partido, ser "CNA" é um ponto fundamental da minha identidade desde o final da adolescência. Não só adotei os valores do movimento de libertação, como também os achava essenciais, tanto para o meu processo de cura quanto para a brutalidade que dividia o país, para cruzar a fronteira racial e fundir as minhas aspirações com as da maioria. A maioria dos profissionais liberais e intelectuais do mundo multirracial do qual eu fazia parte sentia-se assim. Muitos de nós assumimos empregos no novo governo.

Hoje, 15 anos depois, quase ninguém que eu conheço ainda trabalha para o Estado. Um número significativo deixou o país; os que continuam aqui se retiraram ao conforto dos subúrbios, encontrando maneiras mais pessoas de continuar engajados. Talvez nossos sonhos utópicos tenham sido estilhaçados à medida que tivemos de enfrentar a realidade de uma sociedade perigosamente tensa. Muitos de nós foram vítimas do crime. Eu fui assaltado duas vezes na minha própria casa. Na terapia pós-trauma que fiz em seguida, tive de lidar com sentimentos de impotência, com a incapacidade de proteger a mim e à minha família. Isso fez com que eu percebesse o prejuízo que o crime causa à psique nacional.

Mas a violação do meu lar não é nada em comparação ao abatimento que sinto pela perda de meu lar político. Quando fui às urnas em 22 de abril de 2009, percebi que - pela primeira vez - era incapaz de votar no CNA. E não era só eu. Apesar de o partido ter mantido sua maioria, ninguém que eu conheço, branco ou negro, colocou o xis ao lado da foto de Jacob Zuma, candidato presidencial do partido, com facilidade. A maioria votou pela primeira vez para um partido de oposição, anulou o voto ou não votou. Poucos que conheço prenderam o nariz e votaram para o CNA de qualquer forma, por falta de alternativa melhor.

Em certa medida, esta é uma resposta ao próprio Zuma. Seus aliados diriam que as elites de classe média não conseguem apoiar um homem zulu tradicional, polígamo, sem educação formal e de origem rural e pobre. Com certeza muitos sul-africanos se sentem assim. Mas para meus amigos e eu, a falta de educação formal é irrelevante. Se fôssemos brasileiros, teríamos votado em Lula, que também é um autodidata. De fato, acho que a conexão de Zuma com o povo é um de seus poucos pontos fortes.

Mas nosso desconforto é baseado em seu populismo manipulativo e sua falta de discernimento. Zuma foi absolvido de acusações de estupro em 2006, mas o caso contra ele revelou uma falta de discernimento chocante. Ele manteve relações sexuais, sem proteção, com uma mulher instável, portadora do vírus HIV, que o via como "pai". E permitiu que uma máfia de defensores da misoginia causasse o caos fora do tribunal. Ele também deu declarações - contando como batia em homossexuais na juventude e enviava meninas grávidas para escolas especiais - que sugerem o retorno a um patriarcado conservador, contrário aos valores democráticos liberais do CNA de Mandela. Como um homossexual, casado com meu parceiro, fui beneficiário das políticas sociais progressistas do CNA. Temo que o CNA de Zuma acabe com elas.



Zuma fala duro sobre o crime, é claro, mas de uma forma que sugere a solução fácil da vigilância. Logo antes da eleição, ele atacou juízes do tribunal constitucional - o tribunal mais alto do país, que já o condenou - sugerindo que planejava ignorar a promoção do chefe de justiça, por este ter admitido que servia ao povo em primeiro lugar, e não ao CNA.

Zuma também passou uma década lutando contra acusações de fraude ligadas a Sheik Schabir, um velho camarada e conselheiro financeiro do CNA, que foi preso por solicitar propinas em nome dele. Zuma alega que as acusações são uma conspiração política, alimentadas por seu antecessor e rival, Thabo Mbeki. Logo antes das eleições ele apresentou provas dessa interferência na Promotoria Nacional, que retirou as acusações em vez de verificar as provas em tribunal; um ato de aparente conveniência política por parte de uma Promotoria supostamente independente. As provas consistiam em gravações secretas, feitas pela Agência Nacional de Inteligência, equivalente sul-africana da CIA. As gravações só poderiam ter sido passadas para Zuma de forma ilegal, sugerindo um abuso do poder estatal para ganhos políticos; o mesmo erro de que ele acusa Mbeki. Mesmo que os direitos de Zuma tenham sido violados, o caso revela sua falta de discernimento na escolha de colaboradores. Tanto Zuma quanto Mbeki são, portanto, responsáveis por um prejuízo inescrupuloso aos serviços de segurança da África do Sul, num momento em que a epidemia do crime piora no país.

E, portanto, o fato de eu ter perdido o lar político não diz respeito apenas a Zuma; mas também ao partido governante que perdeu suas amarras. O partido poderia ter dado as costas para Zuma e encontrado outra pessoa para substituir Mbeki; em vez disso, juntou suas fichas nele.

O CNA subjugou o interesse nacional por conta de sua própria luta de poder entre Mbeki e Zuma, submetendo o país inteiro a algo que é, na essência, uma briga de famílias. Liderando um Estado de praticamente um partido, o CNA tornou-se inflado e arrogante, seduzido por suas próprias mitologias de liberação, com um senso indevido de posse sobre o Estado e sobre o destino da África do Sul. (Zuma gosta de falar sobre como o país liderará até a chegada do messias.) Partindo dessa conjuntura, há um sistema de patronagem e suborno que destrói o próprio "Estado de desenvolvimento" que ele promete estabelecer.

As propostas eleitorais do CNA podem ser ilusórias - prometem um milhão de novos empregos por ano, apesar da crise econômica - mas têm as prioridades corretas: empregos, educação, saúde, a luta contra o crime e o desenvolvimento rural. Eu gostaria de lhes dar o benefício da dúvida - também porque a visão deles da democracia social é próxima da minha. Enquanto eu estava na cabine eleitoral, fiquei remoendo o fato de que o CNA tem muitas pessoas experientes e com princípios; pessoas que eu ainda reverencio como os libertadores do nosso país. Também não acredito, nem por um momento, que o CNA de Zuma poderá se transformar no Zanu-PF de Robert Mugabe.

Ainda assim, senti que era o meu dever democrático fazer o que eu podia para restringir a arrogância e o abuso de poder do CNA. Então votei de forma estratégica, para a oposição, mesmo não me sentindo em casa com nenhum dos partidos. O Congresso do Povo, um grupo dissidente do CNA que deixou o partido depois que Mbeki foi demitido em 2008, parece interessado apenas em proteger o legado dúbio de Mbeki, enquanto a Aliança Democrática permanece um baluarte insistente por interesses de uma minoria branca e "de cor". Mas talvez meu voto de protesto, e o voto de outras pessoas como eu, ajude a construir a oposição até o ponto em que ela possa fiscalizar de forma mais eficiente os excessos do CNA, ou até mesmo contribuir para um novo movimento que lembre o CNA de que seu mandato não é divino.

De uma forma ou de outra, senti uma responsabilidade opressiva ao votar este ano. A pior parte da minha decisão foi a distância que senti em relação às outras pessoas que estavam na fila; a maioria dos sul-africanos que continua se sentindo em casa com o CNA. Pela primeira vez na vida, votei com a minoria. Mas pelo menos me consola o fato de que essa minoria não é tão definida racialmente quanto era há 15 anos: a maioria dos negros de quem eu gosto e em quem confio também votaram contra o CNA pela primeira vez. Podemos ser estatisticamente insignificantes, mas representamos um ponto de partida: para todos nós, votar com a minoria parece ser um rito de passagem tão necessário para a maturação de nossa jovem democracia quanto foi votar com a maioria em 1994.

* Mark Gevisser é autor de "A Legacy of Liberation" (Palgrave).

Tradução: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos