A ascensão e ascensão da corporação

Colin Crouch*

A maioria das pessoas achava que o regime de política econômica que sucederia o keynesianismo no final dos anos 70 - geralmente chamado de neoliberalismo- era uma tentativa de chegar o mais próximo possível do livre mercado ideal. Nós agora sabemos que não era; parte do que se passava por sistema de mercado era na verdade negócios de risco irresponsáveis.

Todavia, o sistema hipotecário, de cartão de crédito e outras dívidas, apoiado por mercados secundários e derivativos, também tinha uma função positiva. Ele permitiu que muitas pessoas com baixa renda, particularmente nos Estados Unidos, continuassem consumindo e comprando mesmo quando seus empregos eram inseguros e os salários estáticos. Isso, por sua vez, manteve a demanda estável em um momento de incerteza econômica global. Pessoas em países como os Estados Unidos, Reino Unido e Irlanda, com a valorização dos imóveis e o crédito fácil, se beneficiaram mais diretamente. Mas elas, por sua vez, ajudaram a Europa, o Japão e as economias emergentes ao comprarem suas exportações. Sem a enorme irresponsabilidade dos mercados financeiros, nós todos seríamos mais pobres hoje do que somos - apesar de agora, é claro, haver uma grande correção em andamento.

Sob políticas verdadeiramente keynesianas, o governo assumiu a obrigação de estimular a demanda durante períodos de baixa confiança nos mercados privados. Nas duas últimas décadas isso foi substituído pelos pobres realizando sua própria rolagem da dívida, substituindo a dívida pública pela dívida privada. Fazer pessoas com fracos recursos financeiros exercerem um papel antes executado pelos governos serviu a um propósito coletivo útil. Mas só ocorreu devido a distorções de mercado insustentáveis.

Uma distorção envolve a informação. Para funcionarem de forma apropriada, os mercados necessitam de informação plena entre compradores e vendedores a respeito do que estão negociando. Defeitos sérios na informação são uma forma de fracasso de mercado. Os mercados financeiros estão nas mãos de empresas com dinheiro para pagar pelo melhor conselho profissional. Mas mesmo assim, estes profissionais altamente informados compraram grande quantidade do que agora é chamado de "papéis podres", sobre os quais tinham tanta informação quanto um menino de 12 anos comprando uma Ferrari.

A resposta para o enigma de como algo assim poderia acontecer está nos fracos incentivos que os mercados deram aos traders para adquirirem informação plena. Além disso, parecia que os riscos eram tão amplamente compartilhados que pouco os atingiria caso as coisas dessem errado. Quando os mercados secundários entraram em colapso, ninguém tinha uma idéia real de como exatamente o dinheiro foi perdido ou para onde foi.

O mercado é um ideal digno se, por meio do mecanismo de preço, ele assegura que a massa de atores não coordenados, buscando seus interesses próprios, produzam um bem coletivo. Ele só pode fazer isso quando possui certas características, incluindo fluxo de informação decente e poucas barreiras de entrada e saída. Mas a idéia do mercado que se tornou politicamente inserida na revolução neoliberal ignorou isso. Intelectualmente, o conceito dominante na economia não era o do mercado, mas o do ator solitário exercendo uma escolha racional. O mercado foi celebrado como uma forma de indivíduos poderem buscar suas aspirações sem se preocuparem com os fins coletivos.

Uma economia de mercado genuína deveria ver aumentos e quedas recorrentes da desigualdade. O fato das desigualdades geradas no e pelo setor financeiro anglo-americano continuarem crescendo devia ter sinalizado que não se tratavam de mercados sólidos, com baixas barreiras para entrada e saída. Mesmo assim, de uma forma curiosa, o sistema financeiro ajudou a manter a confiança do consumidor entre as pessoas com situações inseguras de mercado de trabalho. Mas isso não foi capaz de fornecer um verdadeiro equilíbrio de mercado, porque uma exigência importante para o funcionamento do mercado -informação precisa- estava corrompida; a busca de metas coletivas importantes se tornou dependente de distorções de mercado.

Este agora é um nó político sério. A tentativa de deslocamento para um sistema de mercado mais puro correria o risco de remover da economia capitalista moderna sua capacidade de sustentar o consumo das pessoas comuns, que precisam arcar com as incertezas produzidas pelos vários choques externos. Logo, nós precisamos de um novo John Maynard Keynes, como tantos comentaristas estão sugerindo? Por que simplesmente não usar o velho? O sistema keynesiano precisa ser visto não apenas como um sistema de interferência nos mercados, como passou a ser descrito, mas também como uma forma de intervenção que expanda o mercado. Se o governo intervir para sustentar a demanda geral, isso deixaria o restante da economia aberta para transações de mercado, amenizando os choques que caso contrário produziriam recessões e inflações.

Mas o keynesianismo por si só não basta. Como uma obrigação de ser avesso à inflação funciona em uma economia de atores egoístas buscando uma vantagem individual, a menos que uma disciplina rígida de mercado lhes imponha os interesses coletivos? A resposta política precisa ser a de dar aos empregadores e sindicatos um papel importante de diálogo uns com os outros e com o governo. Este modelo, conhecido como neocorporativismo, foi considerado em declínio durante os anos 80, mas ainda exerce um papel importante em vários países europeus menores - os nórdicos, Áustria, Holanda e, até certo ponto, a Bélgica.

Em muitos outros países, as associações tanto de empregadores quanto empregados decaíram tanto nos últimos 25 anos que é duvidoso que possam exercer um papel disciplinador. As associações setoriais agora foram substituídas por grandes corporações individuais. Isso se deve em parte à ascensão da economia global, com um número crescente de empresas não pertencentes ou identificadas a um país em particular, e portanto desinteressadas em ingressar em associações nacionais ou em se preocuparem com interesses nacionais. Além disso, como empresas globais elas têm uma influência sobre os governos, que vem da oportunidade de sair "à compra do regime". As maiores oportunidades para as grandes empresas interagirem com a política derivam da agenda de privatização e terceirização. Há grandes vantagens em ser bem relacionado nos círculos políticos.

A grande corporação individual, portanto, se tornou politicamente importante. É mais uma forma como a economia de mercado incorpora elementos que contradizem os termos do mercado.

Se este processo ajuda a produzir resultados que os próprios mercados não poderiam obter, ou meramente os corrompe, é difícil saber. Mas tem implicações políticas importantes. Quando as empresas se tornam atores no reino público como organizações, e não simplesmente como participantes do mercado, não há restrição para que tentem influenciar os governos. Elas próprias se tornam alvos das exigências políticas.

Empresas inteligentes não esperam para se tornarem alvos de campanhas hostis, que podem manchar suas reputações junto aos consumidores e mesmo junto aos investidores, mas sim revisam suas operações para minimizar a atenção negativa. Isto é conhecido como responsabilidade social corporativa. Essas empresas se tornam atores políticos em um sentido que não envolve a idéia de lobby. À medida que os governos e partidos políticos começam a ter receio de incomodar as grandes empresas, por temerem que possam se mudar, o conflito político em torno das empresas é transferido do Parlamento para as próprias empresas e para os movimentos e campanhas sociais que monitoram, criticam e às vezes negociam com elas.

Esta está se tornando uma arena política bastante agitada, mas não é uma verdadeiramente democrática. Onde ela é vibrante, ela representa o lado otimista do que está se tornando uma sociedade pós-democrática - uma sociedade onde as instituições formais da democracia sobrevivem, mas onde o verdadeiro conflito político é mínimo e cada vez mais trivializado.

Hoje, há um novo apreço pelo papel do governo na regulamentação de mercados imperfeitos. É possível presumir, portanto, que o poder político das grandes corporações diminuirá. Em alguns países isso poderá acontecer, e no futuro imediato haverá regulamentação mais dura do comportamento dos bancos por parte do governo em quase toda parte. Mas nos países que passaram a depender de empréstimos em massa para manter a confiança do consumidor, haverá em breve um desejo de volta aos velhos tempos de boom imobiliário apoiado por mercados de maior risco. Gradualmente os bancos convencerão os governos que a regulamentação está restringindo seu empreendimento - e os governos darão ouvido aos argumentos.

Nós podemos esperar uma série de resultados políticos no mundo desenvolvido nos próximos anos, incluindo uma revigoração do neocorporativismo e da gestão clássica de demanda; uma disputa política entre as corporações e seus críticos sociais; e um aumento do papel político das empresas gigantes do setor financeiro à medida que desenvolverem seus próprios códigos. Este último resultado pode parecer estranho. Por que uma crise de legitimidade dos bancos levaria a um crescente domínio político por parte deles? Em vários países, eles permanecem as instituições mais poderosas: eles penetraram nos governos; nós estamos ainda mais cientes de nossa dependência deles; e é difícil enxergar qualquer base alternativa de poder importante que possa desafiá-los.

Nenhuma dessas alternativas representa um sistema puro. Mas a complexidade da vida proíbe a pureza. É verdade, no final as contradições internas exercem suas tendências destrutivas. Não há um final para a história - mas podemos debater seriamente a escolha de alternativas temporárias diante de nós.

*Colin Crouch é professor da Warwick Business School

Tradução: George El Khouri Andolfato

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