Bebo, portanto crio

Philip Hunter*

A maioria das pessoas usa o álcool como um estimulante social e não criativo, eliminando a ansiedade com uma ou duas doses depois do trabalho; lubrificando seu discurso em vez de inspirar o intelecto.

  • Arquivo AFP

    O ex-primeiro ministro britânico Winston Churchill disse que o álcool foi fundamental para ele escrever suas memórias; durante os últimos anos surgiram provas de que algumas pessoas têm, senão um gene Churchill, em referência ao britânico, pelo menos um gene criativo para as bebidas

Ainda assim, vários grandes escritores, pintores e músicos parecem ter usado o álcool como combustível para a inspiração. Winston Churchill disse que ele foi fundamental para escrever "A Crise Mundial", suas memórias em seis volumes, declarando: "Lembrem-se sempre de que eu tirei mais coisas do álcool do que ele de mim".

O escritor William Faulkner bebia com menos frequência, mas dizia que não era capaz de encarar uma página em branco sem uma garrafa de Jack Daniels. Ludwig van Beethoven sucumbiu à influência do álcool na última fase de sua vida criativa. Entre os pintores, Vincent Van Gogh, Jackson Pollock, Francis Bacon e muitos outros gostavam de tomar um gole ou dois enquanto trabalhavam.

Personalidades como essas tornam o álcool parte do território da criatividade. Mas pouquíssimas pareciam se fortalecer com a bebida, o que levou à ideia de que existe um "gene Churchill", segundo a qual algumas pessoas teriam uma constituição genética que as permite permanecer saudáveis e brilhantes apesar de manterem um consumo de álcool que mataria outras. Mark Twain endossou esse ponto de vista ao dizer: "Meus vícios me protegem, mas matariam você!"

Não há dúvida de que alguns genes de verdade - especialmente aqueles com uma expressão alta de enzimas álcool-desidrogenase e tolerância à substâncias que quebram as moléculas do álcool como o acetaldeído - o químico da "ressaca" - contribuem para essa teoria. Ainda assim, até recentemente a ciência não tinha muito a dizer sobre o álcool e o processo criativo, restringindo-se a estudos sobre os danos, a tolerância e o vício. Durante os últimos anos, entretanto, surgiram provas de que algumas pessoas têm, senão um gene Churchill, pelo menos um gene criativo para as bebidas.

Apesar de uma ligação direta entre o álcool e a criatividade não ter sido estabelecida, o gene sugere que o álcool tem efeitos além da sedação e do relaxamento. Um estudo feito em 2004 na Universidade do Colorado (EUA) descobriu que cerca de 15% dos caucasianos tem uma variante genética, conhecida como variante-G, que faz com que o etanol tenha um comportamento mais parecido com o de uma droga opiácea, como a morfina, com um efeito mais forte do que o normal sobre o estado de espírito e o comportamento. Essa variante parece estar randomicamente distribuída entre a população: ela surge através de mutação, apesar de os fatores envolvidos em sua seleção ainda serem desconhecidos uma vez que, como todos os genes, ela não opera de forma isolada. (Provavelmente, no começo da sua evolução, ela tenha proporcionado vantagens como aumentar o alívio da dor.)

O estudo do Colorado testou o DNA de alunos que tinham um consumo de bebida de moderado a alto, para determinar se eles tinham o gene variante-G. Eles foram divididos em dois grupos de acordo com o consumo, e o álcool foi injetado diretamente na corrente sanguínea (para eliminar as diferenças das taxas de absorção). Os que tinham a variante-G produziam uma versão um pouco diferente de um receptor chamado mu-opiáceo, o que revela uma resposta mais forte do cérebro.

Como resultado, eles afirmaram ter sentimentos mais fortes de felicidade e alegria depois de sua injeção de álcool. Essa euforia inicial é normalmente seguida por um estado mais longo de relaxamento, que dura várias horas. Para os que têm a variante-G, esse período ajuda no processo criativo. Talvez seja necessário bebericar mais um pouco para manter o fogo aceso, apesar de que consumir mais do que isso pode apagar as chamas prematuramente, induzindo à letargia.

O efeito do álcool neste grupo não é o mesmo de um opiáceo. A euforia é muito menor do que com a heroína, por exemplo, uma vez que o álcool ainda exerce efeitos depressivos. Basta uma dose a mais para que o efeito soporífico predomine, superando as endorfinas e fazendo com que o portador da variante-G durma. Essa pode ser a razão pela qual Francis Bacon admitia que conseguia trabalhar bem depois de alguns drinques, mas não quando estava bêbado.

O efeito criativo do álcool, então, parece envolver um contraponto delicado entre o estímulo e o relaxamento. Diferente de outros efeitos colaterais da bebida, como uma tendência de tornar as pessoas melancólicas ou violentas, essa liberação de endorfina é positiva e prazerosa de observar. As pessoas com essa variante genética também parecem mais suscetíveis ao alcoolismo, talvez porque partam para uma busca cada vez mais vã das sensações agradáveis que costumavam experimentar depois do primeiro ou segundo copo.

A não ser pela exumação, seria impossível provar a ligação entre a variante G do receptor mu-opiáceo e a criatividade das personalidades históricas que bebiam. Mas alguns artistas da atualidade que bebem regularmente poderiam se voluntariar para um teste genético para o receptor mu-opiáceo. Enquanto isso, talvez o governo britânico queira ignorar o conselho de seu conselheiro-chefe de saúde de estabelecer um preço mínimo de 0,75 libras por dose de álcool; uma decisão como essa pode ter efeitos colaterais inesperados para a produção criativa do país.

*Philip Hunter é um jornalista freelancer de ciência

Tradução: Eloise De Vylder

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