O leste abalado

Por Victor Sebestyen*

Há cerca de 18 meses, uma amiga húngara comprou um apartamento novo em um dos distritos mais chiques de Budapeste. Era pequeno, mas bem planejado, e bastava esticar o pescoço para ver a vista do rio Danúbio. Ilona se apaixonou pelo apartamento ao procurar um novo lugar para morar depois do seu divórcio. O preço estava próximo do máximo que ela podia pagar, mas era viável. Se o pior acontecesse, ela poderia dividir as despesas com alguém.

Ela achou estranho quando o banco recomendou um financiamento em francos suíços. Mas as taxas de juros locais estavam na casa dos dois dígitos; um financiamento em forintes húngaros teria juros de 13% a 14%, contra 5% ou 6% dos financiamentos em francos ou em euros. Ilona, uma acadêmica de quarenta e poucos anos, ficou confusa. Mas a maioria de seus amigos estava fazendo igual, muitos entraram até em financiamentos em ienes japoneses. Tudo daria certo, disseram a ela, quando a Hungria entrou na eurozona. Se na época Ilona não entendia exatamente a globalização, durante poucos meses ela sentiu os benefícios de ter um financiamento de baixo custo pelo apartamento que adorava.

Então, no outono passado, veio a crise. O forinte entrou em colapso, caindo mais de 40% em relação ao franco até o final de 2008. De repente, o financiamento barato de Ilona passou a consumir três quartos do seu salário. Ela não conseguiu encontrar um inquilino ou comprador para seu adorado apartamento, muito embora tenha se disposto a vendê-lo.

Ela pode, entretanto, reclamar da classe política, como os europeus do leste vêm fazendo desde o ano passado. Em 2009, três primeiros-ministros de países ex-comunistas da UE caíram, e outros ainda devem cair. Em meados de março foi a vez do líder húngaro, Ferenc Gyurcsany, que negociou a ajuda de US$ 20 bilhões com o Fundo Monetário Internacional que impediu que a Hungria afundasse.

A ascensão e queda de Gyurscany é uma história típica de um oligarca do pós-comunismo. Ele liderou uma organização da juventude comunista antes de 1989, depois se tornou um dos homens mais ricos da Hungria, fazendo uma fortuna com seguros antes de se tornar líder dos socialistas húngaros. Há alguns anos, ele se tornou extremamente impopular quando veio a público uma gravação na qual ele dizia ter ganhado as eleições mentindo sobre a economia. "Nós mentíamos de manhã, mentíamos à tarde, mentíamos à noite", declarava com entusiasmo.

Apesar de soar cínico, ele estava tentando defender um ponto mais amplo sobre a vida pública depois do comunismo. Pode ser que os húngaros tenham dito as piores mentiras, mas a maioria dos líderes da antiga Cortina de Ferro também não tem sido totalmente honestos. No mínimo eles negam a dificuldade de se recuperar de décadas de ditaduras, não apenas no que diz respeito à economia, mas também do ponto de vista moral e cultural. Toda uma década de crédito e empréstimos estrangeiros - e uma ética de enriquecimento rápido - escondeu os problemas fundamentais que não foram enfrentados após 1989.

Na Europa ocidental, as pessoas erroneamente consideram o Leste Europeu como uma coisa só, "logo ali". Mas, fora a experiência de viver sob o poder soviético, esses países têm poucas coisas em comum.

Esse trecho de história compartilhada não moldará seus futuros, e normalmente eles têm mais diferenças do que similaridades. O sul pobre da Bulgária não é a mesma coisa que a Boêmia desenvolvida da República Tcheca.

E nem todos os países do Leste Europeu estão indo mal ou precisando de ajuda financeira. De modo geral, os países que rapidamente introduziram reformas de mercado depois de 1989 e tomaram decisões firmes em relação a benefícios e subsídios - como a Polônia e a República Tcheca - estão em melhor situação econômica. Talvez isso se deva ao fato de que eles tinham líderes populares, nos quais confiavam, como Lech Walesa e Vaclav Havel, para guiá-los por caminhos democráticos. Pode ser que a Polônia se vanglorie demais de sua economia. Mas a maioria dos indicadores sugerem que, mesmo com o crescimento negativo em 2010, o grande mercado interno do país o ajudará a se sair melhor do que a Grécia ou a Irlanda. A República Tcheca foi atingida por uma queda abrupta nas exportações, mas sua dívida é baixa e poucos moradores de Praga se deixaram seduzir pelos financiamentos em iene. Dias antes de o presidente Obama falar para milhares de pessoas na Praça Venceslau, o primeiro-ministro caiu. Mas nesse caso, assim como na Eslováquia e na Eslovênia, as dúvidas dizem respeito a alguns políticos, e não à política democrática no geral.

Países que hesitaram em fazer reformas depois de 1989 e em parte continuaram comunistas durante os anos seguintes - como a Bulgária - estão numa situação pior. Em meados de março, o primeiro-ministro Sergei Stanishev pediu para a UE administrar setores de seu país, incluindo a justiça e os sistemas de folha de pagamento estatais, numa nova forma de neocolonialismo voluntário. A Hungria fez tentativas de reforma, mas sucessivos governos emprestaram mais do que podiam, subsidiando serviços públicos para comprar o apoio do povo. A Ucrânia é o que mais preocupa, com uma crise política contínua (eles não conseguem encontrar um presidente e um primeiro-ministro que consigam ficar na mesma sala), corrupção épica e a proximidade de um colapso de suas exportações para a Rússia.

Os mais pessimistas temem que a fé na democracia evapore, assim como aconteceu parcialmente com a fé no mercado. Ou então que os antigos padrões se reafirmem. Na Polônia, uma recente eleição local teve de ser refeita porque pouquíssimas pessoas compareceram para votar, enquanto um protesto contra trabalhadores estrangeiros vindos da Ucrânia e Cazaquistão atraiu milhares. Na Hungria, muitos aliados do líder da oposição (e possível primeiro-ministro) Viktor Orban, usam regularmente o termo "cosmopolita" como um tradicional eufemismo para "judeu".

As partes mais confortáveis da UE não podem construir muros de proteção atrás dos quais as partes mais pobres devem afundar ou nadar.
A comissão nos oferece palavras elegantes sobre o fato de estarmos todos no mesmo barco. Mas durante o período eleitoral na "France profonde" [interior da França] ou na Bavária rural, os políticos devem agir de acordo com o que falam. O fardo das dívidas acelerou a queda do comunismo - a Alemanha Oriental estava gastando três quartos de seus rendimentos no pagamento de juros. Se nada for feito para nutrir as valores democráticos frágeis do Leste, eles poderão ser, mais uma vez, os responsáveis por matar a crença no capitalismo atrás da antiga Cortina de Ferro.

*Victor Sebestyen é autor de "Revolution 1989", que será lançado pela editora Weidenfeld.

Tradução: Eloise De Vylder

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