A ofensiva de charme de Obama

Christopher de Bellaigue

O discurso pela televisão do presidente Obama ao povo do Irã, em 20 de março, na ocasião do ano novo iraniano, representou um pequeno drama. Para a considerável (apesar de impossível de quantificar) minoria de iranianos que assistiu, via antenas de satélite ilegais instaladas em seus telhados, foi uma mudança bem-vinda da abordagem alternadamente ameaçadora e professoral de George W. Bush. Ao se comprometer com a diplomacia, Obama na prática rejeitou a opção de atacar a infraestrutura nuclear do Irã ou mesmo uma mudança de regime. Mas a pergunta para aqueles que assistiram permaneceu: o que a abertura de Obama proporcionaria?

  • Obama disse que o ciclo de suspeita e discordia nas relações entre os EUA e o islã deve acabar


O discurso de Obama marcou o fim da hostilidade ideológica cega dos Estados Unidos em relação ao Irã e o início de uma tentativa de reaproximação. Mas uma nova "parceria" com o Irã ainda é perigosamente difícil e muito depende de seu sucesso, incluindo a solução da disputa em torno de suas ambições nucleares e sua influência no Iraque e no Afeganistão. Para chegar a este acordo, Obama conta com uma nova equipe de especialistas em Irã no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança Nacional, alguns de origem iraniana. A equipe está sendo coordenada por Dennis Ross, um alto diplomata respeitado que não conta com a confiança de muitos muçulmanos, devido a uma inclinação pró-Israel durante os anos Clinton. Ross reconhece que os iranianos têm queixas e interesses legítimos e apoia a promessa de Obama de negociar sem pré-condições.

Para saber mais a respeito desta nova abordagem e sua probabilidade de sucesso, eu fui para Washington em abril. Lá eu encontrei a equipe de Ross atuando sob novas instruções: elaborar aberturas e decifrar cuidadosamente as mensagens enviadas de volta. "Nós não queremos perder nada que os iranianos estejam falando para nós", me disse um funcionário do governo. "Por tempo demais, os Estados Unidos e o Irã foram como navios passando um pelo outro à noite." Me foram entregues vários estudos de políticas recheados de teorias sobre as crenças, temores e ambições da República Islâmica. Um deles, "Lendo Khamenei", parecia estar em todas as mesas e começava assim: "Talvez não existe nenhum líder no mundo mais importante para a situação atual, porém menos conhecido e entendido, do que o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo do Irã".

O maior estímulo para os esforços do governo também é o maior obstáculo para o seu sucesso: o progresso do Irã na autossuficiência nuclear e a possibilidade de que seu programa ostensivamente civil possa ser convertido para uso militar. Muitos autores de políticas ocidentais acreditam que o Irã quer uma bomba e que sua obtenção de uma arma nuclear provocaria uma corrida armamentista regional envolvendo a Arábia Saudita, Egito e outros. Quanto mais esta questão permanecer não resolvida, mais vulnerável Obama estará às acusações de que está permitindo de forma imprudente o Irã se tornar nuclear, expondo Israel a um perigo mortal. Com tanto em jogo, a nova oferta de parceria não permanecerá sobre a mesa para sempre.

Obama se orgulha de escutar, assim como sua nova equipe para o Irã. Esta é uma grande oportunidade em comparação a Washington que visitei em 2003. Àquela altura, o Taleban parecia derrotado, o Iraque tinha caído e o governo Bush tinha rejeitado com desdém uma nervosa abertura iraniana visando uma distensão. Em reunião após reunião, funcionários do governo e analistas de centros de estudos se reclinavam, colocavam as mãos atrás da cabeça e descreviam como certeza milagrosa um país no qual vivi e eles, na maioria, nunca nem mesmo visitaram. Uma falácia comum era a de que o povo iraquiano só precisava de encorajamento americano para derrubar seus governantes teocráticos. E assim dinheiro foi despejado em fundos pró-democracia, tendo como resultado o Irã aumentando sua repressão aos ativistas políticos e a morte do frágil movimento de reforma.

O DISCURSO DE BARACK OBAMA

Sem causar surpresa, o discurso de Obama causou reações adversas junto aos neoconservadores que costumavam cuidar da política americana para o Irã, como Elliot Abrams, o vice-conselheiro de segurança nacional de Bush e um arquiteto dos planos do último governo para disseminar a democracia no Oriente Médio. "Foi tolice retirar a pressão militar do Irã", me disse Abrams em sua nova casa, o Conselho de Relações Exteriores. "Nós apenas concedemos legitimização em troca de nada. E qual foi a mensagem de Obama para todos aqueles iranianos com menos de 30 anos que não querem ser instruídos sobre o que fazer por um bando de sujeitos usando turbantes?" Talvez seja este aspecto da presidência Bush, onde os valores americanos eram apresentados como aspirações universais, que está mais ausente da nova política externa americana.

Mesmo assim, a disposição de Obama de escutar não garante o sucesso. Minhas entrevistas com autoridades diplomáticas, econômicas e militares me deram uma idéia de quanto a rivalidade dos Estados Unidos com o Irã foi institucionalizada; após três décadas, ela forma os preconceitos culturais e as opções táticas dos americanos. A ambição americana de encurralar o Irã determina a política em relação à Síria, Arábia Saudita e às monarquias árabes do Golfo Pérsico.

Mas é a questão nuclear que coloca mais pressão sobre o governo. Segundo alguns cientistas ocidentais, o Irã já gerou urânio pouco enriquecido suficiente em sua instalação em Natanz, na região central do país, para permitir a produção de combustível nuclear suficiente para uma bomba. Mas permanecem os obstáculos técnicos; segundo o secretário de Defesa americano, os iranianos "não estão perto de uma arma a esta altura". Se os iranianos continuarem rejeitando os pedidos europeus e americanos para suspender a adição de novas centrífugas às de Natanz, o tique-taque do relógio, e a pressão israelense, inevitavelmente causará desconforto a Obama.

E não será mais fácil para o Irã recalibrar as relações do que será para os Estados Unidos. Poderá ser ainda mais difícil. O antiamericanismo permeia não apenas as instituições iranianas, mas também faz parte da ideologia da República Islâmica, e apesar da mudança de políticas específicas poder ser relativamente simples em um Estado semiautoritário, cada diminuição dos insultos -o canto "morte à América" nas orações de sexta-feira, as aglomerações belicosas, a propaganda nas escolas- será usada pelos linhas-duras como evidência de uma traição aos valores revolucionários, podendo até mesmo ser sabotada.

O novo governo pelo menos tem evitado uma armadilha na qual caiu Bush caiu, que foi escolher para quais iranianos se dirigir. A equipe de Obama entende que, apesar de toda a visibilidade do presidente eleito do Irã, é o aiatolá Khamenei e sua comitiva (os "poucos não eleitos", nas palavras de Bush) que detêm o poder real. Não causaria surpresa se, além das rotas diplomáticas convencionais, os americanos abrissem um canal até o líder supremo, visando estabelecer uma agenda e harmonizar as mensagens públicas. Dennis Ross, pelo menos, defendia isso antes de sua nomeação.

Khamenei parece genuinamente não gostar e desconfiar dos Estados Unidos: por reivindicarem "interesses" espúrios no quintal do Irã, por seu apoio a Israel e por sua democracia e cultura popular. Sentado acima de um establishment político altamente dividido, sujeito a pressões tanto de linhas-duras quanto de moderados, ele deve estar tentado a voltar à posição padrão do Irã de odiar os Estados Unidos. Um presidente americano plausível e que soa agradável provavelmente é uma charada que ele não desejava.

Apesar de tudo isso, Khamenei nunca descartou uma distensão, desde que a considere como sendo de seu interesse. Esses interesses seriam servidos pela oferta de parceria de Obama -com a qual o Irã poderia esperar um fim das sanções e o reconhecimento de seu peso regional, em troca da aceitação de limites ao seu programa nuclear e um fim à oposição ao processo de paz no Oriente Médio? Muito depende das percepções de ambos os países de suas forças e fraquezas.

Muitos iranianos reconhecem que estão em uma posição relativamente forte. Nas palavras de um iraniano conservador bem-relacionado com o qual falei recentemente em Teerã: "Há poucos anos o Irã sentia que precisava da América para assegurar sua sobrevivência, mas este não é mais o caso. A América entrou em declínio. Sua economia está em dificuldades sérias". Ele acredita que os Estados Unidos agora precisam mais do Irã do que o contrário: "O Irã é uma ilha de estabilidade. Os americanos têm os clérigos a agradecer. Imagine se uma faixa de insurreição se estendesse do Afeganistão até o Iraque, passando pelo Irã; então ninguém seria capaz de atuar na região".

Há pouco mais de meio século, a amizade com os Estados Unidos -nova, idealista, imaculada por um passado imperialista- parecia uma alternativa atraente às velhas atenções neocoloniais do Reino Unido e da União Soviética. Agora, a abertura de Obama fornece a ambos os países uma chance de colocar um fim a décadas de ressentimento, desentendimento e desconfiança. Poderá não haver outra em muito tempo.

UOL ENTREVISTA: Cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Thomas White, comenta a importância do discurso de Obama desta quinta-feira (4)


Christopher de Bellaigue é autor de "Rebel Land" (Bloomsbury)

Tradução: George El Khouri Andolfato

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