Alimento suíno

Vivienne Parry

O site da Organização Mundial de Saúde (OMS) menciona calmamente algo chamado gripe A(H1N1). Mas a imprensa mundial viu o nome "gripe suína" e talvez, sem causar surpresa, rastreou sua suposta origem a um complexo de criação de porcos no México -equivocadamente. Por trás desta reação se encontra o sentimento de que a agropecuária industrial facilita a pandemia moderna -apesar de não haver quase nenhuma evidência disso.

O consumidor britânico costuma ser ambivalente em relação ao bem-estar dos animais, condenando o frango criado em confinamento mas o comprando assim mesmo. A crise da doença da vaca louca nos anos 90 levou ao abate de 4,5 milhões de cabeças de gado e tornou pública algumas das práticas (sem dúvida nojentas) envolvidas na produção de proteína barata para os seres humanos, como alimentar gado com restos de outras cabeças de gado. De lá para cá, o movimento ambiental, com sua visão simplista da agropecuária -pequeno igual a bom, grande igual a ruim- se juntou às campanhas populares dos chefs Jamie Oliver e Hugh Fearnley-Whittingstall para disseminar uma nova hostilidade contra a agropecuária de grande escala. Para muitos parece intuitivamente certo que algo tão ruim quanto uma pandemia de gripe venha, de alguma forma, desse coração das trevas.

Mas os fatos contam uma história diferente. Um estudo feito pelo respeitado Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos parece mostrar que a gripe suína veio de um "triplo rearranjo" de diferentes genes de vírus de gripe -suíno, aviário e humano- e que os elementos do porco também incluem uma contribuição genética de uma variedade europeia de gripe suína. Como os porcos europeus raramente, talvez nunca, viajam para tão longe quanto o México, o vaso para o rearranjo -o corpo físico no qual estes vários vírus se combinaram- provavelmente foi humano, não suíno. Autoridades da OMS acham que o primeiro caso pode ter sido um menino no Sul da Califórnia, sem nenhum contato com porco. No final, a probabilidade é muito maior de que os seres humanos tenham transmitido a gripe A(H1N1) aos porcos do que o contrário.

Mesmo grupos antiagropecuária industrial que poderiam reconhecer que a agropecuária intensiva não teve culpa desta vez, ainda insistem que se trata de uma pandemia que estava fadada a acontecer. Eles especulam abertamente se é realmente possível confiar na palavra dos conglomerados globais de alimentos, como a maior produtora de carne suína do mundo, a Smithfield Foods, a proprietária da instalação mexicana suspeita. A implicação é de que um retorno à pequena produção limitaria as doenças e melhoraria tanto a saúde do homem quanto do animal.

É claro, há produtores intensivos ruins que vendem frangos de confinamento como se fossem criados soltos, amontoando os porcos em espaços tão apertados que não podem se mover ou adicionando um excesso de corante rosa ao salmão de fazendas de criação. Mas qualquer número de animais, humanos ou não, criados de forma muito aglomerada sempre representa uma oportunidade para os micróbios. O deslocamento dos animais para o mercado sempre cria oportunidades de infecção, como vimos com a febre aftosa. Sempre que estão reunidos, seja em lugares fechados como passageiro lotando trens ou porcos em caminhões ou ao ar livre, como os frequentadores de um grande concerto ou frangos criados soltos, a simples presença de mais de um animal no mesmo local aumenta a probabilidade de doença, particularmente uma nova.

Mesmo a manutenção de cada porco isolado não resolveria o problema. Ele interagiria conosco e nós seríamos os portadores da doença. Se ele comer do solo, ele encontrará bactérias de solo e parasitas, já que outros animais -camundongos, pássaros ou raposas, por exemplo- também transmitem vírus e bactérias. Apesar do que os ativistas dizem a respeito da agropecuária industrial moderna, é na verdade muito mais provável que uma futura pandemia de gripe comece onde os seres humanos compartilhem com animais domésticos o lugar onde cozinham e habitam, como acontece em grande parte do mundo em desenvolvimento. Essas circunstâncias foram provavelmente a causa das 261 mortes até o momento pela gripe H5N1, ou gripe aviária.

Bons produtores em grande escala estão cientes de que um vírus em seu rebanho representa a maior ameaça possível ao seus lucros, de forma que aproveitam todas as oportunidades para vacinar, monitorar e prevenir a disseminação de qualquer infecção. Eles também sabem que ignorar as regulamentações de bem-estar dos animais ameaça sua reputação e negócios. Isso é especialmente verdadeiro no Reino Unido, onde a doença da vaca louca levou a uma das regulamentações mais severas do mundo, juntamente com inspeções frequentes sem aviso por fiscais do Departamento de Meio Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais. Os grandes supermercados também inspecionam regularmente seus fornecedores -independente de suas fazendas serem no Reino Unido, Tailândia ou Brasil- em um esforço para impedir um risco à reputação devido a uma doença na sua cadeia de fornecedores. E mesmo grandes criadores de porcos, como a Pig Improvement Company, investem em programas de saúde ou, como a Smithfield, desenvolvem suas próprias vacinas suínas.

Os pequenos produtores podem parecer simpáticos, mas apresentam menos capacidade de descobrir doenças. Tentativas ineficazes de tratamento doméstico frequentemente resultam na ajuda só chegando quando um animal está realmente doente ou nem mesmo isso, dado que a conta do veterinário frequentemente supera em muitas vezes o preço de compra do animal. Assim, evitar o tratamento permite o entrincheiramento da infecção e animais próximos da morte podem ser levados ao mercado e vendidos. Em partes do mundo onde a comida é escassa, as carcaças podem não ser incineradas, mas sim abandonadas para outros animais, aumentando o risco de transmissão entre espécies.

Das cerca de 40 novas doenças que apareceram ao redor do mundo nas últimas três décadas, quase todas vieram de animais e passaram aos seres humanos, e todas começaram em condições de pequenos produtores. Nenhuma, fora a doença da vaca louca, foi causada pela produção industrial de animais.

Logo, apesar de nosso relacionamento com os animais ser a fonte provável de qualquer futura pandemia, a agropecuária intensiva dificilmente será mais culpada do que a pequena produção que tantos admiram. Criadores bons e ruins de animais permanecerão, sejam eles de grande ou pequena escala. O importante é que todos sejam escrupulosos em sua atividade.

A ironia final é que a produção da vacina para gripe envolve o uso de ovos de galinha. Cada dose exige um ovo para ser produzida. No momento, os fabricantes de vacinas estão criando os animais em confinamento, para evitar a contaminação por aves silvestres, para produção dos 1 bilhão de ovos necessários para as 1 bilhão de vacinas que serão produzidas para a gripe H1N1. Sem uma produção intensiva em condições de limpeza imaculada, não teríamos vacinas para gripe. E não é aos pequenos produtores que devemos agradecer por isso.

Vivienne Parry é uma apresentadora e escritora de ciência

Tradução: George El Khouri Andolfato

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