Sarkozy, um mago do sexo que tomou a França

Por Lucy Wadham

O pobre ex-primeiro-ministro da França, Dominique de Villepin, disse uma vez a um jornalista do Le Figaro que o que a França de fato queria era ser estuprada por um líder forte. "La France veut qu'on la prenne", disse o suave diplomata: "A França quer ser tomada à força". Apesar de o histórico de Villepin não ser dos melhores no que diz respeito a avaliar o ânimo de seu país, parece que ele estava certo quanto aos desejos mais profundos da França.

De certa forma, a estratégia de Nicolas Sarkozy foi "tomar a França à força". Sua campanha presidencial foi repleta de um vocabulário beligerante e coercitivo. Ele dizia responder a uma necessidade de "ordem, autoridade e firmeza" que o país havia suprimido há muito tempo. Distinguindo-se das mensagens maternais e reconfortantes de sua oponente, Segolene Royal, ele convidou os cidadãos a votarem pela ruptura.

  • Reuters
Quando os franceses escolheram Sarkozy em maio de 2007, fizeram uma escolha a favor de uma certa violência contra si próprios. Que forma essa violência poderia tomar, ninguém sabia ao certo. Para alguns, Sarkozy anunciaria a queda das últimas barreiras contra a globalização. Para outros, ele permitiria que a França finalmente pudesse se beneficiar com a flutuabilidade da economia mundial. Até agora, o que não é de surpreender, dado o contexto econômico, ele não fez nenhuma das duas coisas.

Depois de dois anos de Sarko, a situação é complexa. Uma pesquisa recente revelou que 75% consideram Sarkozy-o-homem como alguém "corajoso" e 60% atribuem a ele um "senso de liderança estatal". Ao mesmo tempo, 73% acham que Sarkozy-o-presidente não ouve a população o suficiente e 67% acham que ele "não está oferecendo soluções para os problemas do povo francês". O clichê de que a França é um país de adolescentes em busca de uma forte figura paterna contra a qual podem se rebelar parece valer nessas circunstâncias.

Apesar da insatisfação, a França, um país que tem a reputação de ser imune às mudanças, engoliu uma grande quantidade de reformas. Mas bem mais importante do que isso foi uma mutação profunda e sutil que começou a acontecer na sociedade francesa, simplesmente por causa do fato de que, ao eleger Nicolas Sarkozy, a população capitulou para uma força à qual ela vinha resistindo há muito tempo. A conquista repentina de Carla Bruni (conhecida como "a predadora", por causa de seu apetite sexual voraz) confirma esse magnetismo.

Para além de suas conquistas individuais, a presidência de Sarkozy será lembrada como o ponto de virada na história francesa, o momento em que a hegemonia da ideologia de esquerda começou a morrer. Desde a revolução de 1789, o socialismo - com exceção do interlúdio fascista de Vichy - foi a moralidade dominante. Nas escolas, a "education civique", obrigatória desde os 13 anos de idade, ensina os valores da República e encoraja os alunos a participarem do debate político. E sempre houve um amplo consenso de que os valores socialistas e republicanos eram sinônimos.

Apesar de Sarkozy se proclamar um gaullista, está claro que ele não é o herdeiro do general [Charles de Gaulle]. Ele perpetrou um golpe duro contra a esquerda, que ainda está atordoada, e desafiou a ideia de que a divisão entre esquerda e direita era inviolável na França.

Assim, Sarkozy estabeleceu o tom durante dois anos de um governo que seus críticos chamam de "Sarkoziguezague". Seja o que for que seus inimigos digam, a hiperatividade de Sarko, pelo menos na cena internacional, produziu resultados. Durante uma presidência bem sucedida na UE ele ressuscitou o problemático tratado de Lisboa e conseguiu um acordo sobre o aquecimento global. Sua intervenção na crise russo-georgiana recebeu a admiração dos presidentes Medvedev e Obama. A cúpula do G-20 ofereceu a ele o palco perfeito para mostrar que a França era uma aliada valorosa dos EUA e não sua vassala.

No âmbito doméstico, é claro, as coisas não seriam tão fáceis. Mas Sarkozy conseguiu, mais do que qualquer líder desde de Gaulle, desencadear uma transição fundamental no cenário político. A ideia de que os valores de esquerda e os valores republicanos são a mesma coisa não está mais livre de questionamento.

O desejo de Sarkozy de anexar a moralidade superior da esquerda dirigiu muitas de suas decisões. De fato, ele é o primeiro político francês desde Henri-Philippe Petain a ousar invocar os valores de ordem, trabalho, mérito e recompensa, alegando que eles pertencem ao senso comum, e não a uma ideologia. A resposta de Sarkozy à crise econômica foi voltar às soluções antigas: investir em infraestrutura, redistribuição de renda, regulamentação estatal. Ele não atribui essas políticas confiáveis à esquerda: são valores atemporais, sugere ao seu eleitorado.

Até agora, para a maioria silenciosa que votou nele, Sarkozy é um "self-made man" que não foi moldado pela ideologia dominante de sua geração. Ele é um novo-rico truculento e por isso é detestado por uma grande parte da burguesia.

Meu filho, Jack, francês graduado em filosofia, tem uma teoria para explicar o sucesso do presidente: o novo-rico Sarkozy é o herói conquistador, o super-homem nitzscheano, cuja vontade de poder o coloca acima das restrições da moralidade convencional francesa. Eu iria um passo adiante, entretanto, e sugeriria que é também a libido conquistadora de Sarkozy - mais do que sua política - que explica os rótulos "corajoso" e "dinâmico". Emprestando algumas palavras do rico vocabulário de estereótipos masculinos de minha irmã, eu descreveria Sarkozy como um "duende do sexo". Na minha cabeça, o que define o presidente da França e explica seu magnetismo não é simplesmente sua "vontade de poder", mas as circunstâncias particulares que levam a
ela: sua pequena estatura e seu grande apetite sexual.

Numa cultura ainda apegada aos valores dos dois grandes movimentos que moldaram a sociedade anglo-saxã (protestantismo e feminismo), a libido continua sendo uma força a ser considerada na França. A última eleição presidencial não foi uma batalha entre a esquerda e a direita, mas sim uma disputa entre dois "estilos" - um gentil, o outro duro; um consensual, o outro coercitivo; um feminino, o outro masculino. No final, a França não optou pelos braços reconfortantes de Segolene Royal e sua "revolução suave", mas por Nicolas Sarkozy, o libidinoso duende do sexo. Toda a iconografia da campanha presidencial apontou para as forças subliminares no campo de batalha. Lembre-se de Royal, vestida toda de branco, como numa homenagem à aliança entre a virgindade e o poder feminino encarnado em ícones como Elizabeth I e Joana D'Arc. Agora lembre-se de Sarkozy, baixo e empertigado num paleto maior do que ele e manchado de suor, como o ditador favorito da França, o potente e carismático Napoleão Bonaparte. Sarkozy, como Bonaparte, tem todas as características do duende sexual: ele é baixinho, despudoradamente sedutor e incansável em sua procura por mulheres.

Nenhum registro de suas conquistas sexuais veio à luz do dia, mas não preciso de provas documentais para saber que Sarko é um mago do sexo. A segunda vez que encontrei com Sarkozy foi em 2006, numa entrevista coletiva que ele deu como ministro de interior. Durante todo o evento senti que, ou eu estava na pré-menopausa, ou essa pessoa estava se esforçando para me deixar constrangida. Por difícil que seja admitir, sentar-se na linha de visão de Sarkozy por duas horas foi uma das experiências mais carregadas de erotismo que eu já tive. Perguntei a uma colega se ela havia percebido esse comportamento. "Ah", disse ela com um sorriso. "Ele sempre faz isso. Ele escolhe uma mulher na multidão e a despe com os olhos."

Há algo desconcertante em relação à subida de Nicolas Sarkozy ao poder. Seu sucesso só pode ser explicado em termos psicossociológicos:
como o desejo coletivo do povo francês de ser representado por um homem dominante e libidinoso, em vez de uma mulher dominante e matriarcal. Essa fantasia em particular só pode ter encontrado um canal de expressão numa sociedade presa à ideologia feminista - em resumo, um patriarcado. Visto que a França, apesar de suas inúmeras mulheres poderosas, ainda quer ser controlada pelos homens.

(O livro "The Secret Life of France", de Lucy Wadham, será lançado em julho pela editora Faber.)

Tradução: Eloise De Vylder

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