"Qualquer que seja o fim dessa luta, o Irã mudou para sempre"

Christopher De Bellaigue

"Qualquer que seja o fim dessa luta", disse uma mulher de meia idade, transpirando, no primeiro grande protesto contra o governo em Teerã em 15 de junho, "algo no Irã mudou para sempre".

Ela apontou para trás, onde ao longo da rua Azadi, em meio ao sol forte, uma multidão sólida de iranianos marchava, cantava e mostrava o sinal da vitória. Esse evento, disseram muitos participantes, foi com certeza a maior demonstração de descontentamento popular desde a revolução islâmica de 1979. Diferente de outros protestos nos anos recentes - promovidos pelo governo e atendidos por dever pelos funcionários públicos - esse foi ilegal, com sua própria política, e exuberantemente bem-humorado.

  • AFP

    Em imagem feita em 15 de junho, manifestantes carregam faixa verde em Teerã, símbolo de seu apoio ao opositor Hossein Mousavi

Caminhei com os manifestantes a maior parte do trajeto de quase cinco quilômetros. No começo, preocupados em evitar possíveis ataques das tropas de choque armadas ou de integrantes da Basij - uma grande força de reservistas, altamente ideológica -, os organizadores reuniram a multidão em blocos compactos. Depois, conforme a tarde foi passando e as pessoas continuavam chegando aos milhares e os slogans cresciam em inteligência e agressividade, a sensação da própria invencibilidade dos participantes parecia aumentar. Quando o dia terminou, vendedores de sorvete e "faludeh", um doce iraniano, haviam feito bons negócios. A multidão, segundo disse um policial, estava bem acima de um milhão de pessoas. Da polícia de choque e da temida Basij, ainda não havia nenhum sinal.

Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã durante os últimos quatro anos, é acusado por esses e muitos outros iranianos que tomaram as ruas nos dias seguintes, de fraudar a eleição presidencial de 12 de junho, que - conforme anunciou seu ministro do interior - ele venceu com grande vantagem. Durante a maior parte de uma campanha em geral apagada, Ahmadinejad, um populista polarizador, admirado por muitos iranianos pobres por oferecer empréstimos e doações e proclamar seu desejo de servir o homem comum, foi o candidato vencedor.

Então, duas semanas antes da eleição, talvez por orgulho, o presidente começou a cometer erros. Tendo concordado em participar de debates ao vivo na televisão com seus rivais eleitorais, em desacordo com a fachada normalmente decorosa da política do país, ele irritou muitos iranianos ao permitir que suas críticas antigas e generalizadas de corrupção nas altas esferas se tornassem ataques pessoais às famílias de seus adversários políticos. Ele lançou calúnias contra a validade do doutorado da mulher de seu principal rival, o ex-primeiro ministro Mir Hossein Mousavi, e contra a probidade dos filhos de dois clérigos importantes. Ele alardeou dados econômicos otimistas que foram em seguida negados pelo site do banco central do país. Mousavi o acusou de encher o país de "mentiras e hipocrisia".

Encorajados, os iranianos tomaram as ruas de Teerã e outras cidades nas noites anteriores à eleição, em grande número - sustentados por pesquisas de opinião não oficiais - como para sugerir que Mousavi tinha grandes chances de ganhar. Quando os iranianos compareceram às multidões para votar, as credenciais democráticas da República Islâmica brilharam. Onde mais no Oriente Médio, exceto Beirute, é possível testemunhar uma campanha com tanta abertura, precedendo uma eleição cujo resultado não é previsível?

Mas essa ideia, se acreditarmos nos partidários de Mousavi, está agora estilhaçada. No dia seguinte, o ministro de interior anunciou que Ahmadinejad havia recebido 62% dos votos, ou 24 milhões de votos, e seu principal oponente meros 34%, ou 13 milhões. Para muitos iranianos, que se lembravam da crescente popularidade de Mousavi nos últimos dias de campanha, era difícil acreditar nisso. O comitê de Mousavi disse que seus representantes foram ilegalmente impedidos de acessar as sessões eleitorais em todo o país. De acordo com os números do ministro de interior, o segundo candidato reformista, Mehdi Karroubi, ficou com um risível 1% dos votos (ele conseguiu 17% no primeiro turno nas eleições de 2005) e foi derrotado por Ahmadinejad mesmo em sua província natal, uma aberração no Irã, que é altamente tribal. Mousavi aparentemente também perdeu para o presidente em sua terra natal.

O protesto de 15 de junho, é claro, transformou-se no primeiro de muitos, a maioria deles convocados por Mousavi, e todos organizados por pessoas próximas a ele e atendidos por iranianos de diferentes idades e classes sociais. No começo, esse não parecia ser um movimento com um manifesto rígido, mas uma coalização discrepante unida por um desejo de se livrar de Ahmadinejad. Ao proclamar sua aderência às leis da eleição e constituição, e resistindo inicialmente a criticar diretamente o líder supremo do Irã, Ayatollah Ali Khamenei, eles puderam alegar que estavam apoiando a constituição e não, como seus oponentes acusaram, enfraquecendo-a com um "golpe de veludo".

Em Mousavi os iranianos encontraram uma liderança improvável. Como primeiro-ministro durante a guerra sangrenta com o Iraque nos anos 80, ele era visto como um competente administrador econômico, mas dizem que ele também tomou parte na eliminação de elementos pró-ocidentais nas universidades depois da revolução. Ele relaxou antes do que a maioria, e saiu do governo quando pediram para que ele fizesse algo "ilegal", disse aos eleitores durante a campanha. Dessa vez, ele promete um governo competente, a redução das tensões com o mundo externo, e - para os jovens irritados com as "patrulhas de orientação" moral nas áreas urbanas - a "libertação do medo". Talvez mais importante do que isso tudo, depois que os resultados das eleições foram anunciados e ele foi colocado sob uma pressão terrível para endossar a vitória de Ahmadinejad, ele mostrou a contrariedade de um líder em luta e se recusou a fazê-lo.

Essa disposição, dizem muitos iranianos reformistas, é o que eles precisam num líder desde que o carismático e extraordinariamente cauteloso Muhammad Khatami, o único presidente reformista do Irã até hoje, foi tirado do poder em 1997 para ser substituído por um establishment conservador profundamente antagônico. E é difícil imaginar Khatami chamando essa eleição de uma "charada perigosa", como Mousavi ousou fazer, quanto menos encorajando seus aliados a fazerem manifestações nas ruas.

Ahmadinejad comparou os manifestantes a "ervas daninhas" e sua ira à de fãs de futebol torcendo para o time errado. Mas depois que a força dos protestos iniciais ficou clara, o Ayatollah Ali Khamenei autorizou o Conselho de Guardiães a examinar as alegações de fraude eleitoral.
Mousavi e outros candidatos derrotados formularam um dossiê de evidências de corrupção eleitoral, mas pareciam duvidar da vontade do Conselho, responsável pela supervisão das eleições, de investigar a fundo as irregularidades. "Não estou muito otimista em relação ao julgamento (do Conselho)", disse Moussavi em 14 de junho. "Muitos de seus membros não se comportaram com imparcialidade durante a eleição e apoiaram o candidato do governo."

O aumento da violência nos dias após a eleição colocou a crise numa nova e mais perigosa trajetória. A noite de 15 de junho, depois que o protesto pró-Mousavi eclodiu, trouxe as primeiras mortes oficialmente reconhecidas - de sete jovens, parte de uma multidão bem maior que foi atacada a tiros pelos Basijis perto da praça Azadi. Muitas prisões aconteceram nos dias subsequentes. Por todo lado, o silêncio da noite era pontuado por gritos de "Deus é Grande!" (um slogan também usado na revolução de 1979 que foi adotado por Mousavi e seus aliados), e pelo som de choques esporádicos entre os Basij e os jovens oponentes, cada vez mais irritados. As cerimônias de luto pelos mortos nos protestos são inevitáveis no Irã xiita, e podem, como aconteceu na revolução, transformarem-se numa desculpa para mais violência.

A manifestação alegre e festiva de 15 de junho rompeu as barreiras sociais, incluindo jovens ocidentalizados, estudantes e gente muito mais velha, muitas delas mulheres usando o tradicional chador, e mostrou a amplitude impressionante do apoio a Mousavi - e, de forma mais geral, do apoio a uma mudança que exclui Ahmadinejad e retorna a uma política menos abrasiva e mais elegante. Esse desejo já existe entre os iranianos há algum tempo. Que isso finalmente tenha encontrado sua expressão através de uma ação de massa que não era vista desde a revolução Islâmica é a confirmação de que, sim, algo no Irã mudou para sempre.

  • Arte UOL


Christopher de Bellaigue é comentarista sobre Oriente Médio

Tradução: Eloise De Vylder

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