O futuro das armas não-letais

Amber Marks

O coronel aposentado dos EUA John B. Alexander não é comum em sua profissão. Ele acha que a melhor forma de criar um mundo pacífico não é a força bruta, mas novas armas projetadas para minimizar danos permanentes.

Algumas já são comuns, como aparelhos de controle eletrônico como o controverso Tasers - usado pela polícia britânica para imobilizar alvos com choques elétricos - até balas de borracha, sprays químicos e canhões de água. Mas Alexander e outros entusiastas acham que a busca dessas armas apenas começou.

Encontrei-o em maio perto da Floresta Negra na Alemanha, no 5º Simpósio Europeu sobre Armas Não-Letais. Um punhado de manifestantes havia colocado faixas com os dizeres "abaixo o controle mental". Alexander contou que um desses manifestantes - pessoas que acreditam que são alvos de raios de microondas - disse reconhecê-lo de um encontro com um OVNI. "Eles são malucos paranoicos", explicou.

Sem dúvida, mas quando até a Associação Médica Britânica diz estar preocupada com a "militarização da biologia", não são apenas os teóricos da conspiração que temem o lado negro das armas não-letais. Como o livro "Mind Wars" (2006) de Jonathan Moreno explica em detalhes, os cientistas militares estão usando os avanços na neurociência - que elucidam as bases bioquímicas da maior parte dos comportamentos humanos - para projetar armas. Em última caso, isso poderia levar à manipulação intencional das emoções, memórias e respostas imunes das pessoas.

O simpósio teve discussões sobre novas armas não-letais. Algumas usam a "energia dirigida" para induzir a dor com ondas eletromagnéticas. Outras permitem a estimulação remota de músculos esqueléticos, ajudando a imobilização do alvo. Também se falou sobre explorar o impacto psicológico de substâncias odoríferas para controlar multidões, uma técnica que já é usada pelo exército israelense.

"O ser humano precisa ser visto como um processador de informações", diz Alan Ashworth, neurocientista que trabalhar para as Forças Aéreas dos EUA. Qualquer estímulo, explica, produz uma resposta motora e deveria ser possível projetar armas que produzem o comportamento desejado.

Apesar de essas armas ainda não serem tão populares nas guerras quanto esperam os seus entusiastas, em grande parte por causa das ambiguidades na lei internacional, seu uso no policiamento e controle de multidões está crescendo. (A Taser International, por exemplo, teve um faturamento de US$ 92,8 milhões em 2008.) E isso se deve em parte à uma mudança em relação ao controle do crime, em que a polícia busca técnicas preventivas. O Mosquito é um exemplo disso, um aparelho que emite pulsos de som de alta frequência. Seu ruído pode ser ter uma frequência de 16 kHz a 19 kHz, o que só pode ser ouvido por pessoas mais jovens. Os adolescentes acham o som "irritante", disse o inventor Howard Stapleton (que não consegue ouvi-lo), embora alguns digam que é doloroso. A Compound Security Systems, fabricante do aparelho, vende o produto para impedir atos de vandalismo por parte de jovens, do lado de fora de lojas ou residências.

Os defensores das liberdades civis foram ridicularizados por criticar o Mosquito: "Por que argumentar contra um aparelho de impede o crime?" Perguntou Peter Hitchens no jornal britânico The Mail. Mas talvez o argumento real contra as armas não-letais seja o fato de que elas não são tão letais quanto parecem. Em Moscou, em 2002, as autoridades russas puseram fim ao sequestro de um teatro que havia sido tomado por terroristas tchetchenos com o uso de fentanil, um gás supostamente seguro para incapacitar os movimentos. Mais de cem reféns morreram, e muitos ficaram intoxicados. A controvérsia sobre as supostas mortes provocadas pelos Tasers não impediram o Escritório de Assuntos Internos britânico ampliar seu uso pela polícia em dezembro de 2008, e no mês de junho um vídeo de um homem sendo atacado duas vezes com uma arma Taser em Nottingham foi enviado para o departamento de reclamações da polícia.

Os defensores argumentam que as mortes atribuídas às armas não-letais são exageradas, enquanto que as vidas que elas salvam são ignoradas. Mas, na ausência de um consenso social e científico quanto ao seu uso, elas continuam sendo um tema obscuro. Se Alexander e outros entusiastas conseguirem o que querem, o Mosquito poderá ser apenas o primeiro de uma série de equipamentos cuja picada é bem mais dolorida.

Tradução: Eloise De Vylder

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