Mikhail Gorbachev: o herói acidental de 1989

Victor Sebestyen*

Em uma entrevista concedida a um repórter não faz muito tempo, Mikhail Gorbachev recordou os seus anos no topo da estrutura de poder da União Soviética. Depois que ele começa a narrar as suas histórias, geralmente é difícil fazê-lo parar de falar. Mas nessa ocasião ele hesitou, ficou silencioso por um bom tempo e fitou de forma desconcertante o entrevistador com os seus olhos penetrantes. "Sabe com é, eu ainda poderia estar lá, no Kremlin", disse Gorbachev. "Se eu estivesse motivado apenas pelo poder pessoal, ainda poderia possuí-lo... Se eu simplesmente não tivesse feito nada, se não tivesse mudado nada naquilo que à época era a União Soviética, se apenas me sentasse na minha cadeira e desempenhasse o meu trabalho como os meus antecessores, quem sabe..."

Depois disso, ele riu.
  • Tim Shaffer/Reuters

    Mikhail Gorbachev: nos novos livros escolares russos, ele mal é mencionado



Se sentiu ressentimento, ele escondeu isso bem. Parte da declaração consiste naquela auto-ilusão que é comum nos líderes aposentados, derrotados ou defenestrados. Mas Gorbachev, atualmente com 78 anos, tem um argumento mais profundo, especialmente relevante neste ano - o 20º aniversário de 1989, o início do fim do seu governo.

Em vez de governar do Salão de Nogueira do Kremlin, conforme uma parte dele ainda acredita que poderia estar fazendo, Gorbachev atualmente viaja incessantemente, sem dúvida usando as malas Louis Vuitton, das quais ele faz propaganda no mundo inteiro. Ele ganha uma fortuna no circuito internacional de palestras e têm várias outras atividades paralelas. Gorbachev é uma figura praticamente ignorada na Rússia.
Quando o relembram no seu país ele é invariavelmente difamado como sendo o homem que entregou um império sem luta e provocou o colapso econômico quando a União Soviética implodiu em 1991. Para os nacionalistas em volta do primeiro-ministro Vladimir Putin, aquele foi um desastre humilhante do qual só agora a Rússia está se recuperando. Nos novos livros escolares russos, Gorbachev mal é mencionado. E quando o mencionam, é em algum rodapé de página, com palavras nada gentis, enquanto que Stalin é elogiado como tendo sido "um grande líder russo", apesar de ter nascido na Geórgia.

Fora da Rússia, a história será mais gentil para com ele. Gorbachev será lembrado como a figura principal para a libertação de um terço da Europa da ocupação militar e do totalitarismo, pelo papel que desempenhou para o fim da Guerra Fria e como uma das figuras-chave nas semanas estonteantes de revolução em 1989. Além do mais, os últimos anos do seu governo e os primeiros do seu sucessor, Boris Yeltsin, poderão ser vistos como uma curta era feliz de liberdade na Rússia.

É claro que Gorbachev não tinha a intenção de provocar nenhum desses fatos históricos. Ele foi selecionado por um grupo de 18 magnatas geriátricos comunistas em grande parte devido à sua relativa juventude, energia e charme. Eles acreditavam que Gorbachev contava com a energia para reviver o atrofiado sistema soviético. Ele também dava a impressão de ser uma lufada de ar fresco, até mesmo em Washington, Jack Matlock, o principal assessor da Agência de Segurança Nacional de Ronald Reagan, e que em breve seria nomeado embaixador dos Estados Unidos em Moscou, compartilhou este entusiasmo inicial. "Tanto no cenário doméstico quanto no exterior todos estavam cansados de ver o império soviético debater-se sob o regime de indivíduos fracos e incompetentes", diz Matlock. "Gorbachev caminha, fala, os ternos dele têm o tamanho certo... de forma que ele maravilhou o mundo."

Gorbachev foi o primeiro líder soviético nascido após a revolução bolchevista. A sua região no norte do Cáucaso sofreu terrivelmente com as ondas de fome provocadas pelo regime na década de 1930. No início ele foi protegido do pior: o avô materno de Gorbachev, um comunista antigo, chefiava a fazenda coletiva local. Mas após o grande expurgo stalinista de 1937, o seu protetor foi preso sob a acusação de ser um "contra-revolucionária direitista e trotskista", e durante 14 meses os familiares de Gorbachev viveram na condição de párias, até o avô retornar da cadeia. Gorbachev aprendeu a se conformar. Ele ficou conhecido como um mestre da arte da bajulação, em uma burocracia na qual a subserviência era tudo.

Em maio de 1985, dois meses após assumir o poder, dois termos que ficaram para sempre associados à era Gorbachev entraram pela primeira vez no léxico político. Perestroika e Glasnost tornaram-se palavras-chaves globais, mas em russo elas tinham definições específicas. Quando Gorbachev as utilizou elas significavam exatamente aquilo que ele decidiu que significavam. No início, Perestroika - ou "reestruturação" - significava um processo de reformas modestas para melhorar a disciplina no local de trabalho. Gorbachev introduziu apressadamente um conjunto de medidas enérgicas para possibilitar que as empresas mostrassem mais iniciativa e implementassem algumas mudanças no processo de distribuição de produtos. Ele removeu dezenas de burocratas corruptos que representavam a "era da estagnação". Ele implementou medidas no sentido de injetar um pouco mais de democracia no sistema, ao reorganizar as listas eleitorais, mas isto ainda dentro de um Estado de partido único.

Mas nada disso foi revolucionário. Ele não tinha qualquer intenção de abandonar o planejamento central, introduzir uma economia de mercado, liberalizar os preços e salários ou abandonar o monopólio comunista do poder. Após quatro anos no poder ele tomou uma medida radical: Gorbachev permitiu a realização de uma eleição para o Congresso dos Representantes do Povo - teoricamente o mais importante órgão legislativo do país. E, embora assegurando-se que haveria uma maioria de comunistas, ele permitiu a eleição de alguns críticos. Gorbachev falava bastante sobre democracia, mas ele jamais se arriscaria a se submeter a uma eleição.
Ele desejava "reestruturar" tudo, mas sem tocar nas bases do sistema.

A Glasnost, ou "abertura", também foi um autêntico banquete móvel. Ela começou cautelosamente mas, conforme temiam os seus críticos conservadores, assim que os jornalistas foram encorajados a publicar matérias sobre autoridades incompetentes, sobre uma subclasse criada pela pobreza maciça nas cidades do interior ou a respeito da supressão de movimentos nacionalistas e dissidentes, ficou difícil controlar o processo. A União Soviética de Gorbachev não tinha uma imprensa inteiramente livre, mas ela era mais livre do que fora em qualquer outro período anterior.

Gorbachev acreditava sinceramente que a publicação de trabalhos de escritores como Alexander Solzhenitsyn e Boris Pasternak, e as revelações dos horrores da histórias soviética estimulariam os cidadãos a procurar fazer com que a União Soviética trabalhasse de maneira mais honesta e eficiente. É claro que isso só fez com que eles odiassem ainda mais o comunismo, e somente um verdadeiro crente no sistema poderia acreditar que o resultado seria diferente. A Glasnost teve efeitos muito mais radicais - tanto na União Soviética quanto nos Estados satélites do "exterior próximo" da Europa Oriental - do que se esperava. É preciso dar-lhe crédito por ele não ter feito nada para conter o processo ou reprimir a mídia.

Gorbachev era capaz de inspirar intensa lealdade e admiração pela sua visão, intelecto e sinceridade. As suas ideias e instintos baseados em um "quadro maior" eram decentes e honestos, ainda que se baseassem em uma análise equivocada. Ele desejava normalizar as relações com os Estados Unidos e a Europa, abolir o risco de uma guerra entre o leste e o oeste, reduzir os gastos militares e melhorar a economia doméstica na União Soviética. Será que tem importância o fato de que ele acreditava que tudo isso ajudaria a fortalecer o comunismo? Pouco após assumir o poder, ele e os seus principais assessores, e especialmente o principal apóstolo da Perestroika, Alexander Yakovlev, chegaram à conclusão de que os países do Pacto de Varsóvia representavam mais um fardo do que uma vantagem.

Mas ele jamais apresentou uma estratégia consistente para se desfazer desse peso. Por que os soviéticos abriram mão do seu império de maneira tão pacífica, praticamente sem nenhuma lamúria? E por que isso ocorreu em apenas alguns meses ao final da década de 1980?

Três dos fatores mais importantes são aqueles menos mencionados, certamente nos Estados Unidos e na Europa, talvez porque eles não enfatizem o papel desempenhado pelos papas, presidentes e primeiros-ministros ocidentais. Essencialmente, os europeus orientais libertaram-se a si próprios. Mas, entre as razões pelas quais eles encontravam-se em condições de fazer tal coisa estão a derrota soviética no Afeganistão, a debilitante dívida externa enfrentada pelos regimes comunistas do Pacto de Varsóvia e a queda drástica dos preços do petróleo durante a década de 1980. Todos esses fatores praticamente levaram a União Soviética à falência. Gorbachev estava reagindo a esses acontecimentos tanto quanto à necessidade de firmar acordos geopolíticos com os norte-americanos.

O Ocidente tornou-se um grande foco de atração para Gorbachev - não apenas em termos geopolíticos, mas também pessoalmente. Ele detestava preparar-se para viagens às capitais do Pacto de Varsóvia, mas ficava entusiasmado nas reuniões de cúpula em Londres, Paris ou Roma. Ele foi seduzido pela "Gorbymania" dos anos oitenta. Gorbachev estava entediado das discussões com autoridades governamentais estúpidas do Politburo em Praga. O que eram essas pessoas, quando comparadas a uma desfile de carros oficiais pela Quinta Avenida, em Nova York, saudado por norte-americanos que agitavam a bandeira soviética e empunhavam cartazes que diziam, "Abençoado é o Pacificador"?

Gorbachev jamais teve planos nem para se retirar da Europa Oriental, nem para preservar o poder soviético lá. Ele imaginava que seria capaz de encorajar "mini-Gorbachevs" a substituírem os ditadores idosos e incompetentes tão odiados pelo povo. O seu grande erro de cálculo, algo em que ele acreditava até mesmo enquanto o Muro de Berlim caía, foi achar que esses países optariam por permanecer na órbita socialista. Mas ele já tinha tomado havia muito tempo a decisão de não usar a força para preservar o império.

Tal atitude foi presenciada apenas no caso de pouquíssimas outras figuras históricas. De acordo com os seus próprios parâmetros, Gorbachev foi um fracasso. Ele acreditava que poderia salvar o comunismo. Era um patriota de um país que deixara de existir enquanto ele estava no comando. Ele é repleto de contradições, como homem e como figura histórica - e a maior delas é que Mikhail Gorbachev será lembrado como sendo um grande homem pelo fato de ter fracassado.

*Victor Sebestyen é autor do livro "Revolução 1989: A Queda do Império Soviético

Tradução: UOL

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