Como Silvio Berlusconi continua lá?

Peter Popham*

Durante os últimos 20 anos muitos líderes com poder e solidez foram repentinamente derrubados. A Itália experimentou um momento como este em 1992, quando um escândalo de corrupção nacional derrubou grande parte da classe política. E seu líder atual, Silvio Berlusconi, parecia ter chegado ao ponto para uma variação judicial do tratamento dado a Ceausescu desde que foi eleito pela primeira vez em 1994.

Então que tipo de poder este plutocrata lascivo e idoso têm sobre as pessoas que faz com que elas não se livrem dele? Sempre houve motivos para isso: as supostas conexões com a máfia; financiamentos obscuros para seu império televisivo; táticas coercitivas de negócios e práticas de contabilidade questionáveis. Juízes trabalharam durante anos para elaborar acusações de corrupção contra ele. Mas a forte determinação, e uma capacidade de ocasionalmente reescrever a lei, significam que ele continua intocado.
  • Jean-Christophe Verhaegen

    Berlusconi continua no poder por falta de alternativa



Se a lei não pode derrubá-lo, alguns acham que sua fraqueza por mulheres jovens pode. A imprensa italiana foi inundada durante meses com detalhes lascivos dos casos amorosos e festas particulares do avô de 72 anos. Líderes de outros lugares podem fantasiar com esse tipo de coisas, mas ninguém pode pensar numa outra democracia onde um primeiro-ministro fosse capaz de sobreviver a isso. Mesmo assim, Berlusconi consegue se sair bem. Sua popularidade caiu um pouco, mas continua próxima de 50%.

Em 1994, Berlusconi, de uma forma semelhante a Margaret Thatcher, venceu ao apelar para uma classe média baixa que havia perdido a paciência com a elite governante. Aqui estava o antipolítico consumado que levou a série "Dynasty" para as televisões de todo o país e cujo sucesso pode estar associado a elas. As mulheres, em particular, o adoravam. Mulheres espalhafatosas e atraentes foram uma característica de seu apoio desde o princípio.

Alguns veem isso como uma manifestação do amor incondicional da mamma italiana por seu filho mimado, e há um elemento de verdade nisso. Mas ao mesmo tempo, ele era atencioso com sua própria mãe, um belo provedor para sua mulher e filhos, ia a igreja quando era exigido e se cuidava para manter a "bella figura" - sua boa aparência. A vida particular caótica e a compulsão para seduzir apenas faziam parte do charme.

Muitos italianos parecem ter encontrado pouco que seja verdadeiramente chocante nas últimas acusações. Berlusconi, dizem eles, sempre foi assim. Ele teve três filhos fora do casamento antes de se divorciar de sua primeira mulher e se casar com sua amante. Mesmo na época ele era extremamente promíscuo: o falecido Carlo Caracciolo, fundador do jornal La Repubblica, lembra-se das reuniões durante o café da manhã, antes que Berlusconi entrasse para a política, em que "ele costumava trazer uma garota diferente a cada vez - parecia uma obsessão para ele". Como o próprio Berlusconi disse com extrema franqueza na noite do encontro do G-8 em julho: "É assim que eu sou. Sou muito velho para mudar agora. As pessoas me aceitam como me encontram."

Sua atitude é possível por causa do apoio contínuo da Igreja Católica. Sua moralidade pode não agradar à Igreja, mas apesar de vários bispos terem-no criticado depois dos últimos escândalos, aqueles que importam continuaram em silêncio. De todos os candidatos que podem liderar a Itália, apenas Berlusconi é confiável nos assuntos que a Igreja considera importantes: o aborto, a eutanásia, a fertilização in vitro e as parcerias civis.

Apesar desse pacto ser raramente explicitado, ele é a rocha sobre a qual a popularidade de Berlusconi se apoia. Sua promiscuidade tampouco parece prejudicar seu apoio político. Sua coalizão, que continua praticamente a mesma desde 1994, reúne integrantes da Liga do Norte, que se opõem aos separatistas do sul, a pós-fascistas da Aliança Nacional. Colocar juntos esses intocáveis foi um movimento fora do comum, porém duradouro: nenhum partido estaria no governo sem ele, então nenhum deles quer virar-se contra ele agora.

O fator que o mantém no poder, entretanto, é a falta de uma alternativa. Berlusconi prometeu um milagre econômico em 2001, e ninguém - nem mesmo aqueles que acompanham as notícias através de seus canais de televisão - acredita que ele o fez. Mas, os eleitores se perguntam, será que outro faria melhor, especialmente considerando a incoerência do breve governo de centro-esquerda de Romano Prodi de 2006 a 2008?

Com todas as suas falhas, Berlusconi tornou a Itália mais estável do que em qualquer momento dos últimos 50 anos. E ele não tem nenhum sucessor que poderia esperar manter sua coalizão unida. Os italianos sabem que quando ele sair será uma ruína. Cautelosos, conservadores e cínicos como são, eles preferem postergar o dia fatídico e serem fieis a seu charmoso libertino pelo tempo que puderem.

*Peter Popham foi correspondente do Independent em Roma de 2002 a 2009.

Tradução: Eloise De Vylder

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