A Cisjordânia toma forma

John Deverell*

A morte de centenas de civis inocentes durante a brutal ofensiva de Israel, no inverno setentrional de 2008-2009, contra uma Faixa de Gaza governada pelo Hamas, gerou indignação em todo o mundo. Mas, para surpresa de todos - incluindo o establishment militar israelense -, a Cisjordânia não explodiu em protestos violentos contra a guerra. Após 40 anos de ocupação, tem-se a impressão de que muitos moradores da Cisjordânia deixaram de acreditar na resistência violenta.

Eles podem ter perdido também a fé nas negociações pela paz, não mais acreditando que a comunidade internacional esteja falando sério sobre fazer com que Israel suspenda a opressão, estando ao mesmo tempo temerosa de tudo que possa resultar em ainda mais punições por parte do exército israelense. O processo de paz parece estar paralisado.

O presidente Mahmoud Abbas estava bastante consciente disso durante a conferência do partido Fatah no início de agosto. "Embora a nossa opção seja a paz, nos reservamos o direito de resistir", afirmou Abbas.

Mas, apesar da sensação generalizada de pessimismo, há motivos para alguma esperança. Parte do motivo pelo qual a Cisjordânia não mergulhou na anarquia durante o ataque israelense contra a Faixa de Gaza foi o pouco notado aperfeiçoamento das suas próprias forças de segurança. Há apenas dois anos, cidades como Nablus, Jenin e Hebron tinham um clima violento de faroeste. Mas, em 2007, o primeiro-ministro palestino Salam Fayyad ordenou uma campanha repressiva contra quadrilhas e milícias ilegais. Atualmente, essas cidades são bem mais seguras. As crianças podem ir à escolas sem a companhia de adultos, e os carros param nos sinais de trânsito.

Existe, é claro, um objetivo estratégico por trás disso: a melhoria da segurança contribui para o crescimento econômico na Cisjordânia, o que por sua vez encoraja aquela importantíssima voz palestina moderada. No longo prazo, uma melhor segurança deverá também ajudar a Autoridade Palestina a controlar o seu próprio território e prepará-lo para a criação de um Estado integral. Esses esforços vêm sendo ajudados desde 2005 por uma missão liderada pelos Estados Unidos, e chefiada por um general estadunidense - Keity Dayton - com apoio britânico e canadense.

Eu passei os últimos 15 meses envolvido com esta iniciativa do tipo "bottom-up" (que começa pelos detalhes e evolui posteriormente para os aspectos mais genéricos de determinada questão), ajudando a reformular o conjunto confuso de forças de segurança da era de Iasser Arafat. Nós fornecemos assessoria profissional, treinamento e equipamentos não letais para muitas áreas-chaves das forças de segurança, com a exceção dos serviços de inteligência.

Por sugestão minha, nós montamos um curso de liderança graduada - uma espécie de faculdade palestina de administração pública de alto nível -, ajudando os palestinos a criar um núcleo de líderes efetivos imbuídos de valores relativos aos direitos humanos, à boa governança, à responsabilidade e ao império da lei. Alguns dos graduados do curso ocupam agora postos fundamentais e estão ansiosos para reformar as suas próprias forças.

Mas o sucesso do plano de segurança também coloca a Autoridade Palestina em uma situação difícil. Na ausência de iniciativas israelenses mais visíveis no sentido de tornar a vida dos palestinos tolerável, as tropas da Autoridade Palestina são vistas como marionetes dos israelenses que oprimem o seu próprio povo. Enquanto isso, o Hamas grita que qualquer outra iniciativa que não seja a resistência armada significa colaboração com as forças israelenses de ocupação.

O problema é que, apesar de Tel Aviv afirmar, "conforme os palestinos fizerem mais, nós faremos menos", a arquitetura do aparato de segurança israelense na Cisjordânia está mais forte do que nunca. Algumas concessões foram feitas - alguns postos militares de controle foram retirados, as condições de trabalho para as forças de segurança estão um pouco melhores. Mas essas forças estão geralmente sujeitas a toque de recolher depois da meia-noite, e não podem operar na maioria das áreas rurais sem permissão israelense.

Cidades como Nablus desfrutaram de um certo crescimento econômico nos últimos anos, mas ainda existem mais de 600 postos militares israelenses de controle e outros obstáculos à movimentação que estrangulam a economia da Cisjordânia. Além disso há a muralha de segurança, que em alguns lugares tem o dobro da altura do Muro de Berlim. Israel argumenta que tais medidas são essenciais para proteger os seus cidadãos de ataques. Mas a verdade deselegante é que os colonos israelenses na Cisjordânia estão bem representados na nova coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e eles desejam uma presença militar israelense contínua e forte. O poder político desses colonos constitui-se atualmente em um obstáculo ao processo de paz.

Mas então, ironicamente, podemos concluir que nenhum dos dois lados deseja chamar muita atenção para a manutenção da lei e outras melhorias presenciadas na Cisjordânia: o governo israelense por causa do custo politico de fazer concessões significantes aos palestinos, e as forças de segurança palestinas porque não querem ser vistas como colaboradoras de Israel. Portanto, a situação continua frágil - e até mesmo explosiva -, apesar dos esforços valorosos no nível das bases.

O que precisa ocorrer agora? O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, já deu início à difícil tarefa de tentar persuadir Netanyahu a reprimir os assentamentos ilegais e a fazer uma acordo com os palestinos no que se refere a outras grandes questões. Mas, para que tenha sucesso, Obama precisa ampliar a sua plateia, falando não só para os líderes, mas diretamente à população de cada lado, palestinos e israelenses.

Enquanto isso, a Autoridade Palestina tem que continuar trabalhando no sentido de melhorar a segurança e o padrão de vida, e precisa empenhar-se mais em persuadir o seu povo de que o seu trabalho é em prol dos palestinos, e não dos israelenses. Sem esses esforços e concessões israelenses concomitantes, os cantos de sereia do Hamas ficarão mais altos, fazendo com que seja mais difícil para Abbas e os palestinos moderados defender uma rota pacífica rumo à criação de um Estado palestino. Por outro lado, um progresso real rumo a uma solução pode ajudar a enfraquecer o Hamas.

Israelenses e palestinos em todos os níveis precisam fazer uma escolha.
Caso façam uma escolha errada, ou não façam nada - e neutralizem os moderados -, fica difícil enxergar como o excelente trabalho feito pelos palestinos e indivíduos de fora, como Dayton e a sua equipe, poderão continuar.

*John Deverell, oficial da reserva do Exército Britânico, morou em Ramallah. Ele trabalhou para o Coordenador de Segurança dos Estados Unidos, recrutando a sua própria equipe para trabalhar com os palestinos.

Tradução: UOL

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