Questão de gosto

Alex Renton* Prospect magazine

No final de julho a Food Standards Agency (FSA), órgão do governo britânico que regula a comercialização de alimentos, anunciou que não havia nenhuma diferença nutricional "importante" entre os alimentos orgânicos e os convencionais. O setor de orgânicos, que hoje vende mais de 2,1 bilhão de libras (R$ 6 bilhões) por ano, ficou furioso. Os jornais, que adoram quando as crenças da classe média caem por terra, trataram com sarcasmo a exposição da "fraude dos orgânicos".
  • Marcelo Justo/Folha Imagem

    Prospect: Os orgânicos dificilmente são vilões num setor repleto de charlatães e trapaceiros


É claro que eles tiveram um papel importante em armar a fraude, se é que foi uma fraude. Mas não há nada de incomum nisso, ou no fato de que os supermercados, que lucraram muito com a moda dos orgânicos - a área do comércio de alimentos que mais cresceu nesta década - ficaram quietos sobre o assunto.

Por que o FSA sentiu necessidade de se pronunciar? Por que não cair em cima das grandes fraudes do setor de alimentos - o abuso de palavras como "natural" e "fresco", ou então o mercado multimilionário da venda de pequenos potes de leite adoçado e iogurtes como se fossem poções para tornar a vida melhor? Os orgânicos dificilmente são vilões num setor que é repleto de charlatães e trapaceiros.

A alegação discutível de que os alimentos produzidos de forma orgânica contêm mais nutrientes é apenas um argumento de venda. O FSA não considerou que a produção de alimentos orgânicos não usa pesticidas, ou que a carne produzida organicamente não é cheia de antibióticos. Esses são fatores importantes para o consumidor que busca os produtos orgânicos em vez dos convencionais. E, além do fato de que os orgânicos são melhores para o meio ambiente, eles têm um gosto melhor, especialmente as frutas e os vegetais. Para que serve uma órgão de regulação dos alimentos se ele não considera a importância do prazer?

Suspeito que o efeito mais benéfico da moda dos orgânicos tenha sido persuadir as pessoas a pagarem mais por seus alimentos. Reverter décadas de declínio no preço real da comida é bom para os produtores, para os varejistas independentes, e tem um efeito positivo sobre o problema preocupante da quantidade ridícula de alimentos bons que jogamos fora: todos esses são pontos importantes para o objetivo do governo de reduzir nossa dependência das importações de alimentos. De acordo com o Defra [Ministério do Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais], 63% dos fazendeiros britânicos não têm um lucro que compense o trabalho. A conversão para os orgânicos foi uma das poucas formas pelas quais os fazendeiros conseguiram transformar seu negócio em algo mais viável.

Assim, a condenação dos orgânicos pela FSA parece a abordagem mais tola que uma agência de alimentos poderia conceber para lidar com os problemas da Grã-Bretanha em relação à economia rural e a "segurança alimentar".

O fruto do Éden
Em sua resposta irritada ao relatório do FSA sobre os alimentos orgânicos, a agência certificadora de produtos orgânicos britânica Soil Association citou muitas estatísticas: uma delas era que a maçã produzida de forma convencional pode ser pulverizada até 16 vezes com 30 tipos diferentes de pesticidas. Num novo livro, "The Fruit Hunters" [algo como "Os Caçadores de Frutas"], Adam Leith Gollner lamenta a desvalorização da maçã - a primeira fruta - pela agricultura moderna e comércio de alimentos. Ele cita Pablo Neruda, que disse que quando nós comemos uma maçã nos tornamos, por um instante, jovens novamente. Quando o Rei Arthur morreu, ele foi para Avalon, "A Ilha das Maçãs", para mordê-las por toda a eternidade. Mas o que Thoureau chamou de "fruta das fadas - bela demais para ser comida", é agora algo mundano e trivial para o consumo. Empurramos elas diligentemente para nossos filhos, embora nós mesmos não queiramos muito comê-las. Isso acontece porque o sistema de hoje, ocupado em nos oferecer maçãs sem falhas, polidas e que durem muito, esqueceu da parte do sabor.

Outro dia um produtor de televisão me ligou para perguntar se eu poderia aparecer indignado diante das câmeras com o fato de que o maior produtor de maçãs para exportação do mundo hoje é a China. Eu recusei, apesar de dizerem que a Grã-Bretanha, a Ilha das Maças desde que os romanos as introduziram aqui, hoje importa 90% delas. Mas o oeste da China e os países semi-áridos próximos têm uma tradição bem mais longa no cultivo das maçãs. (Astana, capital do Cazaquistão, significa "rica em maçãs".) Botânicos acreditam que a maçã Ur, da qual derivam todas as variedades, originou-se nas florestas das montanhas de Tian Shan. Este seria de fato o fruto do Éden.

Os pomologistas e "devotos das frutas" que Gollner encontrou em sua pesquisa se dedicam a redescobrir variedades raras, como a maçã de cidra dos Estados Unidos, a Taliaferro, perdida no século 19. Thomas Jefferson dizia que era sua favorita. O suco que ela produzia era "sedoso e parecido com champanhe". Um homem vem caçando a Taliaferro em pomares e bancos de sementes há 30 anos. Mas será que o problema com as frutas não é tanto que nós não plantamos as espécies saborosas embora frágeis, mas sim que estamos exauridos pelo excesso?

Em julho, pesquisadores do Texas terminaram de sequenciar o genoma do melão. Isso permitirá a junção de genes para produzir frutos com mais açúcares, disseram orgulhosos. Mas não precisamos de frutas mais doces - precisamos de menos frutas, para que possamos voltar a apreciá-las.

Gollner fala melancolicamente sobre como seu pai, que cresceu no leste da Europa, ganhou um raro prêmio na escola: metade de uma laranja. E ele lamenta o desaparecimento das orgias com frutas, quando povos de Kent ao Peru tiravam suas roupas e celebravam as maçãs da nova estação praticando "sexo grupal movido a frutas" nos pomares. Os antropólogos dizem que isso acontece em todo lugar, assim que as coisas ficam maduras. "Toda vez que eu abro um figo", disse um caçador de frutas para Gollner, "quero fazer (sexo) com ele."

Eu não iria tão longe. Mas se visse uma maçã - mesmo uma Gala do supermercado - uma vez por mês em vez de todo dia, talvez eu quisesse comê-la. E, quem sabe, por um instante, voltasse a ser jovem.

*Alex Renton escreve sobre comida para o jornal The Times de London e The Observer.

Tradução: Eloise De Vylder

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