Sem brincadeira

Ian Leslie*

Um caso de assassinato na Índia, no ano passado, atraiu uma atenção científica incomum. Uma mulher de 24 anos, chamada Aditi Sharma, foi acusada de assassinar se ex-noivo, Udit Bharati. Aditi tinha se casado com outro homem, mas ela se encontrou com Udit em um McDonald's, onde ela supostamente colocou arsênico na comida dele.

Após sua prisão, Aditi concordou em realizar um exame cerebral para provar sua inocência. Os investigadores colocaram 32 eletrodos em sua cabeça antes de lerem as alegações para ela na primeira pessoa -"Eu comprei arsênico", "Eu encontrei Udit no McDonald's"- juntamente com outras declarações neutras como "O céu é azul". Aditi falhou no teste; segundo os promotores, as partes de seu cérebro onde as memórias estão armazenadas ficaram agitadas quando o crime foi recontado. O juiz o considerou prova de "conhecimento experiencial" do crime, e ela e seu marido foram condenados a prisão perpétua. Foi a primeira vez em qualquer lugar no mundo que esta tecnologia foi usada para uma condenação.
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    A empresa americana No Lie MRI já vende exames cerebrais
    para aqueles que desejam provar sua inocência na Justiça



Uma máquina à prova de erros - ou melhor, à prova de mentiras - há muito é o sonho das autoridades. Durante grande parte do século 20, o polígrafo oferecia essa promessa. Mas ele não detecta mentiras, exatamente: ele mede as respostas psicológicas de um suspeito ao estresse, como aumentos na pressão sanguínea ou no batimento cardíaco. E assim ele pode produzir uma leitura de culpa em suspeitos inocentes que estão apenas nervosos e é vulnerável a um mentiroso bem preparado, que consegue controlar suas emoções.

Nos últimos 15 anos, entretanto, surgiram novas tecnologias de exame do cérebro que permitem aos investigadores extrair a verdade, ao espiar diretamente dentro da cabeça do suspeito e ler a atividade dos neurônios de seu cérebro. As esperanças estão depositadas na imagem por ressonância magnética funcional, ou IRMf. Um aparelho de IRMf parece com o aparelho de ressonância magnética de qualquer hospital: um tubo de metal branco dentro do qual o paciente é inserido em uma maca. Ele contém ímãs que provocam ressonância em certas moléculas do cérebro, rastreando o fluxo do sangue oxigenado para as regiões que mais necessitam dele em um determinado momento, resultando em imagens coloridas do cérebro e as sincronizando com ações. Na teoria, pelo menos, ela nos permite ver o cérebro em funcionamento.

Daniel Langleben, um psiquiatra da Universidade da Pensilvânia, está na vanguarda desta revolução potencial. Ele ficou curioso com a mentira enquanto estudava desordem de déficit de atenção (DDA). As crianças com DDA são péssimas mentirosas, devido ao seu hábito de contar a verdade de forma impulsiva. Langleben achou que isso estava relacionado à falta de controle dos impulsos e suspeitou que mentir envolve um esforço mental extra. Em 2000, ele realizou sua primeira experiência com mentira usando IRMf, na qual foi pedido aos participantes que mentissem deliberadamente.

Quando mentiras eram contadas, as imagens por IRMf mostravam um aumento da atividade em certas regiões do cérebro, incluindo o córtex pré-frontal, que é responsável pelo raciocínio e autocontrole. Isso concordava com sua suposição de que mentir exige um trabalho cognitivo. Apesar dos resultados experimentais serem difíceis de interpretar, parecia que um exame por IRMf poderia detectar a diferença entre uma mentira e a verdade.

De lá para cá, fundos foram destinados à pesquisa das possibilidades desta tecnologia detectar mentiras. Langleben é um dos centenas de cientistas financiados pelo Pentágono e pelo Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos. Também há aplicações civis possíveis: as escolas poderiam usar aparelhos de IRMf para checar plágios; aeroportos poderiam escanear o cérebro das pessoas juntamente com sua bagagem.

Uma empresa americana chamada No Lie MRI já vende exames cerebrais para aqueles que desejam provar sua inocência na Justiça, ou para verificar cônjuges potenciais. Scott Faro, um radiologista do Hospital Universitário de Temple, na Pensilvânia, disse à revista "Wired" que considera a IRMf como uma bênção para a sociedade. "Se este for um teste mais preciso, eu não vejo nenhum problema moral."

Mas nem todos estão tão tranquilos. A "Cornell Law Review" argumentou que a "IRMf é uma das poucas tecnologias para o qual o apelido clichê de 'orwelliano' legitimamente se aplica". E bioeticistas como Paul Root Wolpe - um colega de Langleben - estão considerando as questões delicadas apresentadas por estes novos métodos: os resultados devem ser aceitos como evidência nos tribunais?

Em caso afirmativo, como deveriam ser classificados - semelhantes a uma amostra de DNA, ou como um testemunho? Neste ano, o neurocientista Edward Vul publicou um artigo muito lido na "Perspectives on Psychological Science", alegando que metade dos estudos de IRMf que ele analisou continuam "correlações vodus" entre comportamento e atividade cerebral. E um número crescente de neurocientistas argumenta que o cérebro é complexo demais para ser reduzido a áreas "mapeadas" de atividade neural.

Por mais sedutora que seja a ideia, um verdadeiro entendimento da mentira provavelmente exigirá um conhecimento muito maior de funções como memória e percepção. Dificilmente encontraremos uma única "zona da mentira".

A condenação de Aditi Sharma causou inquietação entre os cientistas de toda parte. Mas neste ano, Sharma e seu marido, Pravin Khandelwal, foram libertados sob fiança pela alta corte de Bombaim com base na falta de evidência material os associando ao crime. Pode levar anos para que o caso deles seja ouvido de novo. E para que seus nomes possam ficar limpos, um dos tribunais da Índia terá que concluir que o exame cerebral de Sharma não conseguiu encontrar a verdade -ou a mentira- dentro da cabeça dela.

*Ian Leslie está escrevendo um livro sobre mentira.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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