Sayonara, mudança

Kenneth Neil Cukier

Há tempos o Japão é chamado de "democracia dentro de uma democracia". Apesar de ter realizado eleições, o país manteve o Partido Liberal Democrata (PLD, e seus antecessores, os Liberais e os Democratas) no poder desde o fim da 2ª Guerra Mundial praticamente sem interrupções. Portanto, a eleição realizada em 30 de agosto foi histórica, não somente porque foi a primeira vez em que um partido de oposição tomou controle do governo do Japão, mas porque ela representa o início do fim do sistema político japonês do pós-guerra.
  • Hiroko Masuike/The New York Times

    A vitória do PDJ de Yukio Hatoyama é um meio passo em direção à reforma política no Japão

Na noite das eleições, o PLD governista perdeu 177 de suas 300 cadeiras na câmara baixa do Parlamento, que tem 480 cadeiras. O Partido Democrático do Japão (PDJ), uma coleção eclética de ex-integrantes do PLD, socialistas, direitistas e ex-burocratas, ficou com quase todas elas. A vitória foi auxiliada por um comparecimento às urnas massivo de 70% dos eleitores, embora na noite da eleição nenhum carro tenha buzinado e os jovens não tenham pulado nas fontes. Esse estoicismo público é um sinal de incerteza e ansiedade. O povo japonês votou contra quem está no poder: o PDJ ganhou porque não é o PLD. Apesar de suas muitas promessas de campanha - principalmente a de criar uma nova rede de segurança social comandada pelo Estado - eles só tinham uma política bem pensada: conquistar o poder. A liderança se recusou até mesmo a permitir um debate interno sobre a plataforma de seu partido, por medo de parecer dividido.

A vitória do PDJ é apenas meio passo em direção à reforma política. O partido é tão inconsistente internamente quanto o PLD e, sem experiência de governo, é potencialmente tão ineficaz quanto. (Nas pesquisas de opinião antes das eleições, oito em cada dez pessoas disseram que não esperavam que nada mudasse sob o governo do PDJ.) Mas os desafios do Japão vão desde superar 20 anos de estagnação até atacar os problemas que surgiram do fato de ter a população mais idosa do mundo. E, frente à crise, a primeira reação do Japão é normalmente voltar-se para dentro.

O PDJ, então, oferece mais do mesmo. Seu líder Yukio Hatoyama, hoje primeiro-ministro, usou o termo obamanesco "changi" [mudança], mas resiste a qualquer proposta mais radical. Em vez disso, ele prometeu desfazer o "fundamentalismo de mercado" do PLD e de Junichiro Koizumi, o popular ex-primeiro-ministro - embora as reformas de Koizumi tenham sido mais discutidas do que colocadas em prática. Na verdade, a eleição desencadeou uma revolta conservadora. A sociedade, a economia e as relações internacionais do Japão estão em constante mudança, e os venerados mitos de identidade nacional estão sendo destruídos. Assim os japoneses votaram pelo passado, não pelo futuro.

Esses mitos de identidade nacional têm um grande peso, muito embora pareçam antiquados. O "Estado de desenvolvimento" do Japão, no qual a burocracia dirigia a economia e levou ao surpreendente sucesso do país no pós-guerra, é hoje intrusivo e ineficiente. Os trabalhadores costumavam contar com o emprego para o resto da vida. Mas desde os anos 90, os laços entre as companhias e os funcionários se desgastaram, e "trabalhadores não regulares" (aqueles contratados temporariamente ou para meio período) aumentaram para um terço da força de trabalho, enquanto recebem cerca de 40% do que os trabalhadores "regulares" ganham. Durante décadas, cerca de 90% dos japoneses diziam pertencer à classe média. Mas há alguns anos, a desigualdade de riqueza na verdade ficou acima da média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). E a famosa baixa criminalidade do país também tem crescido, especialmente entre os mais velhos, que têm dificuldades para sobreviver.

Em resposta, o PDJ promete conduzir o Japão de volta a tempos mais amenos. O slogan da campanha de Hatoyama foi "yaui", que pode ser traduzido como "amizade e amor". Ele promete aumentar o salário mínimo, oferecer maiores benefícios e pensões, eliminar muitos impostos e taxas e até mesmo fornecer às famílias cerca de 170 libras (R$ 474) por mês para cada criança de até 15 anos. O Japão nunca teve um verdadeiro Estado de bem-estar social - as companhias faziam esse papel através de uma força de trabalho inflada e do emprego vitalício. Mas esses dias acabaram. Enquanto isso, o PDJ pretende neutralizar a burocracia, que por muito tempo ditou as prioridades para os políticos eleitos. Embora alarmante, ninguém parece disposto a discutir a crise demográfica ou a necessidade de uma maior imigração - esta última é um conceito quase tão chocante para os japoneses quanto a eugenia no Ocidente.

O que vai acontecer agora? Por incrível que pareça, parece que o governo quer cumprir suas promessas de campanha. Mas mesmo que faça isso sem levar o país à falência, o PDJ não conseguirá fazer muito para devolver o Japão à sua antiga glória. Há 30 anos ele estava no caminho para ser a maior economia do mundo. Agora está prestes a perder o segundo lugar para a China este ano ou no próximo. E a abordagem do PDJ em relação à região continua um enigma, enquanto os países vizinhos estão ficando mais duros com o programa nuclear da Coreia do Norte e a crescente frota marinha da China.

Entretanto, a eleição dá início à modernização política do Japão. Independente de suas políticas, a própria existência do PDJ começará o processo de cobrar responsabilidade dos líderes. A era de predominância de um só partido com certeza acabou. O PLD manteve o poder com a justificativa de que não havia motivo para mudar durante os bons tempos, e que mãos experientes eram necessárias durante os anos ruins. Mas agora, depois de uma reforma eleitoral que permitiu aos partidos menores ganharem mais cadeiras no Parlamento, há poucas chances de um retorno ao monopólio.

Um Estado verdadeiramente multipartidário emergirá com o tempo a partir da relação entre o Estado e os cidadãos, talvez até mesmo se espalhando pelo setor privado e a esfera social. Nesse sentido, a eleição trará mudanças, mesmo que não sejam imediatamente aparentes uma vez que o PDJ e o público não sabem que tipo de mudanças querem. O Partido Liberal Democrata não era nem liberal, nem democrático, nem um partido. Era uma força conservadora representando grandes interesses. Ele fazia uma política de negociações atrás de portas fechadas sem muita responsabilidade pública. E não era tanto uma unidade, mas um amálgama de facções díspares. O PDJ não é muito melhor, apenas diferente. Mas é um começo.

(Kenneth Neil Cukier é correspondente da The Economist em Tóquio)

Tradução: Eloise De Vylder

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