Como o poder modificou o presidente Barack Obama

James Crabtree

Um ano após a sua vitória eleitoral, como deveríamos julgar o presidente Barack Obama? Ele instituiu um pacote de estímulo financeiro de US$ 787 bilhões (R$ 1,35 trilhão) e um orçamento de US$ 3,4 trilhões (R$ 5,85 trilhões), socorreu montadoras de automóveis norte-americanas que estavam à beira da falência e apresentou legislações pioneiras - para a reforma do sistema de saúde, a regulação mais estrita de um setor financeiro paralisado e a redução de gases causadores do efeito estufa. Tendo como cenário de fundo o caos econômico e a divisão partidária, o histórico inicial parecerá notável, especialmente se algum tipo de reforma do sistema de saúde for aprovado até o final do ano. Foi um bom começo.
  • Doug Mills/The New York Times

    Após lidar com a maior recessão em gerações, Barack Obama agora preside uma economia
    que está finalmente crescendo de novo, mas que ainda perde empregos e acumula dívidas

Dito isso, um presidente que prometeu unidade trouxe também discórdia. A ala mais lúcida da direita norte-americana teme que por trás do tom moderado de Obama haja políticas que expandiriam perigosamente o papel do Estado. Os menos lúcidos saem às ruas e, aos gritos, acusam o presidente de aplicar socialismo. Enquanto isso, os críticos à esquerda já enxergam uma oportunidade perdida - daquelas que só aparecem uma vez a cada geração - para enfrentar os bancos e as empresas de seguro saúde dos Estados Unidos.

Por detrás dessas preocupações há dúvidas quanto à posição do presidente. Ou, colocando a questão de forma mais simples: Obama começou a mudar Washington, ou foi Washington que começou a mudá-lo? Eu viajei aos Estados Unidos em agosto para observar de perto o progresso do presidente.

A campanha de Obama foi economicamente centrista, mas também fortemente contrária a guerras. A sua relativa juventude o coloca acima da tumultuada cultura de guerra da geração norte-americana que viveu a Guerra do Vietnã, mas o seu perfil racial o insere firmemente nesse contexto. A sua abordagem ampla de políticas liberais pode ser descartada, se necessário, em nome de acordos. Como resultado, os seus discursos líricos possibilitam que as pessoas façam a leitura que quiserem.

E os primeiros passos de Obama pouco contribuíram para reduzir a confusão. As suas escolhas de nomes para cargos foram decididamente centristas. Mas os seus assessores - especialmente o seu chefe de gabinete, Rahm Emanuel, e o seu assessor estratégico, David Axelrod - abandonaram qualquer reputação de cautela. Eles optaram por ações de grande magnitude, tendo exercido, no primeiro ano de governo, pressões pela adoção de leis referentes ao sistema de saúde e à mudança climática.

Dá para entender tal decisão. Mas, talvez não seja motivo de surpresa o fato de as políticas que se seguiram terem se constituído em um pacote de mistura ideológica. O segmentado processo legislativo norte-americano significou que as brigas em torno de projetos de lei foram as que atraíram mais atenção - e a aprovação de leis tornou-se o indicador mais notável de sucesso. O pacote de estímulo financeiro foi uma vitória inicial, embora ela tenha sido impulsionada pela crise econômica, e, segundo o próprio governo admite atualmente, muito pequena.

Enquanto isso, a iniciativa pela adoção de um esquema de limites para as emissões de dióxido de carbono, tomada para permitir que os Estados Unidos negociassem de boa fé durante a reunião de cúpula sobre a mudança climática, que será realizada em dezembro, em Copenhague, é a que menos possibilidade tem de ser aprovada tão cedo, dentre todas as prioridades de Obama.
  • Damon Winter/The New York Times

    Há um ano, as lágrimas e a euforia tomaram conta do Grant Park com a vitória de Barack Obama



No decorrer dessas diversas batalhas, emergiu um padrão comum: Obama fornece grande parte dos detalhes sobre a criação de políticas ao congresso, o que obriga a sua equipe a passar a maior parte do tempo brigando por trás dos bastidores. Isso prejudica as tentativas de explicar ao povo a necessidade de tais reformas, o que cria as frequentes blitzes de publicidade presidencial de meio de percurso. Em todas as ocasiões Obama também tentou - e não conseguiu - conquistar o apoio de algo mais do que apenas um punhado de republicanos, apesar de ter oferecido a eles grandes concessões. Como resultado, a maioria das medidas é implementada segundo algo próximo a um modelo estritamente partidário.

Esse padrão ficou mais claro do que nunca no debate sobre o sistema de saúde, particularmente as divisões exaltadas quanto ao projeto de introdução de uma "opção pública" no setor de saúde pública privado dos Estados Unidos. Segundo qualquer pacote de reformas plausível, a maioria dos norte-americanos obteria seguro saúde dos seus patrões. Aqueles que atualmente não têm cobertura seriam obrigados a comprá-la através das novas "trocas" de seguro, nas quais as seguradoras privadas ofereceriam diferentes pacotes, e seriam obrigadas a aceitar qualquer pessoa, independentemente do histórico de saúde. Os norte-americanos mais pobres seriam subsidiados para adquirirem seguro. De fato, a única controvérsia real diz respeito a determinar se as reformas deveriam criar uma nova companhia de seguro saúde administrada pelo governo para competir com as seguradoras privadas.

Foi esta reforma - a "opção pública", defendida com paixão pelos liberais, e da qual os republicanos desconfiam - que definiu a característica ideológica do debate sobre o sistema de saúde que está em andamento neste ano. Obama diz que apoia a opção pública, mas também dá a impressão de que o seu apoio poderá não ser muito forte. É provável que essa proposta seja abandonada como parte de um acordo final. Caso isso aconteça, restará uma questão: em um governo no qual tudo é negociável, exceto o sucesso, será que um desejo de negociar com muita rapidez e frequência acabou com a possibilidade de mudanças reais?

Se o primeiro ano de governo não esclareceu as dúvidas quanto às convicções centrais de Obama, ficou bem mais claro que, embora Obama tenha sido com frequência ousado na amplitude dos seus planos, os apelos por mudança radical, feitos na sua campanha, também encobriram frequentemente políticas relativamente ortodoxas. A sua campanha prometeu também um governo que estaria acima das divisões partidárias de Washington. Em vez disso ele tem se chocado com a realidade de obter realizações concretas em um sistema político fraturado. Se o presidente mudou o sistema, o sistema também mudou o presidente.

As divisões dos Estados Unidos são reais. E o país se tornou ainda mais dividido. Thomas Mann, da Brookings Institution, me disse que no atual congresso "não há um só democrata que seja mais conservador do que o republicano mais liberal. Uma geração atrás havia uma enorme superposição, e, portanto, a possibilidade de coalizões bipartidárias estava muito mais presente - na verdade ela era necessária para que se concretizasse qualquer coisa". Agora, entretanto, tais coalizões são praticamente impossíveis.

A bem da verdade, Obama tentou. Houve inumeráveis ofensivas elegantes. Os republicanos do congresso foram convidados, mimados e bajulados pela Casa Branca de uma forma sem precedentes na história recente dos Estados Unidos. Mas nada funcionou, o presidente teve pouquíssimo retorno pelos seus esforços, e acabou sendo forçado a basear-se em iniciativas estritamente político-partidárias semelhantes àquelas do presidente Bush.
  • Doug Mills/The New York Times

    O presidente e a primeira-dama, Michelle Obama, após a cerimônia de posse. Enquanto Obama passava os últimos 12 meses aprendendo a exercer o poder, seu país aprendeu mais sobre ele



As realidades de Washington também significaram que Obama teve que se sustentar na unidade da sua própria coalizão democrata em um nível que não era esperado. Ele ajudou a construir esta unidade, já que é famoso por não ter a menor disposição de enfrentar o seu próprio partido. Ao contrário do presidente Clinton, ele não é facilmente identificável como membro de nenhuma facção democrata. Enquanto Clinton sentia-se confortável em definir-se contra a esquerda do partido, Obama sente-se satisfeito em movimentar-se pragmaticamente entre esquerda e direita. A sua capacidade de fazer isso, por sua vez, é derivada da sua força junto a importantes parcelas do eleitorado do partido. Democratas negros, elites da classe média de alta escolaridade, os tão elogiados bloggers "netroots": são poucas as fatias do eleitorado da família democrata que Obama arrisca-se a perder, o que dá a ele flexibilidade para mudar de posição quanto a determinadas questões na busca de aprovação de legislações.

O primeiro ano de Obama teve mais coisas em comum com o seu predecessor texano do que ele gostaria de admitir. George W. Bush deu início à sua presidência com a intenção de exercitar um conservadorismo mais compassivo. Mas o 11 de setembro modificou a sua rota, fazendo com que ele se engajasse alegremente em uma campanha contra malfeitores. Obama entrou na Casa Branca com a proposta ostensiva de acabar com as divisões políticas e raciais dos Estados Unidos. Mas, assim como o terrorismo mudou Bush, a crise econômica e as realidades de governo também mudaram Obama.

Porém, apesar de tudo isso, as suas primeiras realizações ainda são impressionantes. Mas no ano que vem Obama precisará deslocar-se rumo a uma agenda menos popular de austeridade fiscal, que conte tanto com cortes orçamentários quanto com elevações tributárias. A batalha que está por vir em torno da reforma da imigração fará com que a briga referente às propostas de mudança do sistema de saúde pareça cordial. O partido de Obama poderá perder cadeiras parlamentares nas eleições de 2010. Mas se Obama conseguir a aprovação da reforma do sistema de saúde, e se a economia dos Estados Unidos se recuperar, o presidente enfrentará um Partido Republicano com poucos candidatos plausíveis, e parecerá destinado a reeleger-se facilmente em 2012. Para ele tudo ainda é possível.

Tradução: UOL

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