A bomba-relógio humana

Alex Renton

Para cortar as emissões nós temos que conter o crescimento populacional mundial. Então por que esta não é uma prioridade em Copenhague?

A pior coisa que alguém pode fazer para o planeta é ter filhos. Se eles se comportarem como a média das pessoas nos países ricos atualmente, elas emitirão cerca de 11 toneladas de dióxido de carbono todo ano de suas vidas, assim como provavelmente terão mais filhos emissores de carbono que farão um estrago ainda maior. Se o Reino Unido quiser atingir a meta do governo de uma redução de 80% em nossas emissões até 2050, nós temos que começar a reverter nosso crescimento populacional imediatamente.

Aqui está a proposta: por que não começar a reduzir a população em toda parte? Preservativos não são a tecnologia mais verde de todas? A previsão é de que a população mundial atingirá um pico de 9,2 bilhões em 2050; segundo os ambientalistas, se 9,2 bilhões de pessoas viverem como vivemos hoje, elas precisarão dos recursos de uma segunda Terra para sustentá-las. Em comparação à dor e despesa de outras ideias para redução de carbono, o controle do natalidade parece ser a melhor. Não é?

Um relatório de setembro feito pela Escola de Economia de Londres para o Optimum Population Trust sugere que se a "necessidade não atendida" do mundo de anticoncepcionais for resolvida, haveria meio bilhão a menos de seres humanos no planeta até 2050, impedindo a emissão de 34 gigatoneladas de carbono. O fornecimento de preservativos, ou outros métodos aceitáveis, custaria apenas US$ 220 milhões; a introdução de tecnologia de baixo carbono para produzir uma redução equivalente custaria mais de US$ 1 trilhão.

O cálculo é simplista, como é qualquer equação "menos pessoas = planeta mais verde". E não defende um controle populacional nos países em desenvolvimento. Em 2050, 95% da população extra será pobre, e quanto mais pobre você for, menos carbono você emitirá. Segundo os padrões atuais, um grupo de australianos seria pelo menos 60 vezes mais emissor do que um de bengaleses.

Todavia, parece óbvio que uma estabilização da população seria intrínseca a qualquer estratégia de mudança climática. Muitas pessoas de fora do mundo das ONGs a defendem, desde o locutor David Attenborough até Martin Rees, presidente da Sociedade Real, a academia nacional de ciências do Reino Unido. Assim como o sociólogo Anthony Giddens, que escreve sobre a "importância vital de um esforço renovado por parte das agências internacionais para ajudar a reduzir (o crescimento populacional)" em seu livro de 2009, "The Politics of Climate Change".

Então por que o controle da natalidade dificilmente consta das agendas das agências da ONU ou dos governos atualmente comprometidos em lidar com a mudança climática? E por que os grupos de desenvolvimento e ambientais que fazem lobby a respeito da mudança climática se esquivam dela? Parece que as pessoas prefeririam conversar a respeito de colocar espelhos enormes no céu para refletir a luz solar. Apenas na China, onde a notória política de um só filho pode ter levado ao não nascimento de 300 milhões a 400 milhões de pessoas a menos, é que o controle da natalidade parece tão crucial quanto coibir as emissões. Poucos analistas acreditam que a China poderá atender a meta do G8 de uma redução de 80% das emissões até 2050. Mas ao reduzir a população, ela já pode ter feito mais do que a maioria dos países ricos e de média renda conseguirá. Sua população deverá atingir o pico por volta de 1,4 bilhão em 2020, enquanto a população da Índia continuará crescendo.

Neste ano, eu escrevi um estudo para a Oxfam avaliando o possível impacto da mudança climática sobre os seres humanos no futuro próximo. Eu fiquei surpreso pela falta de interesse - não apenas entre as ONGs, mas também entre os acadêmicos que trabalham nesta área - na população como sendo um fator na mudança climática. O mesmo vale para grande parte da literatura de campanha popular. O escritor britânico George Monbiot desdenha o assunto como sendo uma distração: uma obsessão nutrida em grande parte por "homens brancos de classe média, pós-reprodutivos (...) do grupo (...) maior responsável pela destruição ambiental do que qualquer outra classe na história". De forma semelhante, David King, o ex-conselheiro de ciência do governo britânico, argumenta: "Nós precisaremos fazer mudanças radicais em nossas emissões dos gases do efeito estufa nas próximas duas décadas, uma escala de tempo ao longo da qual as políticas populacionais terão pouco efeito (...) a única forma de lidar com a mudança climática é mudar a forma como a energia é usada por aqueles de nós que já nasceram".

Mas e se não pudermos? Quase todos os aspectos mais preocupantes dos impactos das mudanças climáticas - escassez de água e alimentos, migração forçada, epidemias de saúde - são exacerbados pelo crescimento da população. Segundo duas recentes pesquisas, nove entre 10 cientistas que trabalham na mudança climática não acreditam que conseguiremos realizar as mudanças no uso de energia acertadas pelo G8 e pela União Europeia. Se estiverem certos, a população se tornará muito importante.

O "Controle da natalidade" - ou planejamento familiar - teve uma década ruim. Durante os anos de George W. Bush, os Estados Unidos, os maiores doadores de ajuda do mundo em planejamento familiar, retiraram seu apoio a muitos programas devido à pressão da direita cristã. Enquanto isso, os fundos internacionais para programas de saúde reprodutiva foram desviados para o combate ao HIV/Aids. Atualmente há mais de 200 milhões de mulheres em todo mundo querendo obter anticoncepcionais sem sucesso. A quinta meta de desenvolvimento do milênio da ONU, reduzir em três quartos a taxa de mortalidade materna até 2015, é a que está mais distante de ser atingida de toda aquela lista de sonhos não realizados.

A taxa de natalidade, é claro, é tema de histórias de horror de futurologistas há 300 anos, e o debate no presente é certamente ofuscado pelo fato de grande parte do trabalho de demógrafos renomados, de Malthus até Paul Ehrlich (autor do livro chocante de 1968, "A Bomba Populacional"), provou estar errado. Mas, apesar de todas as associações duras ao tema, o controle da natalidade não necessariamente leva a medidas draconianas. Na verdade, é amplamente aceito que a escolaridade da mulher é a chave para a menor natalidade: quanto mais meninas frequentarem a escola e mais mulheres estiverem empregadas, menos crianças haverá. A taxa de natalidade, a igualdade de gênero, educação e pobreza estão inseparavelmente ligadas.

A mudança climática, juntamente com a evasão fiscal, é uma das duas campanhas de caridade internacional em andamento da Christian Aid. Mas a palavra "população" não está presente no excelente documento de quatro páginas da organização para a conferência da ONU sobre a mudança climática, em Copenhague. Será que a Christian Aid - que há muito financia o planejamento familiar no mundo em desenvolvimento - está realmente falando sobre população e mudança climática? "Isso ocupa um lugar elevado em nossa agenda, mas não de forma pública", disse Rachel Baird, da Christian Aid. "É algo em que precisamos renovar nossa política e estamos trabalhando para encontrar o mais recente pensamento sobre o assunto."

Ela não quis dizer por que isso precisa ser mantido distante do público. Mas minha própria experiência com organizações como esta sugere a resposta. Há uma crença de que seria hipocrisia castigar os pobres por terem muitos filhos. Este é um dos mecanismos universais para lidar com a pobreza; nossos próprios bisavós podem tê-lo usado. Além disso, há a questão de onde se encontra a culpa pelas emissões. Como diz Baird: "Frequentemente nos países onde a taxa de natalidade é mais elevada, as emissões são tão baixas que mal conseguem ser mensuráveis: veja Burkina Fasso". Então por que pedir a eles que paguem em filhos não nascidos por nosso esbanjamento?

É um argumento poderoso, mas que acentua o paradoxo no coração do debate sobre a adaptação à mudança climática. Presume-se - como no trabalho do economista Nicholas Stern - que os países vulneráveis se adaptarão melhor por meio do desenvolvimento econômico. Quanto mais rico o país, melhor ele lidará com os choques do clima. Mas à medida que os países se desenvolverem, eles emitirão mais carbono. As emissões per capita da China quase dobraram na primeira metade desta década, para 4,6 toneladas; a Índia passou de 1,1 para 1,3 tonelada. Sob circunstâncias normais, é necessária talvez uma geração para a taxa de natalidade cair com o aumento da riqueza, enquanto as emissões de carbono aumentam muito rapidamente. À medida que as pessoas ficam mais ricas, por exemplo, elas consomem mais calorias e começam a trocar vegetais por carne. Este é o motivo, segundo a ONU, para a produção global de alimentos precisar aumentar em 50% até 2050. E a produção de alimentos, se você olhar para toda sua cadeia, é responsável por 20% do carbono que produzimos.

Logo, não é vital que qualquer tentativa de ajudar as nações a se desenvolverem deva ter um plano para estabilizar ou mesmo reduzir sua população? Eu perguntei a Antonio Hill, o conselheiro de política ambiental da Oxfam. Ele argumentou que lidar com o consumo é muito mais importante do que lidar com o crescimento da população, citando um relatório do Banco Mundial publicado em setembro: "A troca dos utilitários esportivos por carros de passageiros eficientes em combustível apenas nos Estados Unidos quase compensaria as emissões geradas no fornecimento de eletricidade para 1,6 bilhão de pessoas adicionais". Além disso, a Agência Internacional de Energia diz que se o mundo todo adotasse eletricidade limpa, a redução de dióxido de carbono seria entre 1,8 e 2,5 gigatoneladas por ano. Isso compensaria as emissões de até 2,8 bilhões de pessoas pobres, facilmente absorvendo a população extra prevista para 2050.

Esses são números rudimentares, mas servem como um indicador da importância limitada da população na batalha geral - se pudermos reformar a forma como geramos e usamos energia. Mas se não pudermos (e nosso retrospecto até o momento não é encorajador), então a população inevitavelmente se tornará uma questão muito mais urgente. Isso me leva de volta à minha proposta original: por que não coibir a população dos países ricos? Nós geralmente não queremos muitas crianças, então poderíamos trocar nosso direito de ter mais que duas por algo atraente. Afinal, com base nas atuais emissões e expectativa de vida, uma criança britânica a menos permitiria a cerca de 30 mulheres na África sub-Saara ter um filho e ainda deixar o planeta um lugar mais limpo.

Aqui entramos no território de ambientalistas como Jonathon Porritt, ex-presidente da Comissão de Desenvolvimento Sustentável do governo britânico, que declarou que algum dia será visto como "irresponsabilidade" ter mais do que dois filhos. A posição de Porritt atraiu acusações de intolerância tanto da esquerda quanto da direita, mas sua proposta foi adotada pelo Optimum Population Trust, que conta com o apoio de Porritt, Attenborough, do cientista James Lovelock e muitos outros. A organização - que gosta de se referir aos seres humanos como "alteradores do clima" - lançou neste ano a campanha "Pare em Dois".

Não há nada de errado em promessas, mas uma redução da população é melhor conseguida com uma combinação de políticas: mais importante, como vimos, ao assegurar a igualdade das mulheres e melhorar sua educação e fornecendo ao mesmo tempo métodos anticoncepcionais eficazes. Nem todas essas coisas precisam acontecer simultaneamente; ao lado da Tailândia, um dos grandes sucessos na redução da natalidade é o Irã - desde 1987, sua taxa caiu de 5,2 crianças para menos de 2,1. Dizem que a introdução de televisores nos lares iranianos ajudou bastante. Mas como seria possível reduzir a população no mundo rico, onde os direitos das mulheres já foram conseguidos e os métodos de controle da natalidade estão facilmente disponíveis? Crianças poderiam se tornar parte da cota de carbono pessoal de um adulto? Seria possível oferecer recompensas: tenha apenas um filho e você poderá ter um utilitário esportivo? Ou voar para a Flórida em férias uma vez por ano?

Caso você tenha fé na capacidade dos países ricos de atingir aqueles cortes de 80% das emissões em meros 40 anos e então mantê-los, você não precisa se preocupar muito. Mas em caso de ceticismo - se você não acha que é capaz de reduzir suas emissões pessoais de carbono, da atual média da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 11 toneladas por ano para apenas 2 toneladas, você precisará começar a se preocupar com a população. Se continuarmos queimando combustíveis fósseis nos níveis atuais, o planeta estará 5ºC mais quente em 2100. Hans Joachim Schellnhuber, o conselheiro-chefe sobre mudança climática da chanceler alemã, acredita que se continuarmos como agora, a Terra só será capaz de sustentar 1 bilhão de pessoas. Logo, talvez seja melhor começarmos a reduzir a população agora, com métodos que ofereçam uma opção humana - antes que aconteça do modo difícil.

(Alex Renton é autor de "Suffering the Science: Climate Change, People and Poverty" da Oxfam. Estas são suas opiniões pessoais.)

Tradução: George El Khouri Andolfato

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