Os bons policiais de Nablus

Nathan Shachar*

Em abril deste ano, meu velho amigo Kan'an Jamal me telefonou. "Tem algo acontecendo aqui", ele disse. "Você precisa vir dar uma olhada. Rafidiya está ganhando vida de novo."

O bairro de Rafidiya faz parte de Nablus, a maior cidade no norte da Cisjordânia e lar de suas classes mais altas, burguesia florescente e de uma das maiores universidades da área. O bulevar de Rafidiya já foi a melhor área de compras e restaurantes nos territórios palestinos.

Para chegar lá, eu tive que passar a pé por uma posto de fiscalização israelense e me espremer em um táxi coletivo amarelo do outro lado. O carro corria alucinadamente pelas ruas lotadas. A indiferença do jovem taxista era impressionante. Para ele, as crianças, aves e mulas em nosso caminho pareciam tão irreais quanto os obstáculos em um jogo de computador.
  • Abed Omar Qusini/Reuters

    Homens das forças de segurança palestinas patrulham shopping center na cidade de Nablus



Essa direção imprudente é um assunto quente em Nablus. Os frequentes acidentes de táxi costumam levar a disputas sangrentas entre clãs e é uma medida do destemor do primeiro-ministro palestino, Salam Fayyad, o fato de ter começado a instalar radares de velocidade. Fayyad é um político estranho nesta parte do mundo, alguém que aparentemente não se contenta em desviar recursos públicos para as contas bancárias de parentes. Ele acredita em mudar as coisas, me diz um estudante com espanto.

O efeito que ele teve sobre Nablus é notável. O revival da cidade e, em particular, a reforma de sua força policial pelo general americano Keith Dayton, foram pouco noticiados pela imprensa ocidental. Mas é um passo gigante à frente para as pessoas desta região. No primeiro semestre de 2009, havia um sentimento de alívio no ar. Os comerciantes falavam em um volume normal, ao lado de suas bancas com tomates e abóboras. Em vez de olharem por sobre seus ombros, os compradores avaliavam a qualidade dos produtos. Eu não ouvi nenhum disparo durante minha visita de cinco horas, nem nas visitas posteriores.

Era um grande contraste em relação à minha visita no início de 2007. Ao retornar ao Oriente Médio após muitos anos na América Latina, eu pretendia passar uma tarde relaxando em um café na velha Kasbah, absorvendo a atmosfera. Não foi possível. Ao anoitecer, a cidade velha era tomada pelo som de gritos e disparos, enquanto das montanhas vinha o barulho dos canhões de um helicóptero israelense. Gangues entravam em choque no mercado e nas sarjetas da Rua do Açougueiro, o sangue de seres humanos se misturava ao de cordeiros.

Nem dois anos depois, a cena no Za'adunat, um restaurante ao ar livre ao longo do bulevar de Rafidiya, era tranquila. Duas mães vestindo trajes tradicionais fumavam alegremente o narguilé. Seus filhos bebiam suco de tamarindo e brincavam no terraço. Cuidando de nós naquela noite estavam policiais trajando uniformes azuis - uniformes americanos. Esses seguranças palestinos às vezes são conhecidos como soldados de Dayton, devido ao general.

O trabalho de Dayton teve início em maio de 2005, quando o então primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, aceitou, sem entusiasmo, o plano do ex-presidente George W. Bush de reconstruir a Autoridade Palestina como parte do plano de combate ao terrorismo. Era uma justificativa suficiente e, seis meses depois, Dayton iniciou a reforma das forças palestinas fragmentadas e danificadas.

Sua meta era encontrar pessoas melhores. Todos os novos candidatos a policiais foram selecionados pela CIA, pela Agência de Segurança de Israel e pelos serviços jordanianos e palestinos para excluir criminosos potenciais, radicais islâmicos e encrenqueiros. Os novos cadetes foram então treinados na Jordânia e posteriormente em Jericó, na Cisjordânia. Em meados de 2008, Israel finalmente permitiu a atuação do primeiro batalhão de Dayton em Jenin, a cidade mais violenta e caótica da Cisjordânia. Foi um sucesso.

Mas o feito de Dayton é limitado e frágil. Muitos palestinos se ressentem de serem policiados por uma força escolhida, treinada e paga pelos Estados Unidos e coordenada com os israelenses.

E a melhoria no policiamento é tanto causa quanto consequência de um revival econômico que poderia ser facilmente extinto. Mas a maioria das pessoas em Nablus ignorou as objeções aos policiais de Dayton. Eles fazem tudo o que policiais devem fazer. Eles combatem o crime. Eles tratam as pessoas com civilidade. Até o momento, eu não encontrei nenhum caso de algum deles pedindo propina ou dinheiro para proteção.

Não basta vontade política para combater a violência e a corrupção. Uma melhora no policiamento geralmente leva gerações. Mas, apesar da solução de Dayton para a segurança na Cisjordânia ser temporária, ela ainda assim é notável. Para sair de um atoleiro é preciso se apoiar em algo fora dele e os americanos forneceram essa mão. Dayton e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, decidiram aposentar a velha guarda com pensões generosas: uma parte importante da ajuda estrangeira à Autoridade Palestina é destinada a esse propósito.

Alguns ainda não gostam da estratégia de policiamento. Bassem Eid, um ativista de direitos humanos palestino, sente que o pagamento aos velhos policiais compromete o esquema, criando uma "ordem comprada" que impede uma governança realmente independente. O próprio Partido Fatah do presidente não gosta muito deles; suas oportunidades de aliciamento e propina são atrapalhadas por eles. Os simpatizantes do Hamas também são caçados pelas novas forças, de forma que não têm motivos para gostar delas. Mas para as pessoas comuns, a vida cotidiana foi transformada.

Mas por que esta boa notícia não é divulgada? Parte da culpa é da própria mídia. Esperanças esmagadas e economias em colapso são o que a maioria dos repórteres e dos leitores espera da Cisjordânia. Mas uma explicação mais interessante é a de uma conspiração regional de silêncio.

Nós não sabemos a respeito das boas notícias de Nablus porque nenhuma das partes envolvidas tem interesse em nos dizer. O recente otimismo foi recebido por algumas poucas caras fechadas. Os linhas-duras israelenses sabem que seu argumento contra um governo próprio palestino cairia por terra caso impere a lei e a ordem. Grupos anti-israelenses sentem que o reconhecimento das melhorias deixaria Israel livre da culpa pelo molestamento dos muitos bloqueios de estrada militares e pela violência dos colonos contra os produtores rurais palestinos. E a Autoridade Palestina está longe de batendo no peito com orgulho -ciente de sua própria dependência de ajuda estrangeira, ela teme que qualquer estardalhaço possa reduzir a generosidade dos países doadores.

Mas não dá para argumentar contra os resultados. Em Nablus em um sábado, dezenas de ônibus israelenses estavam estacionados ao redor da cidade velha. A Kasbah e os restaurantes em Rafidiya estavam lotados de árabes israelenses. Quando voltei em outubro, era difícil de acreditar no contingente de judeus israelenses, chegando de ônibus de Haifa. Entrar nos territórios palestinos é uma infração criminal para os israelense. Mas não ocorreram ataques, tiroteios ou tentativas de sequestro dos visitantes. As ruas da Kasbah de Nablus mudaram de um inferno sombrio para uma atração turística.

É claro, o Oriente Médio não é Nárnia. Mesmo quando as coisas parecem caminhar na direção certa, sempre há obstáculos. Em novembro, Abbas, frustrado com a falta de progresso, anunciou que não disputará a reeleição. Mas o próprio Dayton é o mais ciente desta caminho precário para a paz. Ele reconheceu que suas políticas contrariam as metas declaradas -e ainda mais as não declaradas- do governo de Israel.

Como ele deixou claro em um discurso franco em maio, seus jovens recrutas estão lá apenas superficialmente para estabelecer lei e ordem. A tarefa real deles é estabelecer a base para um Estado palestino, o que não estão fazendo. "Com grandes expectativas, vêm grandes riscos", ele disse. "Há talvez uns dois anos de validade quando lhe é dito que você está criando um Estado, quando na verdade não está." Enquanto Washington continuar pressionando pela paz, os homens de Dayton manterão sua posição. Mas em caso de uma retirada americana, os inimigos do governo Abbas-Fayyad terão facilidade para minar as novas forças. As reformas de Dayton, até agora, dependem do regime de Abbas; agora que este não tentará a reeleição, há muito mais em jogo.

*Nathan Shachar trabalhou como correspondente no Oriente Médio, América Latina e Espanha. Seu livro "A Faixa de Gaza" será publicado neste mês.

Tradução: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos