Novas missões espaciais dão impulso para a volta do homem à Lua

William Cullerne Bown

Dos anos 70, quando as missões soviética e Apollo foram concluídas, até 2005, as agências espaciais internacionais iniciaram apenas duas missões para a Lua. Mas desde 2006, agências do Japão, Índia, China, Europa e EUA lançaram nove missões. Oito ainda estão em desenvolvimento, e o Reino Unido está ponderando sua própria viagem ao lado escuro. Por que o súbito interesse? 

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    Chegada do homem à Lua: o astronauta Edwin E. "Buzz" Aldrin Jr. caminha em solo lunar. Ele e seu companheiro de tripulação, Neil Armstrong, da Apolo 11, chegaram à Lua em 20 de julho de 1969. Com um terceiro astronauta que permaneceu em órbita lunar, haviam decolado de Cabo Canaveral quatro dias antes, a bordo do foguete Saturn 5

No curto prazo, os novos atores no espaço estão buscando a Lua enquanto mantêm seus olhos firmes na Terra. Como disse Jon Cartwright em dezembro de 2009 no “Prospect”, os satélites se tornaram importantes peças militares, usados para comunicações, inteligência e navegação. E os programas lunares, como todos os programas espaciais, permitem que os poderes em ascensão desenvolvam tecnologias encobrindo uma função militar crucial com um disfarce civil. 

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    Em foto de dezembro de 2002, a Shenzhou 4, ou "Navio divino", decola do Centro de Lançamento Jiuquan, no noroeste da China; os chineses correm contra o tempo para enviarem uma missão tripulada à lua, tentando vencer a nova corrida contra o EUA

Ainda assim, países como China e Índia têm pouca experiência para construir e lançar foguetes, navegá-los com precisão e empregar e administrar os satélites. As tecnologias necessárias ainda estão, na maior parte, nos EUA e na Rússia e, em menor extensão, na Europa. Por enquanto, os EUA estão fazendo o que podem para impedir a China de ter acesso a eles. A Nasa convidou astronautas de 15 nações para visitarem a Estação Espacial Internacional, parte central de suas operações, mas a China não foi um deles. 

Ainda assim, o programa lunar da China, chamado Chang’e, nome de uma princesa de conto de fadas que viaja para a Lua com seu coelho, está superando a restrição americana. A sonda Chang’e 1 usou estações da Agência Espacial europeia para fazer a difícil inserção na órbita lunar no dia 5 de novembro de 2007. E a China tornou-se sócia do Galileo, sistema de navegação por satélite europeu, que está em construção e deve rivalizar som o GPS controlado pelos EUA. 

Apesar de ser alto o custo de construir uma base lunar permanente –que é o objetivo final, as pequenas sondas atuais são muito baratas: a mais recente sonda da NASA custou apenas US$ 57 milhões (em torno de R$ 100 milhões), de um orçamento anual de US$ 17 bilhões. Isso tem especial valor para os iniciantes; como o Apollo, as viagens à Lua aumentam o prestígio no exterior e a solidariedade em casa. 

Contudo, o interesse de longo prazo na Lua está na crença crescente que sua exploração agora pode ser possível, uma consequência de 40 anos de avanços tecnológicos e de um acúmulo de evidências de recursos usáveis. A sonda Lcross da Nasa, que acidentou-se perto do polo sul da Lua em outubro, fez levantar material contendo 115 litros de água. A água é importante não apenas para beber, mas porque pode fornecer oxigênio e hidrogênio, dois elementos que, combinados, podem servir de combustível para o foguete. 

E a água não é o único incentivo. Nos polos da Lua, há cantos escuros nas crateras que nunca são atingidos pelos raios solares. Ali se acumularam minerais estranhos congelados que não são encontrados na Terra. Não sabemos ainda o que são, muito menos seu valor. Há também montanhas nos polos cujos picos são quase permanentemente expostos ao sol. Agora parece provável que, ao menos o polo sul da Lua pode abrigar uma base, que seria alimentada por energia solar contínua e teria acesso à água. E o Monte Malapert, ali perto, está sempre de frente para a Terra, o que seria de ajuda para sistemas de comunicação no futuro. 

Por essas razões, o polo sul da Lua agora está sendo comparado aos campos de petróleo sauditas do século 21. E cada vez menos está claro quem vai controlar esse novo “campo”. Um tratado redigido pela ONU nos anos 70 tinha a meta ambiciosa de colocar a Lua sob governança da ONU, proibindo o uso militar e disputas territoriais. Mas fracassou –nenhum dos poderes espaciais ratificaram-no. Assim, a Lua continua desprotegida pela lei. Na ONU, há um debate a cada outono sobre questões de segurança que inclui uma discussão de um novo tratado para prevenir uma corrida armamentista no espaço. Isso poderia fornecer o regime legal ausente. Mas, nos últimos anos, os EUA sempre vetaram as propostas. Como tem a tecnologia espacial mais avançada, sentem-se menos incentivados a substituir a força pelo Estado de direito. 

Por enquanto, não se sabe o que se pode obter com a Lua. Talvez a água possa ser inutilizável. As oportunidades comerciais podem se evaporar. Há algum significado militar em um lugar a dois dias de viagem de nosso planeta? Em caso afirmativo, provavelmente está a décadas de distância. Ainda assim, se você ignora a Lua, arrisca ser desastrosamente ultrapassado. Como a Rússia nervosa antes da Primeira Guerra, você é obrigado a se mobilizar –obrigando seus rivais a fazerem-no também. 

Autoridades chinesas repetidamente afirmaram que “quem conquistar a Lua primeiro vai se beneficiar mais”. Há uma grande dose de bravata nisso: por enquanto, parece apenas que a Nasa tem bolsos profundos o suficiente para contemplar uma base permanente. Mas isso é típico. Como a Antártica há um século, a Lua hoje inspira uma mistura precipitada de bravura, curiosidade, entusiasmo nacional e sonhos imperiais. Trinta nações atualmente mantêm bases na Antártica, muitas brigando por território que não tem valor comercial ou estratégico realizável. A clara lição de nosso Polo Sul é que os tratados podem reduzir a tensão, mas provavelmente não vão remover a ameaça da força se algo surgir de valor real. 

(William Cullerne Bown fundou o serviço de alerta Research Fortnight, www.ResearchResearch.com.)

Tradutor: Deborah Weinberg

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