Será que a China vai se redimir?

Jonathan Porritt

O resultado da conferência climática de Copenhague ainda repercute em todo o mundo. E não são apenas as ONGs e os acadêmicos que estão irritados – muitos governos também se mostraram frustrados com os resultados. E a maioria das pessoas concorda que a China é o principal vilão.

  • Oded Balilty/AP

    Poluição e pobreza na China - Menino atravessa lixão próximo de sua casa, em Pequim

Na conferência, a China lutou furiosamente para impedir qualquer acordo global de transparência em relação às emissões de carbono. Ao manipular seu papel como suposta defensora dos países pobres, a China elaborou uma versão tão enfraquecida do acordo que a plenária final da conferência conseguiu apenas “mencionar” sua existência, em vez de endossá-la. Talvez mais preocupante que isso tenha sido a recusa chinesa em permitir a inclusão de metas de longo prazo no acordo – mesmo aquelas que já haviam sido aceitas pelos EUA e a UE. A China, segundo foi dito, mobilizou-se para proteger sua posição futura como maior economia do mundo.

É difícil conciliar tudo isso com a ideia de que a China está buscando a sustentabilidade. Durante os últimos anos, a mídia ocidental enfatizou o recente entusiasmo do país pelo meio ambiente. Seu pacote de estímulo de 2009, por exemplo, é considerado um dos mais verdes do mundo, e o HSBC estima que 40% dos US$ 600 bilhões (R$ 1,8 trilhão) alocados pelo país têm algum benefício para a sustentabilidade. Então, qual é a verdadeira China?

China poluidora ou China verde?
Na China, a lista de calamidades ambientais é longa. O câncer é hoje a principal causa de morte – matando 80% mais pessoas do que há 30 anos. Alguns tipos de câncer, como o de pulmão, fígado e estômago, têm sido relacionados aos altos níveis de poluição no ar e na água. Isso não é uma surpresa, considerando que cerca de 3.600 quilômetros quadrados de terra se transformam em deserto todos os anos, principalmente por causa do excesso de pastagens, e que tempestades de areia severas costumam atrapalhar a vida nas cidades. Os níveis de água estão caindo em todo o país. E há dezenas de milhares de protestos civis todos os anos contra a devastação ambiental.

Os líderes da China não pensam em se desculpar. O país tem uma economia que busca o crescimento antes de mais nada – e quem é capaz de argumentar contra o objetivo de eliminar a extrema pobreza e melhorar o padrão de vida do resto da população? Mas a destruição do capital natural da China é tão profunda que a viabilidade de seu modelo econômico está agora em risco.

Os chineses estão conscientes do perigo. A maioria dos observadores da China argumenta que, apesar do comportamento do país em Copenhague, suas lideranças têm uma compreensão sofisticada do impacto da mudança climática e da ameaça que ela representa à sua prosperidade. Longe de negar tudo isso, os líderes da China têm a intenção de desenvolver um caminho pioneiro em direção a uma economia de baixas emissões. Há duas principais frentes: tornar mais sustentável a infraestrutura já existente e construir novas indústrias baseadas em tecnologias sustentáveis. O objetivo é transformar a China numa “oficina verde para o mundo”, garantindo, no processo, empregos muito mais especializados e com maior valor agregado.

China

  • Stephen Shaver/AFP

    Operários em usina a carvão em Hebei, uma das cidades com mais problemas de poluição

Nenhuma dessas melhorias à infraestrutura existente, entretanto, transformará a China numa economia de baixas emissões. É necessário algo mais radical, e a solução está num caminho paralelo, que inclui tanto a energia renovável quanto a nuclear , além de outras tecnologias verdes.

A revolução da energia renovável
O objetivo do país é gerar 15% de sua energia a partir de fontes renováveis até 2020. A China tem uma situação ideal para explorar a energia eólica tanto no mar quanto em terra, mas outras tecnologias também estão sendo expandidas. A meta de energia solar para 2020 é de 9 mil megawatts de capacidade – 75 vezes mais do que sua pequena produção de 120 megawatts. Em outros locais, fontes de biomassa, hidrelétricas e geotérmicas também deverão receber grandes investimentos. O HSBC estima que a o mercado potencial de energia renovável em 2020 deverá chegar a US$ 2 trilhões, e a China está concentrada tanto nesses mercados internacionais quanto em seu próprio desafio energético.

A sustentabilidade é mais fácil para as autocracias
Embora seja difícil comentar o assunto, a falta de democracia na China dá ao país uma vantagem significativa em sua revolução sustentável. É muito mais fácil planejar na China; as autoridades não têm problemas para decidir onde colocarão uma fazenda de moinhos de vento. E planejar a longo prazo, para os próximos 40 ou 50 anos, é muito mais fácil quando não há uma eleição à frente.

Mas, é claro, nada é tão simples. As ordens de Beijing são com frequência ignoradas no nível local. Reverter a terrível força da economia industrial está se mostrando um imenso desafio. Além disso, os políticos da China não podem simplesmente ignorar a opinião pública. A classe média chinesa não quer descer um degrau na escada do consumo depois de ter acabado de colocar os pés sobre ela, e os pobres ainda esperam que o governo os coloquem nela rapidamente. Os líderes temem que a população se irrite quanto aos assuntos econômicos mais do que em relação a qualquer tema ambiental.

O primeiro teste real será o próximo plano da China para os próximos cinco anos, de 2011 a 2015. Em novembro de 2009, o Conselho Chinês para a Cooperação Internacional em Meio Ambiente e Desenvolvimento apresentou ao premiê Wen Jiabao um projeto de baixas emissões para inclusão no plano. Um de seus cenários é um projeto que muda pouco os negócios e enfatiza a prosperidade, resultando em emissões de 13 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano em 2050. Há também um “cenário aprimorado de baixas emissões” segundo o qual elas atingiriam seu pico em 2025 e depois seriam reduzidas para 5 bilhões de toneladas por ano em 2050.

Entre esses dois cenários, e os 8 bilhões de toneladas por ano que os separam, está o futuro da civilização humana. Resumindo, não haverá um futuro sustentável e justo para a humanidade a menos que a China o torne possível.

(Jonathon Porritt é diretor fundador do Fórum para o Futuro e autor de “Capitalism as If the World Matters: Revised Edition 2007”).

Tradutor: Eloise De Vylder

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