Uma batata quente climática para o mundo

Roddy Campbell

  • Peter Dejong/AP

    Fábrica atrás do centro de eventos Bella Center, em Copenhague (Dinamarca), onde ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15)

A crença de que o homem está aquecendo o clima do planeta através das emissões de gases de efeito estufa é sustentada por evidências que mostram um aumento modesto nas temperaturas globais durante as últimas décadas. Mas qual é a escala desse aumento, e será que ele é anormal? Para descobrir, precisamos de um registro acurado durante um longo período. É aí que entra a Unidade de Pesquisa Climática (CRU, na sigla em inglês) da Universidade de East Anglia, e porque o escândalo “Climagate”, quanto aos e-mails que vazaram da universidade, é tão importante.

O CRU é um dos principais corpos de pesquisa climática do mundo. Seus cientistas, junto com o Centro de Meteorologia Hadley, constroem e mantêm o registro de temperatura do mundo. Isso pode soar fácil, princialmente uma vez que os números que eles produzem sempre parecem precisos: em 2007 o Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática definiu o aquecimento durante os últimos 100 anos em exatamente 0,74 graus Celsius. Mas acompanhar mudanças de temperatura tão pequenas é complicado – até mesmo no século passado, do qual se tem um conjunto de dados decente. Eles medem altas, baixas e médias? Será que as leituras devem vir da Sibéria, da Antárctica ou da Austrália – e, se de todos esses lugares, como se avalia o resultado para uma média global? Pela área terrestre? E quanto aos oceanos?

Para contornar isso, o CRU divide o mundo em grades geográficas. Ele reúne dados de institutos meteorológicos em todo o mundo, faz ajustes e obtém a temperatura para cada grade. Os pesquisadores então comparam o resultado com uma linha de referência de temperaturas históricas para aquela mesma grade. A média das diferenças em cada grade revela o quanto que as temperaturas de hoje diferem das temperaturas históricas.

Mas há problemas, mesmo que isso seja feito com cuidado. O primeiro é a urbanização. Numa situação ideal, os termômetros ficariam no mesmo lugar por longos períodos e não seriam afetados pelas pessoas. Mas na realidade eles são com frequência colocados próximos a aeroportos, por exemplo, onde são suscetíveis ao efeito das “ilhas urbanas de calor”, à medida que o trânsito aumenta ou as vias crescem. Esse efeito aconteceu na maior parte dos lugares onde o registro se mostra mais confiável, como a Inglaterra e os Estados Unidos, onde o desenvolvimento econômico foi maior, então a temperatura registrada na superfície precisa ser ajustada por conta de uma distorção para mais provocada pelo homem. A metodologia de ajuste do CRU e mantida em segredo.

Mesmo no interior, um termômetro numa fazenda pode ficar exposta a mais máquinas hoje do que há um século. Comparações de termômetros urbanos e rurais mostraram efeitos de ilhas de calor de alguns graus Celsius. Alguns estudos alegam que o aparente aumento nas temperaturas estão relacionados com a atividade econômica local e não ao aquecimento global. Outros problemas surgem quando um termômetro é substituído, criando dados descontínuos, então a série precisa ser combinada. Essa combinação e definição da média está longe de ser perfeita em lugares como a Inglaterra. Mas na Sibéria e na China, o CRU é obrigado a pegar os dados sem nem mesmo observar as estações meteorológicas. (Também existem dados de satélite para os últimos 30 anos, mas eles medem apenas em grandes altitudes e mostraram menos aquecimento do que no nível do solo.)

É por isso que os céticos têm, não sem razão, pedido para ver os dados brutos. Um cientista não pode dizer “eu descobri X” e se recusar a compartilhar os dados para provar sua descoberta. Um e-mail de 2005 do diretor do CRU Phil Jones para o cético australiano Warwick Hughes enfatizou isso: “Temos 25 anos ou mais investidos no trabalho. Por que deveríamos disponibilizar os dados para você, quando o seu objetivo é testá-los e descobrir algo errado com eles?”. Em outro e-mail ele escreveu que havia deletado “um monte de e-mails” depois de receber pedidos de divulgação de informação, e pediu a outros cientistas para fazerem o mesmo.

A boa notícia é que agora, depois do Climagate, o CRU e o Met Office divulgaram os dados que eles disseram ser protegidos por copyright, ou sujeitos a acordos confidenciais. Então o escândalo encorajou uma abertura maior. Mas isso não fez muito para resolver um segundo problema, que surge quando você tenta deduzir temperaturas de milhares de anos atrás. A paleoclimatologia (o estudo da história do clima da Terra) é mais difícil do que as medidas de curto prazo, porque não há registros. As mudanças de temperatura precisam ser deduzidas através de anéis de árvores ou colunas de gelo. Mas alguns anéis de árvores, por exemplo, sugerem histórias diferentes em um lado da árvore para o outro, enquanto seu crescimento é afetado pela mudança nas chuvas e no dióxido de carbono, assim como pela temperatura.

Outro problema parte do infame gráfico “taco de hóquei”, criado pelo climatologista norte-americano Michael Mann e mostrado com destaque no filme “Uma Verdade Inconveniente”, de Al Gore. Ele usa dados de anéis de árvores da Rússia e dos EUA para mostrar temperaturas caindo suavemente durante a maior parte dos últimos mil anos, e depois subindo drasticamente a partir de meados do século 20, como o final de um taco de hóquei. Mas o gráfico parece ter deixado de lado dois períodos cruciais: o “período quente medieval” desde a virada do último milênio até o século 15, e a “pequena Era Glacial” no começo do século 17, quando o Tâmisa congelava regularmente. Mann alegou que esses períodos eram locais em sua natureza; os céticos, entretanto, suspeitam que as técnicas usadas para criar gráficos como este do bastão de hóquei foram projetadas para apoiar a ideia de que o aquecimento na segunda metade do século 20 foi sem precedentes.

Não há nenhuma conspiração aqui. Mas os cientistas envolvidos na pesquisa climática durante os últimos 30 anos podem ter desfrutado demais de sua era de ouro. Bolsas de pesquisa têm sido oferecidas aos montes – embora nem tanto, é claro, para cientistas com visões contrárias.

Estou longe de ser alguém que nega a mudança climática. Parece perfeitamente plausível que esteja acontecendo, ou irá acontecer, um efeito sobre o aquecimento por conta das altas concentrações de gases de efeito estufa. Mas as provas não são claras ainda; houve, por exemplo, períodos de aquecimento no século 19 quase idênticos ao modesto aquecimento que ao que parece experimentamos desde 1975. Não podemos nos fiar em modelos climáticos altamente imperfeitos como base para iniciativas políticas que custam bilhões e mudam a forma como vivemos. É necessário um registro acurado e sem distorções das temperaturas.

(Roddy Campbell é administrador de um fundo.)

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