Capital erótico: você sabe o que é? Sabe se tem?

Catherine Hakim

  • AFP

    As primeiras-damas dos EUA, Michelle Obama (à esq.), e da França, Carla Bruni, durante cerimônia de boas-vindas em Strasbourg (França)

    As primeiras-damas dos EUA, Michelle Obama (à esq.), e da França, Carla Bruni, durante cerimônia de boas-vindas em Strasbourg (França)

Michelle e Barack Obama têm. Carla Bruni e David Beckham têm. Katie Price, a modelo britânica conhecida como Jordan, fez uma carreira dele. É tão grande a vantagem que o capital erótico pode trazer para o mercado de trabalho –especialmente nos esportes, nas artes, na mídia e na propaganda- que frequentemente supera os títulos e qualificações educacionais. 

Capital erótico é uma expressão que eu cunhei para me referir a uma combinação de atração física e social nebulosa, mas crucial. Propriamente compreendido, o capital erótico é o que os economistas chamam de “ativo pessoal”, pronto para assumir seu lugar ao lado do capital humano, econômico, cultural e social. Entre esses fatores, é igualmente (se não mais) importante para a mobilidade social e o sucesso. 

O capital erótico vai além da beleza e inclui o “sex appeal”, o charme e as habilidades sexuais, forma física e vitalidade, competência sexual e habilidades de apresentação, tais como asseamento pessoal, escolhas de roupa e outras artes do adornamento pessoal. A maior parte dos estudos capturam apenas uma faceta do capital erótico: fotografias medem beleza ou “sex appeal”, a psicologia mede a auto-confiança e as habilidades sociais e pesquisas sexuais exploram as capacidades de sedução e número de parceiros. 

As mulheres há muito se saem bem nessas artes: é por isso que tendem a estar mais bem vestidas que os homens nas festas. Elas fazem mais esforço para desenvolver as habilidades de charme, empatia, persuasão e empregam a inteligência emocional e o trabalho emocional. De fato, o elemento final do capital erótico é único das mulheres: gerar crianças. Em algumas culturas, a fertilidade é um elemento essencial do poder erótico da mulher. Apesar de a fertilidade feminina ser menos importante em regiões como o Norte da Europa (onde as famílias são menores), a posição dominante das mulheres neste mercado foi reforçada em recentes décadas por um fenômeno muito lamentado: a sexualização da cultura. 

Desde a revolução da pílula, nos anos 60, as pesquisas mundiais revelam um aumento dramático em atividades sexuais, em números de parceiros e variedades de sexo. Londres hoje abriga uma feira “Erotica” anual, que apresenta a nova diversidade em estilos de vida e gostos sexuais. Pesquisas da Organização Mundial de Saúde mostram que todos os seres humanos veem a atividade sexual como essencial a uma alta qualidade de vida –mas os homens ainda classificam o sexo como mais importante do que as mulheres. De fato, a alta na demanda mundial por atividades sexuais de todos os tipos (inclusive o sexo comercial, o autoerotismo e o entretenimento erótico) tem sido muito mais pronunciada entre homens do que mulheres. O turismo sexual é essencialmente um hobby masculino, enquanto as revistas eróticas para mulheres frequentemente fracassam. 

Isso cria um efeito que deve ser familiar a um economista: as leis de oferta e demanda aumentam o valor do capital erótico das mulheres, particularmente sua beleza, “sex appeal” e competência sexual. Está acontecendo tanto na Escandinávia quanto nos países mediterrâneos, na China e nos EUA. O padrão é confirmado até em países “liberados” sexualmente, tais como França e Finlândia. Os homens têm de duas a dez vezes mais chance de ter casos, comprar pornografia, frequentar clubes de dança erótica e outros entretenimentos eróticos. E as garotas de programa podem ganhar mais que quase todas as outras profissões, apesar do fato de trabalharem menos horas. 

É verdade que, como argumentam as feministas, alguns desses relacionamentos podem ser de exploração. E, até certo grau, a nova vantagem das mulheres é mascarada pela explosão da atividade sexual entre homens e mulheres com menos de 30 anos, que hoje consideram normal terem casos de apenas uma noite. Nessa faixa etária há uma paridade de libido, mas o desequilíbrio volta entre homens com mais de 30 –as pesquisas em torno do globo revelam que as mulheres com mais de 30 gradualmente perdem o interesse nos jogos eróticos. 

Essa é uma refutação implícita das pensadoras feministas (como Sylvia Walby, Mary Evans, Monique Wittig ou, mais recentemente, Kat Banyard) que argumentam que homens e mulheres são “iguais” em seus interesse sexuais, como em tudo o mais. Isso obviamente é não verdade,e, por isso, não deve nos surpreender que algumas mulheres usem o sexo e seu capital erótico para obter o que querem. Acontece tão frequentemente hoje quanto no passado, como ilustrado pela barganha sexual diária descrita pelo livro da terapeuta sexual australiana Bettnia Arndt de 2009 “The Sex Diaries”. 

A sexualização da cultura afeta tanto a vida pública quanto a privada. A beleza, o “sex appeal”, as habilidades sociais e a arte de cuidar da aparência cada vez mais são valorizados em toda parte, ajudando a vender ideias, produtos e políticas. A cultura popular valoriza especialmente o capital erótico feminino: veja simplesmente as bandas de garotos descabelados e de meninas produzidas. Sim, os homens com altos níveis de capital erótico se saem melhor do que os que não têm. Mas são mulheres belas e elegantes que estão nas propagandas para produtos de todos os tipos, desde carros até detergentes –e não homens. 

Os benefícios econômicos de ser atraente física e socialmente podem ser substanciais, especialmente em marketing, relações públicas, televisão e tribunais, assim como para atores, cantores e dançarinos. Mas é mais amplo que isso: pessoas que trabalham em setores mais bem pagos da iniciativa privada são mais atraentes do que as nos setores públicos e sem fins lucrativos. Pessoas altas e atraentes têm maior chance de conseguir trabalho em bancos ou em escritórios de advocacia. Para as feias e pequenas, é mais difícil. Pessoas bonitas podem ganhar de 10 a 15% mais do que as medianas, que por sua vez ganham de 10 a 15% mais do que as feias. As altas ganham mais que as baixas; as obesas ganham de 10 a 15% menos que a média. Análises estatísticas mostram que esse prêmio pela beleza não se deve a diferenças disfarçadas de inteligência, classe social e auto-confiança. Estudos entre advogados revelam que sempre há um prêmio para os atraentes. O prêmio varia de tamanho, mas não se deve à discriminação por parte do empregador. Os mais atraentes podem ganhar 12% a mais que os não atraentes e têm 20% mais de chance de alcançar a sociedade na firma, porque são mais eficazes em atrair os clientes. 

De fato, há uma diferença de 25 pontos percentuais em ganhos médios entre as minorias de pessoas atraentes e não atraentes. Esse impacto pode ser tão grande quanto o vão entre ter um diploma ou não ter qualquer qualificação –apesar de estar bem abaixo da inteligência como determinadora dos resultados da vida. 

O que é intrigante é que isso significa que o capital erótico –se visto como dote econômico- é um ativo especialmente importante para as pessoas com poucas capacidades intelectuais ou qualificações. No Brasil, o investimento em cirurgia cosmética é tido como uma forma inteligente de avançar em uma cultura onde a aparência e a sexualidade contam. No Reino Unido também, uma pesquisa com meninas adolescentes revelou que um quarto delas acham que é mais importante ser bonito do que inteligente. 

Gostando ou não, o capital erótico é hoje um capital humano e financeiro valorizado. Como aconselhou o companheiro Mao –ande com duas pernas. 

(Catherine Hakim é pesquisadora de sociologia da Escola de economia de Londres).

Tradutor: Deborah Weinberg

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