A explosão demográfica muçulmana conquistará a Europa?

Eric Kaufmann

O vídeo de sete minutos “Demografia Muçulmana”, disponível no YouTube, teve um sucesso estrondoso na internet em 2009, atraindo mais de 10 milhões de hits. Ele mostra as baixas taxas de natalidade das populações nativas da Europa e as compara com as altas taxas de fecundidade dos muçulmanos europeus. Ele então entra na fantasia, dizendo que a mulher muçulmana média tem 8,1 filhos (na verdade, o número gira em torno de três), e que 30% dos franceses abaixo de 20 anos são muçulmanos (o número real é 5,7%). Mesmo assim, o vídeo pinta um quatro convincente de uma Reconquista Muçulmana por volta de 2050. Bem-vindo ao mundo daqueles que temem o surgimento de um novo continente: a Eurábia.

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    Vídeo divulgado na internet cria polêmica ao divulgar, a partir de dados parcialmente falsos, que países ocidentais se tornarão repúblicas islâmicas dentro de algumas décadas. No trecho capturado na imagem acima, vídeo afirma que a mulher muçulmana média tem 8,1 filhos - na verdade, o número gira em torno de três

O eurabianismo é abundante na internet, esbarrando aparentemente na ansiedade de muita gente. A maior parte dele é um exagero e facilmente contestado por comentaristas liberais como uma fantasia alarmista. Mas os que rejeitam essas fantasias deixam de considerar que as diferenças aparentemente pequenas nas taxas de fecundidade e na imigração, se forem mantidas ao longo do tempo, poderão levar a efeitos combinados que transformarão as populações ao longo de um século ou dois.

A demografia é a ciência social mais previsível, muito mais do que a economia. Hoje temos décadas de dados sobre imigração, casamentos interétnicos, tendências de secularização e fecundidade, a partir dos quais podemos construir modelos. Quais, então, são as evidências reais para a Eurábia?

Estou envolvido num projeto de pesquisa relacionado a esse tema, conduzido pelo Instituto Internacional para a Análise de Sistemas Aplicada da Áustria. Produzimos as primeiras projeções rigorosas da composição religiosa de alguns países europeus para 2030. O relatório completo será divulgado este mês, e também em meu novo livro “Shall the Religious Inherit the Earth?” [algo como “Os Religiosos Herdarão a Terra?”], mas as descobertas mais gerais já estão claras.

Comecemos pela atual porcentagem de muçulmanos na população. Os muçulmanos atualmente são apenas uma pequena minoria em cada um dos países europeus, mas seus números aumentarão drasticamente mesmo sem a imigração, porque as populações muçulmanas, como todos os grupos de imigrantes, são bem mais jovens do que a média. Na Grã-Bretanha, 4,7% dos cidadãos abaixo de 16 anos são muçulmanos, comparado a apenas 0,6% dos acima de 65 anos. E as famílias muçulmanas são mais numerosas do que as demais – na Grã-Bretanha, a taxa total de fecundidade das mulheres muçulmanas é cerca de dois terços mais alta do que a das mulheres britânica.

Mesmo que a imigração acabasse amanhã, a taxa de natalidade mais alta dos muçulmanos e a estrutura mais jovem de sua população ainda assegurariam um aumento em sua porcentagem na população total. Além disso, declínios drásticos na imigração são improváveis. A população nativa europeia está envelhecendo e diminuindo. Isso fará com que os empregadores incentivem uma maior imigração econômica. É difícil controlar o asilo, a migração em cadeia e a imigração ilegal nas sociedades liberais, então o fluxo de cerca de 250 mil muçulmanos para a UE a cada ano provavelmente continuará. Este número parece uma goteira, e como representa 0,5% da população europeia, de fato é. Mas a onda de imigração latina para os EUA atingiu apenas a média de 1% do total da população ao ano – e isso transformou o país. Em poucas palavras, há provas suficientes para sustentar pelo menos parte da tese da Eurábia.

Alguns céticos alegam que os muçulmanos estão se integrando cada vez mais e imprimindo relativamente poucas mudanças à cultura europeia, mas é difícil provar isso. Na Europa, o casamento intercultural pode ser visto como o melhor barômetro da assimilação. Leo Lucassen e Charlotee Laarman da Universidade de Leiden pesquisaram o assunto, concentrando-se nas populações islâmicas da Alemanha, Bélgica, Holanda, Grã-Bretanha e França. Eles concluíram que cerca de 6% dos muçulmanos nascidos no exterior casavam fora de sua religião, e esse número aumenta para 10% ou 11% na segunda geração. A maior parte desse aumento pode ser atribuída, entretanto, à integração de certa forma excepcional dos franceses argelinos.

No geral, a porcentagem de muçulmanos que se casam fora de sua religião continua baixa. Na Alemanha, por exemplo, apenas 7,2% dos homens muçulmanos e 0,5% das mulheres muçulmanas são casados com uma pessoa de outra religião.

Um caminho alternativo para a integração é o secularismo. Se os muçulmanos estiverem se transformando em europeus seculares, a demografia se torna irrelevante. Mas também aqui, as delimitações entre os grupos se tornam limitantes. Pesquisas feitas em toda a Europa mostram que os muçulmanos abaixo de 25 anos são tão devotos quanto os acima de 55 anos, bem diferente da situação de católicos e os anglicanos. Com frequência, os jovens muçulmanos são ainda mais austeros do que seus ancestrais: uma pesquisa de 2006 descobriu que 37% dos muçulmanos entre 16 e 24 anos de idade querem viver sob a lei da Shariah, contra apenas 17% dos acima de 55 anos.

O resultado de uma população muçulmana jovem com alta fertilidade, imigração contínua, forte retenção religiosa e pouca secularização é o potencial para alto crescimento. Mas antes de tirarmos conclusões, vamos avaliar algumas tendências contrárias importantes. A mais notável é o declínio rápido na taxa de natalidade muçulmana. Isso acontece em parte por causa da queda nas taxas de fecundidade nos países que são fontes de imigrantes e em parte por causa da assimilação das normas dos países que os recebem. Na Inglaterra e no País de Gales, as taxas totais de fecundidade de imigrantes do Paquistão e de Bangladesh caíram de 9,3 para 4,9 entre 1971 e 1996. Ambos os grupos agora têm uma taxa total de fecundidade de menos de três filhos. Então existem motivos para pensar que a fecundidade dos muçulmanos europeus ficará mais parecida com a da maioria da população. Nossas projeções chegam a essa convergência em 2030.

Então, o que o futuro nos reserva? Nossas projeções para muitos países da Europa ocidental descobriram que os muçulmanos serão entre 4% e 14% da população em 2030, um grande aumento se considerarmos a proporção de 2% a 6% que existe hoje, mas uma disparidade grande em relação aos números que constituem a chamada Eurábia. Alguns podem ficar tentados criar, a partir dessas projeções cuidadosas, uma profecia em que a parcela muçulmana da população dobraria a cada 20 anos. Entretanto, isto está equivocado. Primeiro porque a taxa de natalidade dos muçulmanos está caindo. Segundo porque os grupos de imigrantes não muçulmanos também estão crescendo rapidamente, tornando a Europa mais pluralista e menos islâmica. Embora nosso relatório não se aventure para além de 2030, grande parte das evidências demográficas apontam para estas tendências.

Parece-me que na segunda metade do século 21, a maior preocupação será uma emergente “cultura de guerra” entre os fundamentalistas de todas as religiões e aqueles que apoiam o status quo secular. Os europeus seculares de origem muçulmana juntar-se-ão aos secularistas brancos contra os islamistas e outros fundamentalistas. Infelizmente, este é um conflito que os fundamentalistas estão predispostos a vencer porque as diferenças nas taxas de natalidade baseadas na teologia não desaparecem da mesma forma que aquelas baseadas nos grupos étnicos.

E os fundamentalistas estão tentando avançar além dos limites religiosos para combater o secularismo. Mais uma vez, os EUA estabelecem o tom dos acontecimentos: hoje, o grau de intensidade religiosa é mais importante do que a denominação ao prever como as pessoas votam. Os protestantes, católicos, mórmons e judeus conservadores tendem a votar nos republicanos, enquanto seus irmãos de fé mais liberais e os secularistas apoiam os democratas. Antes do 11 de setembro, o pré-candidato republicano à presidência Pat Buchanan foi aplaudido por declarar: “os muçulmanos norte-americanos são às vezes descritos como autoritários e patriarcais, que acreditam em famílias grandes... Isso soa muito parecido como o meu próprio pai.”

Então parece provável que os muçulmanos conservadores da Europa um dia juntem suas forças com os cristãos conservadores para promover um programa de valores ao estilo norte-americano. É uma estratégia bem mais segura para os conservadores dentro das democracias liberais do que o nacionalismo étnico, que é dificultado pelo politicamente correto. Na Europa pluralista do próximo século, os temores de uma conquista islâmica podem desaparecer à medida que os secularistas e os fundamentalistas de todos os tipos passarem a lutar entre si pela alma do continente.

Tradutor: Eloise De Vylder

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