Desafio do novo premiê britânico é reduzir o déficit público do Reino Unido

Will Hutton

  • Divulgação/BBC

    Debate final entre os três candidatos do Reino Unido; eleição acontece nessa quinta, 06 de maio

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Em comparação com a sua produção nacional, o Reino Unido possui o maior nível de dívida de propriedades do mundo. O país precisa urgentemente reduzir o seu vício em pegar dinheiro emprestado para a compra de casas e imóveis comerciais. Ele tem também que elevar drasticamente as suas exportações, a taxa de crescimento e o emprego no setor privado. Os britânicos necessitam reconfigurar as suas estruturas industrial e empresarial, que ainda se baseiam em expectativas excessivamente otimistas quanto aos gastos dos consumidores. E, além disso, o Reino Unido precisa reduzir o seu déficit público.

Todas essas medidas exigirão habilidades de gerenciamento econômico do mais alto nível – bem como uma disposição para descartar grande parte do pensamento econômico do tipo “laissez-faire” que tem servido de base para as políticas do país há uma geração. Um bom sinal é o fato de haver um consenso incomumente amplo na classe política quanto à natureza e à dimensão dos problemas. Os manifestos de todos os principais partidos políticos trazem indicações que que eles estão sabendo o que precisa ser feito. E, conforme eu constatei em recentes conversas com os líderes de cada partido, eles estão cientes das dificuldades.

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Mas isso é apenas o começo. Durante 30 anos, o Reino Unido ignorou as deficiências enraizadas das nossas instituições econômicas. Nós não somos bons em traduzir novas pesquisas científicas e tecnológicas em produtos comerciais. Possuímos pouquíssimos empresários como Andrew Ritchie, o fundador da Brompton Bicycle, ou James Dyson, inventor do aspirador sem sacola de armazenagem –, mas temos um excesso de fundos de hedge e de parceiros de equity privada. São muito poucas as nossas pequenas companhias que tornam-se empresas de médio porte; e uma grande quantidade das nossas companhias de médio porte são vendidas a conglomerados antes de atingirem a maturidade. Os nossos bancos são bons em empréstimos de hipotecas; cerca de 1,6 trilhões de libras esterlinas (R$ 4,3 trilhões) de um total de dois trilhões de libras esterlinas (R$ 5,4 trilhões) emprestados referem-se a hipotecas comerciais e residenciais – uma parcela bem maior do que a de qualquer outro país industrializado importante. Mas esses mesmos bancos são impotentes quanto se trata de financiar empresas. Nós não contamos com um sistema para apoiar a inovação. Não estamos participando das corridas econômicas.

Nós fomos poupados das consequências disso, primeiramente pelo petróleo do Mar do Norte, e a seguir pelo boom do crédito, mas as indústrias que apresentaram um bom desempenho nos últimos 15 anos – construção, comércio, agências de correção de imóveis, investimentos de hipotecas, serviços financeiros – não terão um desempenho tão bom no futuro. Os bancos não são mais capazes de crescer mais rapidamente do que a economia. O Reino Unido precisa encontrar novas formas de obter receitas.

A questão é: com o que? Durante décadas, os setores de rápido crescimento nas economias modernas foram aqueles de “conhecimento intensivo”: software, publicidade, telefonia celular, motores de aviões – todos caracterizados por um elevado conteúdo intelectual, com uma força de trabalho e consumidores sofisticados. Foram os setores da economia do conhecimento (das fábricas de alta tecnologia aos serviços financeiros) que tiraram o Reino Unido da recessão nas décadas de 1980 e 1990, antes que o país esbarrasse em duas bolhas provocadas pelo crédito ao final da década de oitenta e da primeira década deste século, respectivamente. E serão esses mesmos setores que liderarão a próxima recuperação, com uma ênfase reduzida nos serviços financeiros, nesta década que começa.

Os teóricos da inovação acreditam que talvez haverá tantas “tecnologias transformadoras de objetivo geral” criadas nos próximos 60 ou 70 anos quando houve no período que vai da Revolução Industrial até hoje – em áreas que abrangem desde os setores de energia e saúde até os de tecnologia da informação e transportes. No futuro o crescimento será impulsionado por essas tecnologias, e a vantagem será daqueles que agirem com pioneirismo. A questão é saber como – e se – o Reino Unido se beneficiará disso.

Os partidos políticos do Reino Unido não deveriam se focar somente na redução de déficits e nos aumentos de receitas (uma elevação do imposto sobre valor agregado de 20% parece ser inevitável). Eles deveriam estar falando sobre como nós criaremos aquele crescimento que torna a redução do déficit mais administrável. Eles deveriam estar discutindo como o Reino Unidos poderá construir um ecossistema inovador que apoie a sua economia fundamentada no conhecimento. Nós necessitamos de uma rede de bancos de especialistas em empresas. Precisamos de uma nova instituição de transferência de tecnologia – que tenha como modelo o Fraunhofer Institutes, da Alemanha –, que identifique os avanços científicos das nossa universidades e os transfira para a nossa comunidade empresarial. Precisamos de uma reforma radical das nossas instituições de competição e habilidades. Temos que redobrar o nosso investimento nas nossas universidades baseadas em pesquisas. Precisamos de regulamentações públicas e de aquisições inteligentes para que elas ajudem na criação de novos mercados. É preciso que o sistema tributário recompense o empreendedorismo. A criação de um ecossistema de inovações requer uma mistura eclética de políticas oriundas tanto da direita quanto da esquerda.

Essas são as conclusões preliminares do programa “The Work Foundation's Knowledge Economy” (“Economia de Conhecimento da Work Foundation”), e, nos últimos seis meses, eu as apresentei não só a diretorias de empresas, mas também a políticos proeminentes de todos o espectro ideológico. Há sinais de movimento. O manifesto do Partido Trabalhista, por exemplo, traz um compromisso de criação de uma rede nacional de Institutos Fraunhofer em estilo britânico; e o Partido Conservador também faz o mesmo, seguindo a recomendação do Relatório Dyson, encomendado pelo seu líder, David Cameron, no ano passado.

Mas, nesta campanha eleitoral, as proposta de grandes inovações deveriam ter tido um peso muito maior do que o perigo do crescimento da dívida pública ou da “grande sociedade”. As grandes inovações são a resposta para ambos os problemas. Eu gostaria de afirmar que essa história terá um final feliz, porque é muito evidente a direção que deve ser seguida pelo país. Mas há diversos interesses velados, muitos deles na City de Londres, que precisam ser enfrentados – e, apesar dos sinais positivos, eu não estou certo de que a nossa velha classe política conte realmente com a disposição necessária para a luta. Par isso serão necessários insurgentes políticos – o que talvez seja um dos motivos pelos quais o país passou a prestar atenção nos liberal-democratas.

*Will Hutton é diretor-executivo da “The Work Foundation”, uma instituição sem fins lucrativos com sede em Londres

Tradutor: UOL

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