O que o mundo pode esperar da Copa do Mundo da África?

David Goldblatt*

  • Bernat Armangue/AP

    Torcedores jogam bola no centro de Johannesburg, antes da partida de abertura da Copa do Mundo

Antigamente existia um certo mistério em relação às Copas do Mundo. Em um mundo sem televisão via satélite ou internet, nós vivíamos com informações escassas sobre o futebol estrangeiro. A cada quatro anos, os jogadores, estilos e movimentos apareciam, magicamente, do nada. E antes que as viagens de avião se tornassem mais baratas, assistir a um jogo de futebol num país estrangeiro era uma aventura complexa que poucos fãs podiam pagar. Também não era fácil para as equipes – os iugoslavos levaram três semanas para chegar de navio à primeira Copa do Mundo no Uruguai em 1930. 

A montagem do show também era um mistério – com a cobertura relegada aos correspondentes de futebol, a preparação política e econômica que as Copas geravam passava despercebida. A construção da primeira Copa do mundo mal foi percebida fora do Uruguai, e o torneio em si atraiu pouca cobertura. Em 1934, na Itália, a imprensa chegou em peso para o evento, mas a agenda era controlada por Benito Mussolini. Em 1978, entretanto, o escrutínio internacional havia aumentado o suficiente para que a junta argentina empregasse os serviços da companhia norte-americana de relações públicas Burson-Marsteller, e  foi capaz de continuar com a “guerra suja” contra seu próprio povo, enquanto gastava um quarto do orçamento do Estado na preparação para as finais. 

A criadora e responsável pela Copa do Mundo é a Fifa, organização internacional que governa o futebol. Tradicionalmente, uma vez que a Fifa tenha escolhido um país, ela deixa o anfitrião lidar com os detalhes do torneio. As finais de 1986 foram a exceção. Depois que a federação percebeu que seria impossível esconder a guerra civil alimentada pelo tráfico de drogas na Colômbia, sua primeira escolha, ela se voltou para o México. Um terremoto havia matado 12 mil mexicanos em 1985, mas a Fifa não se intimidou, nem tampouco o México – e a Copa do Mundo prosseguiu como prevista. 

A África do Sul ainda não teve que lidar com um terremoto, mas a Copa de 2010 tem sido o torneio mais observado até agora. O país passou por uma tempestade pública de críticas e debates desde que a Fifa anunciou sua decisão, em 2004. A preocupação mais comum na imprensa internacional foi, é claro, o problema da segurança: a África do Sul tem os mais altos índices de crimes sexuais e violentos do mundo. A possibilidade de violência é uma preocupação legítima, mas a cobertura tem deixado de lado qualquer tipo de empatia com os sul-africanos, que gastaram muito tempo e energia se preocupando com o crime e adaptando suas circunstâncias e comportamento de acordo com a expectativa. O excesso de preocupação dos visitantes, combinado com o plano do governo para inundar os centros urbanos com policiais, deveria eliminar o problema. 

Por que, pode-se perguntar, os países estão preparados para aceitar esse tipo de coisa em prol do torneio? Com certeza não é por motivos econômicos. Os resultados de outras Copas do Mundo sugerem que praticamente não há nenhum benefício a longo prazo, como o aumento da produção ou do emprego  no país anfitrião. Os políticos sabem disso, mas não conseguem resistir: os políticos e as nações têm suas histórias para contar e, junto com o escrutínio internacional, vem a chance de receber atenção de toda a humanidade. 

Copas políticas x sociais

As narrativas políticas de Copas anteriores se dividem em várias categorias. Primeiro, há as festas de lançamento; exercícios de influência que são anúncios da chegada ou do aumento do status do país – um reconhecimento global da industrialização e modernização bem sucedidas, ou a reintegração na comunidade internacional depois de um período de exílio. A Copa do Mundo de 1974 na Alemanha Oriental, que veio logo depois dos Jogos Olímpicos de 1972 em Munique, levava a mensagem de reintegração e normalização; de que houve uma resolução estável à questão alemã. Foi uma mensagem enfatizada pela sorte de um empate que colocou as duas Alemanhas uma contra a outra pela primeira vez nos esportes internacionais. 

As celebrações de transformações sociais são menos numerosas. O Uruguai entrou nessa categoria em 1930, quando o torneio coincidiu com o 100º aniversário da constituição do país. A vitória para o país anfitrião não só confirmou o sucesso de sua economia em expansão, democracia efetiva e do nascente estado de bem-estar social, como também forneceu a expressão mais tangível da comunidade para o país. 

No lado oposto do espectro estão as Copas do Mundo que são organizadas por sociedades altamente totalitárias, que usam o torneio como uma forma de fortalecer sua legitimidade interna e internacional: a Itália em 1934, Argentina em 1978 e as Copas do Mundo do México em 1970 e 1986. Outras foram mais influenciadas pela agenda política e comercial da Fifa. Tanto a Copa dos EUA de 1994 e a da Coreia/Japão de 2002 foram para mostrar o futebol em regiões do mundo onde o jogo costumava ser um esporte de minoria ou um reduto semi-profissional. 

Por fim, houve Copas do Mundo menores no pós-guerra. A Segunda Guerra deixou as potências líderes do futebol e da economia europeia em ruínas, mas forneceu uma oportunidade para a neutra Suíça (1954) e a Suécia (1958) receberem a Copa. Em 1962, o Chile recebeu o voto de simpatia depois que o presidente de sua federação de futebol, Carlos Dittborn, implorou: “vocês precisam nos dar a Copa do Mundo, porque não temos mais nada.” 

Então em que tipo de Copa do Mundo a de 2010 está se transformando? Não é uma festa de lançamento ou um exercício para mudar a imagem. É difícil superar a saída de Nelson Mandela da prisão e sua eleição à presidência, até mesmo para uma Copa do Mundo. A imagem global da África do Sul como uma nação diversa, um milagre democrático, um experimento multicultural, um forte poder local e uma pedra fundamental para o renascimento africano, tem sido enfatizada desde que o país recebeu e venceu a Copa do Mundo de Rugby em 1995 e a Copa Africana das Nações em 1996. Pode-se esperar mais da mesma mensagem, em vez de algo novo. De fato, devido às tensões e frustrações da política sul-africana, a falha em reduzir a imensa diferença de renda no país e a falta de transparência e honestidade na vida pública, pode-se esperar que essa mensagem seja muito enfatizada. 

A África adotou o futebol como uma obsessão há muito tempo, então não cabem comparações com as Copas de 1994 (EUA) ou 2002 (Coreia/Japão), que foram em grande parte incentivadas pelas ambições imperiais da Fifa para o jogo. O objetivo da Fifa desta fez não é levar o futebol para a África, mas sim de levar o mercado, sob a forma de seus patrocinadores multinacionais, para o futebol africano. A Fifa obtém quase todo sua renda a partir da Copa do Mundo. Os direitos de transmissão de TV rendem cerca de US$ 2 bilhões e outro US$ 1,2 bilhão vem do patrocínio corporativo, que custam de US$ 200 milhões (para ser um dos seis parceiros da Fifa) até US$ 50 milhões para os patrocinadores locais. Cerca de US$ 1 bilhão disso vai para as despesas da Fifa, custos de produção televisiva e prêmios em dinheiro, e os outros US$ 2,2 bilhões fica com a federação. Metade dessa quantia é gasta em torneios menores da Fifa e programas, o que deixa cerca de US$ 1 bilhão para ela fazer o que quiser. 

Continente africano

Meu palpite é que os objetivos da Fifa e da África do Sul serão amplamente atingidos, mas há um terceiro elemento nessa Copa do Mundo – a ideia de que o torneio não pertence somente à África do Sul, mas ao continente todo. Thabo Mbeki aprovou esta ideia durante seu mandato como presidente da África do Sul em 2004, dizendo: “nós queremos garantir que um dia, os historiadores irão refletir sobre a Copa do Mundo de 2010 como um momento em que a África se ergueu e mudou a maré de séculos de pobreza e conflito. Queremos mostrar que o momento da África chegou”. O momento da África chegou, mas a dimensão pan-africana prometida para o torneio é quase totalmente retórica. No mundo real, os subúrbios da África do Sul têm sofrido com a violência contra os imigrantes de outros países africanos. O número de visitantes do resto do continente é minúsculo, como era de se esperar. 

E o pior, a promessa de longa data de uma nação africana vencer a Copa do Mundo parece que não será cumprida. Depois de uma chegada brilhante no começo dos anos 90, a equipe da África do Sul entrou em uma espiral negativa. Logo depois da transição para a democracia em 1994, as energias guardadas do futebol sul-africano, excluído do campeonato mundial por mais de três décadas, foram liberadas. Os Orlando Pirates de Soweto sacudiram o continente e se tornar os campeões entre os clubes da África, e o país recebeu e venceu a Copa Africana de Nações em 1996. A seleção nacional perdeu a final da Copa Africana das Nações seguinte para o Egito em 1998, mas chegou pela primeira vez às finais da Copa do Mundo, na França, naquele mesmo ano. Desde então, a história é de um declínio incansável: nenhuma aparição em Copas do Mundo, e na Copa Africana de Nações eles ficaram em terceiro lugar, chegaram as quartas de final e foram eliminados na fase de grupos. Em 2010, eles nem conseguiram se qualificar. 

O declínio da seleção nacional tem raízes nos problemas da cultura do futebol no país. O futebol foi e continua sendo um esporte de negros de classe trabalhadora e enfrenta uma forte competição, pelo dinheiro da televisão e patrocínio, com o críquete e seu público mais rico de consumidores brancos. A administração do futebol também deixa a desejar. Enquanto os governos pós-apartheid gastaram uma energia considerável para reformar o críquete e o rugby dominado por brancos, o futebol foi deixado por sua própria conta e risco. Houve denúncias frequentes de jogos combinados, propinas, desvio e lavagem de dinheiro, seguidas por investigações do governo e da polícia e até casos na justiça, mas nada disso teve uma resolução satisfatória. A Associação Sul-Africana de Futebol provou ser um órgão de fiscalização ineficaz e, durante a maior parte dos últimos dois anos, quando deveria estar se preparando para a Copa do Mundo, ela se afundou nas brigas políticas internas. A seleção nacional é ameaçada por infinitas mudanças administrativas e conflitos entre técnicos e entre os jogadores estrangeiros e os que vivem no país. 

O melhor que os otimistas conseguem pensar é que a vantagem de jogar em casa fará a sua mágica. Entretanto, isso irá, na melhor das hipóteses, permitir que eles façam uma saída digna na primeira rodada eliminatória. Quatro outros times africanos – Argélia, Costa do Marfim, Camarões e Nigéria – tiveram um desempenho ruim na Copa Africana de Nações, e o jogador Didier Drogba da Costa do Marfim possivelmente será forçado ao banco de reservas na Copa do Mundo, por causa de uma contusão no braço. Apenas Gana, que chegou à final sem seus astros, parece que tem a faísca para ir bem – e está num grupo difícil contra a Alemanha, Sérvia e Austrália. Todas essas equipes expressam os dilemas do futebol africano. Por um lado, surgiu uma infinidade de novos talentos, e os melhores jogadores foram para as ligas lucrativas da Europa. Por outro, o futebol doméstico costuma ter restrições econômicas e caos político. Os jogadores africanos poderiam ganhar uma Copa do Mundo se tivessem os administradores e instituições para apoiá-los. 

De seu jeito próprio, a Copa da África do Sul 2010 pode estar mais próxima das pequenas Copas do Mundo. Não será uma festa de vilarejo, mas tampouco será um paraíso ensolarado e cheio de cerveja para os turistas, nem uma convenção de negócios eficiente e sem alma. Será caótica e ocasionalmente frustrante; será uma janela para o norte ver a criatividade necessária para administrar as dificuldades da vida no sul. Talvez ela seja o palco para a festa de lançamento de outra coisa, uma chance para compartilhar um momento de definição? Se algum time conseguir jogar futebol como o Brasil em 1958; se a multidão sul-africana, ou se todos nós conseguirmos ter a generosidade de espírito demonstrada em Estocolmo, então as acusações e frustrações que marcaram esta Copa do Mundo irão, por um momento, ser suplantadas pelos mistérios e prazeres da humanidade que joga. 

*David Goldblatt é escritor e apresentador. Ele escreveu “The Ball is Round: A Global History of Football” (“A Bola é Redonda: Uma História Mundial do Futebol”)

Tradutor: Eloise De Vylder

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