Lembre do desastre humano e ambiental de Bhopal

Philip Bowring

Hong Kong (China)

  • AP - 04.dez.1984

    Vítimas de vazamento de gás venenoso que ocorreu em 1984 na cidade de Bophal, na Índia, deixando milhares de mortos ao longo dos anos

    Vítimas de vazamento de gás venenoso que ocorreu em 1984 na cidade de Bophal, na Índia, deixando milhares de mortos ao longo dos anos

O presidente Obama faria bem em parar um pouco de linchar a BP e refletir sobre a resposta oficial e corporativa norte-americana a um desastre humano e ambiental muito maior: Bhopal, Índia, 1984.

Nuvens de gás letal emitidas por uma fábrica da empresa norte-americana Union Carbide no coração dessa cidade central indiana imediatamente mataram cerca de 2.250 pessoas e afetaram a saúde de outras 500.000. Desse total, estima-se que entre 15.000 e 30.000 pessoas morreram posteriormente como consequência do acidente e dezenas de milhares de outras continuam doentes.

Até hoje, Bhopal tem as cicatrizes humanas e físicas do desastre, que nunca foi propriamente limpo – nem antes, nem depois da Union Carbide vender seu negócio na Índia para um grupo local em 1992. A Union Carbide ainda não admitiu responsabilidade pela catástrofe, que ela atribui a uma “sabotagem”.

Grande parte do sofrimento subsequente e da incapacidade em encontrar os responsáveis foram causados pelos governos local e nacional indiano, que pareciam mais preocupados em brigar entre si do que em ajudar as vítimas. Outra falha foi do sistema jurídico da Índia, absurdamente lento e por vezes parcial. Somente neste mês, 26 anos após o evento, os tribunais finalmente julgaram culpados sete membros administrativos e técnicos indianos, todos hoje com mais de 70 anos. Eles receberam sentenças de dois anos de prisão e pequenas multas e foram soltos sob fiança.

Mas não vamos esquecer da sede da companhia americana, cujos executivos fizeram todos os esforços para se distanciar da responsabilidade pela operação de sua subsidiária indiana. A Union Carbide pagou uma quantia modesta na época, dada a magnitude da tragédia: US$ 470 milhões (em torno de R$ 800 milhões) em um acordo de compensação de 1989 com o governo indiano, uma fração do que foi pedido. Ela concordou, contudo, em construir um hospital com os lucros gerados com a venda de suas operações indianas em 1992.

Os pagamentos totais da empresa praticamente equivalem a US$ 1 bilhão em dólares atuais –o que a BP já gastou. A Union Carbide, que nunca deixou de pagar dividendos para ter mais dinheiro disponível para ajudar as vítimas de Bhopal, foi comprada pela Dow Chemical em 2001 e assim conseguiu se distanciar ainda mais da tragédia.

O efeito combinado da negligência oficial indiana e corporativa americana garantiu que os esforços para compensar as famílias das vítimas, fornecer cuidado hospitalar adequado e apoio para os que continuam a sofrer, ou para limpar a bagunça ambiental foram lamentáveis. As cortes americanas também rejeitaram os esforços das vítimas de abrirem processos nos EUA.

O diretor da Union Carbide na época, Warren Anderson, visitou a Índia após o acidente. Ele foi levado à justiça e solto sob fiança. Subsequentemente, uma acusação de homicídio foi feita contra ele, mas ele nunca retornou ao país para enfrentá-la. Mandados de prisão foram emitidos, mas nem a Índia nem os EUA fizeram esforços para extraditá-lo, e ele escapou do julgamento.

É fácil fazer bodes expiatórios dos principais executivos, que não podem facilmente ser responsabilizados por atalhos e negligência de funcionários a milhares de quilômetros de distância. Compensar as vítimas e melhorar os procedimentos é muito mais frutífero do que tentar atribuir culpa. Tais acidentes em geral acontecem por causa de uma série de decisões erradas envolvendo tanto os executivos distantes quanto técnicos locais.

Contudo, os escassos pagamentos da Union Carbide e o fato que Anderson encontrou um porto seguro nos EUA fomentaram o sentimento anti-multinacionais sempre latente na Índia. Ele é comum a muitos países em desenvolvimento, particularmente por práticas de mineração. As multinacionais, segundo os críticos, sempre se livram, graças à pressão diplomática ou ameaças veladas que as empresas retirarão os investimentos se forem punidas.

Na realidade, a maior parte das operações multinacionais no mundo em desenvolvimento é regulada por padrões técnicos e administrativos muito mais altos do que suas equivalentes locais. A Índia e a China têm números enormes de fábricas nacionais e minas que sujeitam seus trabalhadores a perigos aterrorizadores e nas quais fatalidades são comuns.

Os EUA, porém, precisam ser lembrados da multa insignificante que uma das suas principais empresas pagou por ser a fonte do pior destrate industrial da história. Quantas pessoas no Ocidente hoje estariam dispostas a comparar a compensação que os cidadãos indianos receberam por perderem a vida e a saúde com a compensação que deve vir do desastre do petróleo da BP no Golfo do México?

 

Tradutor: Deborah Weinberg

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