A Internet deixou nossa vida melhor ou pior?

Evgeny Morozov

Em 1889 a “Spectator” publicou um artigo, “Os efeitos intelectuais da eletricidade”, com a intenção de provocar seus leitores vitorianos. O primeiro-ministro Robert Cecil havia feito recentemente um discurso para a Associação de Engenheiros Elétricos no qual “admitia que só o futuro poderia dizer se o efeito da descoberta da eletricidade (…) seria para o bem ou para o mal”. Os autores o atacaram por ter sido leve nas críticas à eletricidade. Seus efeitos materiais eram bem-vindos – mas não seus efeitos intelectuais.

A eletricidade levou ao telégrafo, que por sua vez levou a “uma vasta difusão do que se chama de 'notícia', o registro de cada acontecimento, e especialmente de cada crime”. A revista desaprovou um mundo que existia “para os propósitos da 'inteligência' reduzida a um vilarejo” no qual “todos os homens são incentivados a pensar em todas as coisas, ao mesmo tempo, em informações imperfeitas e com muito pouco intervalo para reflexão.”

Avance 120 anos, e críticas parecidas são abundantes. Considere o lamento anti-Twitter por parte do escritor novaiorquino George Packer em fevereiro, publicado, ironicamente, em seu blog: “Não há como os leitores ficarem online, navegando, mandando e-mails, postando, tweetando, lendo tweets e em breve fazendo o que quer que venha depois do Twitter, sem pagar caro por isso em tempo, atenção, compreensão de texto e experiência do mundo real.” É claro que há um preço a pagar por processar toda essa informação. Mas a verdadeira questão é: será que esse preço é muito alto?

Daí entra Nicholas Carr, um escritor de tecnologia e principal crítico do Vale do Silício, cujo livro “The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains” acabou de ser publicado nos EUA. É uma versão expandida do ensaio “Is Google Making Us Stupid?”, publicado na revista “Atlantic” em 2008, que causou polêmica entre vários grupos. Os que se preocupam com o ritmo acelerado da vida moderna, com a dispersão da atenção e o excesso de informação encontraram um novo aliado. E os que se preocupam com a trivialização da vida intelectual pelos blogs, tweets e vídeos de gatos no YouTube também esquentaram com a mensagem de Carr.

O que quer que as pessoas façam das amplas afirmações de Carr sobre a Internet, muitos leitores ficarão impressionados por seu resumo de recentes descobertas da neurociência. Ele se baseia no trabalho do vencedor do prêmio Nobel Eric Kandel e de outros para revelar que o cérebro humano se adapta a novas experiências – uma capacidade conhecida como “neuroplasticidade”. Isso é útil do ponto de vista de uma perspectiva evolucionária, mas também significa que algumas funções cerebrais se atrofiam caso não sejam usadas.

Carr acredita que estamos presos numa armadilha, porque a internet é programada para “dispersar nossa atenção” de tal forma que agrava as influências perniciosas de alguns tipos de processamento de informação. A internet “nos transforma em ratos de laboratório pressionando alavancas para ganhar migalhas de alimento social e intelectual.” Carr conclui que “com a exceção dos alfabetos e sistemas numéricos, a internet talvez seja a única tecnologia poderosa capaz de alterar a mente que já caiu no uso comum”. Isso leva a uma visão ainda mais desoladora: “estamos deixando de ser lavradores do conhecimento pessoal para nos tornarmos caçadores e coletores dentro da floresta eletrônica de informações.”

O argumento de Carr implica que algo drástico deve ser feito em relação à internet, mas evita falar sobre a objeção óbvia de que indivíduos mais “rasos” devem ser o preço a pagar por um discurso público mais profundo. A regulação de qualquer mídia precisa começar com uma concepção de bem público que vai bem além dos microníveis da neurociência. Como o meio afeta a capacidade dos cidadãos de serem ouvidos, educados e de ganhar a vida? Dada a natureza global da internet, a justiça global também precisa ser levada em conta – decisões regulatórias tomadas nos EUA e na Europa afetarão pessoas no mundo em desenvolvimento. Será que os mais pobres do mundo ficarão sem os benefícios da internet caso ela os torne mais rasos?

O que desaponta mais em “The Shallows” é que em sua busca para explorar nossos obscuros caminhos neurais, Carr perde a oportunidade de pesquisar males sociais mais urgentes que de fato podem ser relacionados à cultura digital. Veja por exemplo a cultura de transparência das redes sociais que está transformando lentamente o comportamento humano de uma forma perturbadora. Planos de saúde acessaram as contas de seus pacientes no Facebook para tentar provar que eles não tinham problemas de saúde difíceis de verificar como depressão; funcionários de universidades procuraram fotos de seus alunos bebendo ou fumando maconha na internet. Dada a onipresença da tecnologia moderna, nossa reação natural seria impedir qualquer comportamento incomum por medo de que ele se torne público. Como resultado poderíamos nos tornar cidadãos enfadonhos, que evitam o risco, especialmente aqueles que querem concorrer a um emprego público. A internet nos deu uma revolução em transparência – mas uma revolução em complacência é algo que podemos dispensar.

Mas preocupante que isso, há provas de que os jovens podem não ser não só complacentes mas também mal informados. Um estudo, publicado em fevereiro por acadêmicos da Universidade de East Carolina, pesquisou os hábitos de informação de 3.500 jovens de 18 a 24 anos durante a campanha presidencial de 2008. O alvo era investigar se aqueles que se informam assistindo notícias na TV a cabo, programas de comédia, podcasts e sites de redes sociais também eram bem informados sobre política. As descobertas fornecem poucos motivos para otimismo: “os usuários de sites na internet tendem a buscar visões que correspondem às suas; eles não sabem mais sobre política do que seus colegas e, na verdade, parecem saber até menos (…) é provável que eles tenham menos tendência a votar.” Como disse David Gelernter, cientista da computação em Yale: “Se esta é a era da informação, sobre o que estamos tão bem informados?”

Há um perigo de nos tornamos cada vez menos bem informados, à medida que a internet se torna mais personalizada e mais social ao mesmo tempo. O Google, por exemplo, tem pressionado para fornecer resultados de busca personalizados para seus usuários, o que significa que duas pessoas que procuram a mesma palavra podem receber resultados diferentes, alterados de acordo com o que elas clicaram antes. O Facebook não está longe disso; em abril ele anunciou sua integração com o Yelp, uma plataforma para listar empresas locais, e com a Pandora Radio, um serviço online de recomendação musical. Qualquer um que entre nesses sites enquanto está logado no Facebook ficará imediatamente exposto ao tipo de conteúdo – restaurantes, cafeterias, bandas – que seus amigos já marcaram como favoritos. Não está claro se as pessoas cultivarão um gosto independente num ambiente tão coletivista. As críticas de filmes e restaurantes já foram substituídas por resenhas automáticas de uma linha reunidas na internet. A julgar pela saúde da indústria jornalística, as críticas sérias de livros também devem desaparecer. No geral os efeitos da internet sobre os críticos e intelectuais são pouco examinados – e mesmo assim, temas como este tem implicações amplas para a vida social e política.

Uma explosão da atividade das redes sociais também detonou uma avalanche de narcisismo, especialmente nos campus das faculdades. Uma pesquisa de 2009 sobre 1.068 estudante universitários dos EUA feita por pesquisadores da Universidade Estadual de San Diego descobriu que 57% acreditavam que sua geração sua os sites de redes sociais para autopromoção e para buscar atenção, enquanto 40% concordaram que a declaração de que “a autopromoção, o narcisismo, o excesso de confiança e a busca de atenção são úteis para ser bem sucedido num mundo competitivo.”

O uso desse tipo de tecnologia também pode ter um aspecto de vício. Um estudo publicado em abril por pesquisadores da Universidade de Maryland pediu para 200 estudantes deixarem de usar as mídias por 24 horas e depois contarem suas experiências. Eis alguns depoimentos: “Eu coloquei a mão no bolso pelo menos 30 vezes para pegar o celular que não estava lá...”; “percebi fisicamente, que comecei a fazer movimentos repetitivos, como se eu estivesse viciado no meu iPod.” É aqui que a psiquiatria, e não a neurociência, pode ajudar. Esses problemas – a erosão da privacidade; o triunfo da mente coletiva; o florescimento do narcisismo – são problemas sociais e políticos complexos que não podem ser resolvidos apenas com a tecnologia. A internet ajudou a causar muitos deles – mas ela não parece ter muitas soluções. Os políticos e a sociedade civil precisarão arcar com o fardo de trabalhar na regulamentação e organizar campanhas de defesa de direitos.

Por outro lado, a maior parte das principais preocupações de Carr estão, ironicamente, sendo resolvidas pela própria internet. Programas de computador como o Freedom permite que usuários que se distraem facilmente se desconectem e voltem a trabalhar; serviços como o Instapeper tornam os textos legíveis retirando os anúncios. Da mesma forma como existe agora uma pressão para fazer com que as pessoas desacelerem e desfrutem de suas refeições, e um pequeno grupo de intelectuais que criaram um movimento pela “leitura lenta”, pode-se imaginar que as pessoas possam ser persuadidas a desacelerar a forma como navegam na internet também. Não é tão difícil imaginar um tipo de sistema operacional parecido com o Windows construído em torno dos princípios morais fundamentais da “internet lenta”, no qual a pessoa só poderia checar e-mail duas vezes ao dia, e onde seriam retirados anúncios de sites para não causar distração e assim por diante. Tudo isso pode surgir no mercado dentro de um ano, dependendo do burburinho em torno do livro de Carr. Como se todos os problemas da internet – e não apenas os de falta de profundidade – pudessem ser resolvidos com tanta facilidade...

(Evgeny Morozov é acadêmico da Universidade Georgetown. Seu livro sobre a internet e a democracia será publicado no final de 2010)

Tradutor: Eloise De Vylder

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