Capitalismo, mas não como conhecemos

Anatole Kaletsky*

À medida que o mundo passa do risco de vida para a convalescença da crise financeira, fica claro que embora não tenha sido destruído para a experiência de quase morte em 2008 e 2009, o capitalismo global foi transformado de forma permanente.

 A crise marcou a quarta transformação sistêmica do capitalismo global, comparada às mudanças bruscas que vieram depois da grande inflação dos anos 70, da grande depressão dos anos 30, e do período de tumulto geopolítico que culminou com a vitória do Duke de Wellington sobre Napoleão em 1815.

O novo sistema político-econômico que emerge da crise pode, portanto, ser descrito como a quarta versão distinta do capitalismo – daí o título de meu novo livro: “Capitalismo 4.0”.

A característica que define cada uma das transformações sistêmicas anteriores foi uma mudança na relação entre o governo e os mercados, e especialmente no que pode ser chamado de questão fundamental da economia política: o equilíbrio entre as decisões políticas baseadas no voto das pessoas e decisões econômicas baseadas no “voto do dinheiro”.

Analista do UOL comenta propostas
para "salvar" o capitalismo

No capitalismo clássico do século 19, a política e a economia eram esferas essencialmente distintas e as interações entre o governo e o setor privado ficavam em grande parte restritas a levantar rendimentos militares e proteger interesses poderosos. A segunda versão do capitalismo, dos anos 30 em diante, foi caracterizada por uma desconfiança dos mercados e uma fé na liderança benigna e onisciente. A terceira fase, definida pela revolução Thatcher-Reagan, inverteu essas mesmas premissas. Então qual será a característica da quarta fase?

A última crise revelou que os governos e mercados podem estar catastroficamente errados. Isso pode parecer uma conclusão deprimente, mas reconhecer a falibilidade tanto dos mercados quanto das instituições políticas, longe de ser algo paralisante, pode ser empoderador. A falibilidade implica uma tentativa de sintetizar a política e a economia, em vez de assumir uma oposição inerente entre os incentivos de mercado e as demandas por justiça social.

O capitalismo 4.0 será marcado por um novo reconhecimento de que a economia de mercado não pode funcionar sem um governo competente e ativo. As teorias econômicas dominantes nos anos 80, que assumia expectativas racionais e mercados eficientes, deixaram apenas um papel importante para a política econômica do governo: manter a inflação sob controle. Mas se os mercados são reconhecidos como imperfeitos e sujeitos oscilações financeiras, os governos e os bancos centrais devem aceitar novamente a responsabilidade de gerenciar o crescimento e o emprego e manter a estabilidade financeira.

Todo esse engajamento na administração econômica e regulação financeira pode sugerir que as próximas décadas serão uma época de governos maiores. Mas é provável que aconteça o contrário, por pelo menos três motivos.

O mais óbvio é que os governos ficaram sem dinheiro. Graças à enorme perda de arrecadação causada pela recessão, os compromissos de gastos feitos pelos governos de tudo o mundo se tornaram insustentáveis.

Segundo, a crise agravou a desconfiança pública dos governos assim como dos mercados. Daí que a maior participação do governo na administração da economia deve ser acompanhada pela retirada do Estado de outras áreas de atividade – para manter um equilíbrio entre o governo e o setor privado que seja aceitável para os eleitores mais céticos.

Em terceiro lugar, reavaliar a relação entre o governo e as empresas revelará que os Estados não podem mais satisfazer as demandas complexas de uma sociedade avançara por saúde, educação e aposentadoria – e que a dominação do governo sobre esses vastos setores antes de crise é incompatível com a prosperidade e o crescimento a longo prazo.

Por todos esses motivos, e muitos outros, a nova era do Capitalismo 4.0 exigirá que os governos se expandam e contraiam ao mesmo tempo. Isso exigirá uma reavaliação das prioridades políticas numa escala que não se vê desde os anos 80.

Para as dívidas governamentais se estabilizarem em níveis administráveis, impostos, benefícios e serviços governamentais terão que ser reformados em todas as economias avançadas. O aumento de impostos e a redução de benefícios não podem ser descartados.

Como resultado, o público será forçado a aceitar que os rendimentos do governo não são suficientes para pagar pela saúde e os benefícios de aposentadoria que eram prometidos.

Nos EUA, a predominância desses benefícios sobre os gastos públicos é tão extrema que mesmo que todos os gastos arbitrários (sem contar os da defesa) fossem cortados a zero, o orçamento federal continuaria em débito profundo. Na Inglaterra e na maior parte da Europa, a situação é um pouco menos grave porque o aumento de impostos foi aceito como inevitável. Mesmo assim, os compromissos com a saúde e pensões estatais ainda são bem maiores do que as estimativas plausíveis da capacidade de cobrar impostos a longo prazo nessas economias.

A única coisa que poderá ser debatida sobre o cenário fiscal a longo prazo, portanto, será a natureza e velocidade das reduções dos gastos públicos. Ao estabelecer as novas linhas divisórias entre o governo e o setor privado, os políticos que apelam para ideologias a priori – de mais governo ou mais mercado – serão substituídos por pragmatistas que seguem o chamado de Franklin Roosevelt por uma “experimentação ousada e persistente”.

Os EUA, Europa, Japão e Austrália, em vez de se vangloriarem de seus modelos sócio-econômicos superiores e criticarem os de outros países, fariam bem em estudar os sucessos e erros uns dos outros. O maior desafio para esses países é reduzir os principais benefícios para a saúde, aposentadorias e educação básica que consomem cerca de 70% da arrecadação de impostos. Essas três atividades já respondem por 20% a 30% do PIB e do emprego em todas as economias avançadas. Nas próximas décadas, elas continuarão se expandindo à medida que as populações envelhecem. Para manter um equilíbrio de poder razoável entre os setores privado e público no sistema capitalista pós-crise, será necessária uma mistura mais complexa de financiamento público e privado.

A educação é a área em que o fornecimento privado deve crescer mais rapidamente. Na educação superior, este processo será impelido pela predominância das universidades dos EUA em todos os ramos do conhecimento. Se outros países quiserem acompanhar os setores baseados no conhecimento, eles terão que reformar seus sistemas de educação superior para torná-los parecidos ao modelo pago dos EUA.
Para a educação escolar, as perspectivas não são tão claras. O ensino primário e secundário requer a obrigatoriedade do governo e subsídios assim como um consenso social sobre os parâmetros educacionais mais amplos. Mas o fato de que a boa educação beneficia a sociedade como um todo não significa que as escolas devem ser administradas pelo Estado.

Quase todo país do mundo acredita estar passando por algum tipo de crise educacional. Sob essas circunstâncias, as melhores esperanças de melhoria devem vir certamente de vários mecanismos e experimentos do mercado, com escolas experimentando abordagens diferentes e sucessos e fracassos distinguíveis através da tentativa e erro da escolha do consumidor. É moral e economicamente desejável que isso não reduza a oportunidade educacional ou aumente a estratificação de classes. Há muitas ferramentas políticas disponíveis para evitar isso, incluindo bolsas para crianças pobres, testes de meios, admissão por mérito e bolsas.

A saúde, entretanto, representa o maior desafio para as finanças do governo e é o setor em que as relações disfuncionais entre o governo e o setor privado causaram os piores prejuízos para a eficiência e estabilidade econômica.

Não é tão óbvio se a Inglaterra está certa em ver a medicina como um bem público, que deve ser oferecido de forma igual para todos os cidadãos pelo governo, como a segurança. Ou se ela deve ser tratada como nos EUA – como uma mercadoria privada, não muito diferente a princípio do consumo de alimentos, roupas ou habitação. Mas quer os eleitores mudem ou não de atitude em relação à doença e a saúde, os EUA e a Inglaterra estão se tornando cada vez mais conscientes de que seus sistemas de saúde são inviáveis financeiramente. Ambos os países terão que redefinir as fronteiras entre o mercado e o Estado.

A resposta racional para a crise fiscal seria a Inglaterra, junto com os EUA e a maioria das nações europeias, começar a reconhecer que os compromissos feitos com a geração de pessoas nascidas durante o baby boom, que garantiam pensões pagas pelo governo e cuidados de saúde a longo prazo simplesmente não poderão ser honrados. Mas são exatamente esses benefícios que protegem os políticos nesses países. Se esta ordem de prioridades for mantida, todos os serviços públicos, exceto aqueles que servem os idosos e doentes, sofrerão drasticamente. Multidões de funcionários públicos perderão seus empregos, muitos lares entrarão na pobreza e a educação se deteriorará.

Quando a consolidação financeira pós-crise atingir o obstáculo da aposentadoria da geração do baby-boom no final desta década, os progressistas políticos serão obrigados a fazer uma escolha: se querem preservar a educação e serviços públicos decentes para a população em idade ativa, se querem manter uma rede de seguridade social para as pessoas em maiores dificuldades e se querem servir os interesses dos funcionários públicos fora da saúde, terão que reconhecer a inviabilidade da reforma no Sistema Nacional de Saúde. A esquerda terá que começar a fazer uma campanha mais veemente para defender a responsabilidade do Estado sobre a saúde, usando o crescimento inexorável dos gastos com saúde como um cavalo de Tróia para subverter todos os outros programas governamentais.

Na nova economia política que emergirá da crise, proteger o Sistema Nacional de Saúde será a forma mais certeira para acelerar o desmantelamento do Estado de bem-estar social do pós-guerra – apenas um dos muitos paradoxos característicos da próxima era do capitalismo.

*Anatole Kaletsky é editor do Times de Londres e economista-chefe da GaveKal Research

Tradutor: Eloise De Vylder

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