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Tony Judt, um homem de palavra

Peter Jukes

Embora não fosse uma pessoa de evitar controvérsias, Tony Judt – professor da Universidade de Nova York que morreu de complicações devidas à esclerose lateral amiotrófica em 6 de agosto – nunca foi um desses “controversialistas” de oposição previsível. Nas muitas vezes que o ouvi falar, nunca consegui adivinhar o que ele diria em seguida. Parte dessa imprevisibilidade se devia, sem dúvida, à sua carreira de lidar com as exigências da história e não com as formulações amplas da filosofia ou teoria cultural. Nascido em Londres em 1948, Judt fez um doutorado em história em Cambridge antes de se mudar para Paris para estudar na Ecole Normale Superieure. Seu primeiro livro, “Socialism in Provence 1871-1914”, surgiu em 1979 e explorava uma pequena fatia de tempo com profundidade forense. Depois veio uma série de ensaios sobre a esquerda francesa, seguidos de um livro sobre intelectuais franceses do pós-guerra; e foi apenas gradualmente que Judt passou a tratar de temas mais amplos. Como ele me disse: “minha primeira publicação não acadêmica – uma resenha para o Suplemento Literário do Times – só saiu no final dos anos 80. E só depois de 1993 que eu publiquei meu primeiro texto no The New York Review of Books. Então é uma curva de aprendizagem de 25 anos.” Entrevistei Tony por e-mail no começo deste ano. A doença neurodegenerativa com a qual ele foi diagnosticado em 2008, também conhecida como doença de Lou Gherig, o transformou em tetraplégico e ele ditava suas respostas para um assistente. Tony e eu nos conhecíamos havia 12 anos, e nos encontramos pela primeira vez no Forum Remarque de 1998 – uma conferência que ele patrocinou como professor de história da NYU e a primeira do que se tornou uma instituição quase anual, com o objetivo de manter o diálogo transatlântico vivo depois da Guerra Fria. Dada a controvérsia que os escritos de Tony gerou nos anos anteriores à sua morte, é fácil esquecer como o Fórum, e o Instituto Remarque que ele fundou em 1995, foram importantes para encorajar outras pessoas a assumirem uma coragem intelectual. Tony admitiu que ele era uma espécie de “cliente estranho” - um traço que muitos atribuem à sua infância numa família judia de esquerda em Londres, ou a sua juventude entre a dialética adversária de Oxbridge. A necessidade de marchar em direção ao som dos canhões o levou a várias viagens – principalmente para Israel em junho de 1967 durante a Guerra dos Seis Dias, quando ele trabalhou como tradutor e motorista para a Força de Defesa de Israel. Quando conheci Tony ele já estava escrevendo o livro sobre a história europeia que consolidaria sua reputação internacional: “Pós-Guerra”. Em grande parte um trabalho de assimilação e consenso histórico, foi no apêndice – intitulado “O Inconsciente da História” - que Tony se pôs a analisar uma das tendências mais obscuras e problemáticas da época: a forma como as memórias do Holocausto têm sido usadas e abusadas nos últimos 50 anos. Este pano de fundo abriu caminho para que ele entrasse num dos assuntos mais contestados da vida intelectual dos EUA: a relação do país com Israel e o sionismo. O ensaio “Israel: A Alternativa”, publicado em 2003 no “The New York Review of Books”, detonou o primeiro grande furor. Nele, Tony defendeu um “único Estado integrado e binacional de judeus e árabes, israelenses e palestinos”, em vez da solução “malfadada” de dois Estados. Esse argumento foi ouvido em Israel desde sua fundação, mas o tempo e o lugar são tudo e o dom de Tony para dizer coias “impopulares em grandes espaços públicos” (em suas próprias palavras) foi amplamente condenado nos EUA. Não há muita dúvida de que sua vontade incansável de perseguir uma ideia até sua conclusão fez com que ele perdesse amigos e aliados ao longo dos anos. Não é apenas a autoridade do conhecimento que o tornava difícil de ignorar – mas também seu talento para a frase ou comparação provocativa. Uma das coisas que me encantou no primeiro encontro com Tony foi sua capacidade de falar antes de pensar – ou melhor, de pensar enquanto falava. Mesmo antes do começo de sua doença, que o obrigou a combinar a fala e a escrita (todo o seu trabalho desde 2008 foi composto em sua cabeça e depois ditado), Tony falava usando sentenças literárias e escrevia com um frescor aforístico. O principal trabalho escrito sob as condições extraordinárias de sua paralisia foi também o menos histórico e mais abertamente político de Tony. Publico em março deste ano, “Ill Fares the Land” começou a vida como uma palestra pública feita “para provar que o que eu estava dizendo sobre esta doença – que ela não afeta a mente – era verificável externamente. Imagino que o livro seria um pouco mais curto e mais metodologicamente consequente se eu tivesse feito da velha forma. Mas com certeza teria me faltada a energia e a raiva.” O resultado é uma acusação do modelo anglo-saxônico da economia de mercado livre desde 1979. Se há um elemento de improviso na origem do livro, não há nada formal em relação à série de referências que ele desvela. A história por trás de “Pós-Guerra” está toda lá, mas empregada para explicar que o governo não foi sempre ruim e que a ação coletiva nem sempre foi manchada pelo ranço autoritário “socialista”. Embora o livro seja ocasionalmente estranho em sua tentativa de abordar a divisão transatlântica e de geração, raramente deixa de instigar desde o primeiro parágrafo: “algo está profundamente errado com a forma como vivemos hoje. Por 30 anos transformamos em virtude a busca material egoísta: de fato, esta mesma busca hoje constitui o que quer que resta de nosso senso de propósito coletivo”. “Ill Fares the Land” recebeu críticas negativas tanto da direita quanto da esquerda por deixar de lado as falhas histórias do Keynesianismo e o sucesso eleitoral da “terceira via”. Mas o colapso financeiro de 2008 e a forma como o Estado teve de intervir e “salvar o capitalismo” são argumentos inquestionáveis contra o status quo. Judt estudou, combateu e até participou de muitos dos novos começos radicais dos últimos 60 anos. Mas de uma perspectiva liberal profundamente enraizada, “Ill Fares the Land” oferece por fim uma conclusão conservadora. A esquerda perdeu muito com sua obsessão com a novidade e destruição criativa, ele argumenta. Os “passados utilizáveis”, com todas as suas limitações e possibilidades, têm a virtude de serem conhecidos. Um desses passados é o papel perdido do intelectual público: bem informado mas disposto a ir além do gueto de conhecimento – que não só observa mas também tenta intervir ou provocar. O cenário econômico de “Ill Fares the Land” pode estar incompleto mas o re-exame da raiva é justo. A disposição de Tony de falar sobre o assunto foi mais uma de suas intervenções dramáticas, combinando uma voz pessoal com um conhecimento de história e um senso de ocasião de uma forma que é tanto responsiva quanto responsável, oportuna e moral. * Peter Jukes é escritor e roteirista Tradução: Eloise De Vylde

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