O beco sem saída da ciência

James Le Fanu

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Para a ciência esta é a melhor e a pior das épocas. A melhor porque suas instituições de pesquisa nunca foram tão impressionantes, e o financiamento nunca foi tão extravagante. Esta é a época da Grande Ciência, cujos financiamentos para seus megaprojetos são rotineiramente medidos em dezenas de centenas de milhões de dólares. Enquanto o orçamento total para a pesquisa científica nos EUA pouco antes da 2ª Guerra Mundial era de apenas US$ 230 milhões, em 1998 esse número havia aumentado vários dígitos. Só a pesquisa biomédica recebeu US$ 62 bilhões e durante os últimos dez anos esse número quase dobrou novamente, fazendo parecer minúsculos os PIBs de uma dúzia de países.

Mas se questionarmos “qual o resultado de tudo isso?”, a resposta parece surpreendentemente pequena – principalmente se comparada com o século passado, quando o financiamento era infinitesimalmente menor do que hoje. Na primeira década do século 20, a teoria quântica de Max Planck e a teoria especial da relatividade de Einstein rescreveram juntas as leis da física, Ernest Rutherford descreveu a estrutura do átomo e descobriu a radiação gama; e William Bateson redescobriu as leis da herança genética de Mendel. O significado revolucionário dessas e de outras descobertas foi reconhecido na época, mas ele também abriu a porta para muitos avanços científicos durante as décadas seguintes.

Por outro lado, os marcos comparáveis do passado recente foram de certa forma desapontadores. A clonagem de uma ovelha gerou muito entusiasmo, mas hoje Dolly é apenas um animal empalhado numa exposição de um museu escocês e não estamos mais sábios para a clonagem subsequente de cachorros, gatos e vacas. Sem dúvida será uma história semelhante com a recente criação da “vida artificial” por Craig Venter. Fabricar um kit de ferramentas básico de genes e inseri-lo numa bactéria – a um custo de US$ 40 milhões e dez anos de trabalho – foi tecnologicamente engenhoso. Mas o resultado faz menos do que as formas mais simples de vida têm feito de graça e em questão de segundos durante os últimos 3 bilhões de anos.

Há mais de uma década, John Horgan, repórter da Scientific American, propôs uma explicação para a relação aparentemente inversa entre a escala atual do financiamento para a pesquisa e o progresso científico. Em seu livro “The End of Science” [“O Fim da Ciência”] (1996), ele argumentou que o próprio sucesso da ciência no passado limita radicalmente suas perspectivas para o futuro. Os últimos 60 anos testemunharam uma série de descobertas científicas que somadas estão entre as maiores de todas as conquistas intelectuais, permitindo-nos pela primeira vez vislumbrar a história inteira do universo desde seu início até o dia de ontem. É difícil, até mesmo impossível, imaginar como uma conquista tão ampla possa ser ultrapassada.

Quase para sua surpresa, Horgan descobriu que muitos cientistas prominentes que entrevistou concordavam com isso. “Nós nos impressionamos tanto pela aceleração e a velocidade de conquistas magníficas”, observou Bentley Glass, ex-presidente da Associação Norte-Americana para o Avanço da Ciência, “que nos iludimos ao achar que elas podem ser mantidas indefinidamente.”

Mas outros discordam, como era de se imaginar, o que levou Horgan a ser “denunciado”, como ele admite com orgulho, por não menos do que uma dúzia de laureados com o Nobel. A afirmação de que a “ciência atingiu seus limites”, argumentam seus críticos, foi expressa muitas vezes no passado apenas para ser consistentemente refutada. Mas, respondeu Horgan numa defesa robusta de seu ponto de vista, a atual situação é diferente, porque no momento em que a ciência abrange os dois extremos da matéria – a estrutura minúscula do átomo e a vastidão do cosmos – as oportunidades para progredir ainda mais são claramente limitadas.

Rebatendo o argumento de seus críticos, de que ainda existem muitas questões sem resposta (Por que existe alguma coisa em vez de nada? O que iniciou o big bang?), Horgan retorquiu que esses temas não são passíveis de resolução pela metodologia da ciência. As explicações propostas, como a teoria das supercordas que postula que os elementos mais simples da matéria vibram em dez dimensões, ou a hipótese do “multiverso” de que existam bilhões de universos paralelos ao nosso – são “especulações não confirmáveis”.

Apesar de toda sua plausibilidade, o cenário de “fim da ciência” de Horgan falha ao não levar em conta a importância de grandes desenvolvimentos técnicos originados nos anos 80 que prometeram resolver os dois últimos obstáculos para um relato verdadeiramente abrangente do nosso lugar no universo: como que as instruções genéticas existentes ao longo da dupla hélice deram origem a uma diversidade quase infinita de formas de vida; e como as descargas elétricas do cérebro se “traduzem” nas nossas experiências subjetivas, memórias e noção de indivíduo.

Esses desenvolvimentos técnicos são, primeiro, a capacidade de soletrar a sequência completa de genes, ou genomas, de diversas espécies e, segundo, as sofisticadas técnicas de escaneamento que permitem que os neurocientistas observem o cérebro “em ação”. Ambos os desenvolvimentos assinalaram uma mudança radical da ciência convencional baseada no laboratório, gerando em vez disso petabytes (ou dezenas de milhares de trilhões de bytes) de dados brutos que exigem supercomputadores para analisá-los e interpretá-los. Essa explosão de dados transformou nossa compreensão tanto da genética e da neurociência – mas de formas bastante contrárias ao que se antecipava.

Os projetos de genoma foram baseados na ideia de que descobrir toda a sequência de genes revelaria as instruções genéticas distintas que determinam a diversidade da vida na Terra. Os biólogos ficaram compreensivelmente desconcertados ao descobrir que acontece exatamente o inverso. Ao contrário de todas as expectativas, há uma equivalência de quase 20 mil genes no vasto espectro da complexidade dos organismos, desde um verme de milímetros de comprimento até nós. No passado recente, deixamos de acreditar que podemos conhecer os princípios da herança genética para reconhecer que não temos nenhuma ideia do que ela pode ser.

Foi a mesma coisa para os neurocientistas com suas sofisticadas imagens do cérebro. Desde o começo, estava claro que o cérebro devia funcionar de formas radicalmente diferentes do que se supunha. Assim a mais simples das tarefas, como associar a palavra “cadeira” ao verbo “sentar” faria com que grandes extensões do cérebro “se iluminassem” - deixando os cientistas perplexos com o que está envolvido até na conversa mais mundana. Enquanto isso, o principal problema continua sem solução: como a atividade elétrica de bilhões de neurônios do cérebro se traduz nas experiências de nossas vidas diárias – em que cada movimento fugaz tem sua sensação distinta e intangível.

As implicações são suficientemente óbvias. Embora seja possível saber tudo sobre a materialidade física do cérebro até o último átomo, seu “produto”, os cinco mistérios cardinais da mente não-material, ainda não foi descrito: a consciência subjetiva; o livre-arbítrio; como as memórias são guardadas e recuperadas; as “altas” faculdades da razão e imaginação; e nossa sensação única de identidade pessoal.

Será que a ciência está procurando no lugar errado para encontrar soluções para questões que de certa forma estão fora de seu domínio? Há duas razões possíveis para que isso esteja acontecendo. A primeira, óbvia à reflexão, é de que a “vida” é imensuravelmente mais complexa do que a matéria: sua unidade fundamental – a célula – tem a capacidade de criar tudo que já viveu e é bilhões de vezes menor do que a menor peça de maquinário já construída pelo homem.

E assim também as leis da biologia, em que as instruções genéticas ao longo da dupla hélice determinam o mundo vivo, precisam da mesma forma ser bilhões e bilhões de vezes mais complexas do que as leis da física e química que determinam as propriedades da matéria. Então embora seja extraordinário que os cosmologistas possam inferir os eventos físicos básicos logo após o “big bang”, isso é trivial se comparado a explicar o fenômeno da vida. Entender o primeiro não indica que sejamos capazes de explicar o último.

Outra razão pela qual as recentes descobertas da genética e da neurociência devem ter causado tanta perplexidade é a crença de que o fenômeno da vida e da mente são explicáveis nos termos materialistas do trabalho dos genes e do cérebro que faz com que eles surjam. Esta é uma suposição razoável, já que toda a empreitada científica dos últimos 150 anos é baseada na hipótese de que não há nada que a princípio não possa ser explicado em termos materialistas. Mas isso continua sendo apenas uma hipótese.

Este é portanto o paradoxo da melhor e pior das épocas. A ciência agora se encontra encurralada de um lado pela conquista intelectual suprema de delinear a história do universo e por outro pela aparente inescrutabilidade de suas investigações sobre o fenômeno da vida e da mente.

Ainda assim, o financiamento generoso para a pesquisa científica continuará enquanto persistir a visão de de que o acúmulo de mais “petabytes” de dados irá, como uma escavadora, abrir um caminho entre as atuais perplexidades. Mas a Grande Ciência é intrinsecamente conservadora no geral, comprometida com o “mais do mesmo”. Seus principais atores que dominam os órgãos financiadores dificilmente oferecerão fundos para aqueles que desafiarem as certezas sobre as quais descansam suas reputações. E quando os “geeks” assumirem o poder e os pensadores livres desaparecerem – isso será verdadeiramente o fim da ciência.

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