Como esquecer a poluição em Pequim

Yuan Ren

  • Gred Baker/AFP

    Protegendo-se da poluição, homem usa máscara para caminhar por rua de Pequim

    Protegendo-se da poluição, homem usa máscara para caminhar por rua de Pequim

Estou em minha casa em Pequim, cercada por quatro filtros de ar caseiros, muito eficientes. Meu recém-adquirido monitor do ar diz que a qualidade, conforme o Índice de Qualidade do Ar (IQA) dos Estados Unidos, é 93, o que se considera "moderado". Lá fora, segundo meu aplicativo no telefone, o IQA é 560. A palavra "perigoso" está ao lado do número.

Acordei tarde hoje, e quando olhei pela janela, me perguntei por que ainda era de madrugada. Quando olhei o relógio e espiei lá fora, percebi que a luz mortiça se devia à poluição, que havia tornado a paisagem amarelo-ácido.

No início de dezembro, Pequim experimentou seu dia mais poluído de 2015. Quando saí para um passeio, a paisagem estava lavada de branco. Um lago próximo estava sob forte neblina, parecendo saída de "A Casa Soturna".

Uma vizinha me recomendou ficar dentro de casa; outra mencionou que a mídia norte-americana estava mais uma vez publicando reportagens críticas à poluição de Pequim. Nenhuma delas usava máscara. Na véspera, eu tinha encontrado outra vizinha que saíra para caminhar na neblina. "Estamos tão acostumados com isso aqui que nem usamos mais máscaras", disse ela.

Em fevereiro passado, o documentário online "Sob a abóbada", da jornalista Chai Jing, que foi da Televisão Central da China, denunciou os danos causados pela poluição do ar no país. O programa foi muito polêmico e teve mais de 150 milhões de acessos nos primeiros dias. Depois, a censura estatal bloqueou o acesso a ele.

Meses mais tarde, quem se lembra de "Sob a abóbada"? O que aconteceu com a indignação que as pessoas sentiram quando o viram?

Procurei Chai online, mas quase não há referência a ela. Eu também tinha esquecido do documentário. Ele desapareceu na névoa poluída, como a própria Pequim.

Temos novamente a mesma situação sobre a poluição. O ciclo de incômodo, tolerância e esquecimento que acompanha a mudança de ar poluído para céu limpo está de volta. Nesta era de redes sociais, o pensamento em curto prazo deve ser esperado. Mas, na China, me pergunto se o esquecimento é mais incrustado.

Em sua famosa sátira "A verdadeira história de Ah Q" (1921), o escritor moderno mais famoso e celebrado da China, Lu Xun, criticou a população chinesa por sua "capacidade de esquecer". No romance, o protagonista, Ah Q, usa o método da "vitória espiritual" para lidar com críticas constantes e reveses na vida. Depois de cada situação negativa, Ah Q reconstrói o cenário em sua mente de um modo que sai vitorioso em espírito. Ele convence a si próprio de que é na verdade um vencedor.

Para Lu, o esforço de Ah Q para esquecer é uma maneira de suportar em vez de mudar, uma característica que, segundo ele, é inerente à psique nacional. Também é algo que deixa de conduzir à introspecção e à mudança, diz o autor.

Ao telefone com meu avô, pedi que ele investisse em um equipamento de monitorização do ar, que custa menos de US$ 60 (cerca de R$ 240), o que é acessível para meus avós. Eles vivem em um dos lugares mais poluídos da China, onde a leitura do IQA recentemente chegou a 700. Meu avô ficou pasmo quando lhe falei sobre esse nível. Ele tem mais de 80 anos e sabe muito bem que é ruim para sua saúde.

Estávamos conversando havia algum tempo, quando ele perguntou: "Mas nós realmente precisamos saber quão ruim está o ar em casa? Depois de amanhã a poluição se dissipará quando o vento soprar, e não precisaremos dele."

Fiquei confuso, além de frustrado. "Mas vai voltar, vovô. O problema não vai desaparecer tão cedo, você sabe disso."

Quando meu avô afinal concordou, eu mais uma vez me esforcei para lembrar a ele de conversas que tivemos no passado. De vez em quando, eu tento convencer minha família de que uma solução permanente para proteger sua saúde é muito melhor que esperar que o pior passe.

Hoje as redes sociais estão cheias de publicações sobre a poluição. Todo mundo em Pequim está falando sobre a poluição na capital. Mas, fique tranquilo, a discussão vai desaparecer assim que o ar ficar mais limpo, quando o vento oeste soprar.

(Yuan Ren foi editora de "Time Out Beijing" e hoje é uma escritora sediada em Pequim.)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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