Opinião: A China precisa de mais crianças

Yuan Ren*

  • Johannes Eisele/AFP

Em uma noite fria em outubro passado, os líderes da China anunciaram em Pequim o fim da política de filho único, um dos experimentos mais profundos e de grande escala que o governo impôs ao seu povo. 

Minha geração não é o único produto da política de filho único. Para muitos a política, que entrou em vigor na China em 1980, já determinou sua estrutura familiar. As pessoas simplesmente não começam a se reproduzir quando o Estado diz que podem.  Alguns de meus amigos mais velhos queriam ter mais filhos, mas a maioria agora diz que há muito desistiram da ideia. 

O novo livro de Mei Fong, "One Child: The Story of China's Most Radical Experiment" ("Filho único: a história do experimento mais radical da China", em tradução livre, não lançado no Brasil), dá uma visão valiosa da política. Fong, uma ex-correspondente do "Wall Street Journal" na China, cobre amplamente a sociedade chinesa moderna, do terremoto em Sichuan à adoção por estrangeiros de bebês do sexo feminino. 

Mas a abrangência ambiciosa da autora é em parte responsável pelo fracasso do livro. "One Child" é em momentos esclarecedor, particularmente nas entrevistas em pessoa, como na história de Yicheng, uma cidade onde uma política de dois filhos foi testada "secretamente" por décadas. Mas a narrativa fracassa em manter o mesmo momento em outras áreas, repetindo argumentos muito usados na mídia ocidental de uma forma que carece de curiosidade intelectual.

Afirmações excessivamente simplificadas são feitas e às vezes o livro se desvia para temas vagamente associados (por exemplo, a tentativa forçada de tentar ligar a crescente indústria de bonecas sexuais à falta de mulheres reais). 

O que falta é um ponto de vista novo sobre como fatos e números podem ser interpretados dada a rápida evolução e a realidade social complexa da China. O livro também fracassa em se aprofundar nas atitudes e mentalidades culturais, particularmente das pessoas mais duramente atingidas pela política: as mulheres chinesas. 

Fong trata a política de filho único como um cálculo frio por parte de líderes que a conceberam com pouca referência da realidade, ou consideração por seus efeitos colaterais. Este segundo pode ser verdadeiro. Mas também é preciso considerar a situação difícil em que o país estava nos anos 70. 

Como a autora reconhece, o país foi lançado em uma política desastrosa atrás da outra nas décadas anteriores. Cada experimento foi de autoria do presidente Mao Tsé-tung –e cada um teve resultados terríveis. O Grande Salto à Frente (1958-1960), uma tentativa de modernizar a economia por meio da industrialização e da agricultura coletiva, resultou em fome e na morte de estimadas 45 milhões de pessoas. Sua devastação foi tão inconcebível que meu avô se recusava a acreditar nas histórias de sua província natal de Henan, a região mais afetada. 

Poucos anos depois, na Revolução Cultural (1966-1976), Mao atacou os elementos tradicionais e burgueses da sociedade chinesa e incitou os jovens a imporem a pureza ideológica. Assim, um povo sitiado destroçou sua própria ordem social –estudantes agrediam professores, crianças eram colocadas contra seus pais e cônjuges se voltavam um contra o outro. 

E na questão da população, a política de Mao era "quanto mais pessoas, mais fortes somos". A população dobrou de tamanho entre 1949 e 1978, para quase 1 bilhão de pessoas. A importação de contraceptivos foi proibida e a taxa de fecundidade atingiu o pico de seis filhos por mulher. 

Na época da morte de Mao em 1976, o país estava atolado na pobreza. O inchaço da população ameaçava –aos olhos dos novos líderes da China e de acadêmicos estrangeiros, que previam uma bomba-relógio demográfica– mergulhar a China nas trevas. 

A precursora da política de filho único, "Mais Tarde, Mais Tempo e em Menor Número" ("Wan, Xi, Shao") reduziu pela metade o crescimento populacional nos setes anos desde 1969. Essa campanha encorajava as pessoas a se casarem mais tarde e darem mais espaço entre as gravidezes. Ela costuma ser defendida como uma alternativa menos brutal que teria funcionado caso tivesse tido tempo suficiente. 

Mas na realidade, táticas de força e coerção já estavam sendo empregadas. As mulheres com dois filhos eram pressionadas a abortar, mesmo em estágios mais avançados da gravidez. E apesar dessas medidas, o impacto da campanha estagnou em cerca de três filhos por mulher, em um exemplo de retorno cada vez menor. 

Em 1979, a população ainda crescia a uma taxa anual de 1,2%. Ainda cambaleando das políticas de Mao, os líderes da China não contavam com paciência –ou talvez coragem– para esperar. O país primeiro adotou um modelo voluntário de filho único. Houve sinais iniciais de sucesso, mas na China, os filhos são considerados uma rede de segurança, que devem cuidar de seus pais na velhice, e a sociedade se recusou a se curvar ainda mais. Assim, a política draconiana de filho único foi imposta (famílias rurais podiam ter com frequência dois filhos) por 35 anos. 

Hoje, um dos maiores problemas resultantes da política de filho único é o desequilíbrio de gênero na China –há cerca de 119 meninos nascidos para cada 100 meninas, em consequência da seleção de gênero. Esses números são alarmantes e demógrafos há muito preveem que o excesso de homens levará a crescente violência e instabilidade. Mas até o momento, há pouca evidência de aumento da criminalidade. 

Em "One Child", Fong olha para o fenômeno das "aldeias de solteiros", nas quais os homens têm dificuldade em encontrar esposas. Esses são casos de estudo favoritos dos jornalistas –mas falhos. Há desequilíbrios de gênero nas aldeias porque muitas mulheres jovens partem para trabalhar nas cidades grandes. O empoderamento das mulheres é o verdadeiro culpado, assim como está por trás de grande parte da narrativa do desequilíbrio de gênero. As mulheres com alta escolaridade nas cidades na verdade têm dificuldade em encontrar maridos. 

Atribuir o rápido envelhecimento da população e a diminuição da força de trabalho à política de filho único também é injusto. A meta das políticas de controle da natalidade é reduzir o crescimento populacional –de modo drástico e rápido. O sucesso em qualquer forma viria inevitavelmente ao custo de uma demografia equilibrada. Mas muitos observadores culpam a política por causar um declínio rápido demais, alegando simultaneamente que políticas alternativas teriam reduzido o crescimento populacional de modo mais eficaz. 

A pergunta mais relevante é por que a política persistiu por tanto tempo, diante das questões previsíveis. A liderança claramente não estava disposta a mexer em nada que pudesse colocar em risco o "crescimento milagroso" da China até recentemente. Em uma tentativa farsesca de relaxar o controle em 2013, o governo permitiu aos casais ter um segundo filho caso os dois fossem filhos únicos. Isso não foi arbitrário, mas na prática puniu os casais rurais pelas decisões tomadas por seus pais, que, ironicamente, provavelmente foram feitas com aprovação do Estado. 

Ainda permanecem restrições ao tamanho das famílias. Mas até o momento, um décimo do número previsto de famílias entrou com pedido para um segundo filho. No final, as restrições deverão ser totalmente removidas. 

No futuro, se tenho apenas um filho, meu filho não terá primos ou irmãos. A China não apenas precisa de mais crianças para o bem-estar da próxima geração, mas também é preciso que sejam devolvidas às mulheres as rédeas da reprodução. Apenas assim a família moderna chinesa começará a se reinventar. 

*(Yuan Ren é ex-editora da "Time Out Beijing" e agora é uma escritora baseada em Pequim.)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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