Desigualdade social equivale a menos prosperidade e tem potencial desastroso

A.C. Grayling

  • Ana Carolina Fernandes/Folhapress

    Morador de rua dorme sobre marquise em obras na praça Mauá, no Rio de Janeiro

    Morador de rua dorme sobre marquise em obras na praça Mauá, no Rio de Janeiro

Hoje existe um consenso --não uma crença ou uma hipótese nem uma posição política--, mas um consenso entre observadores informados de que o excesso de desigualdade social e econômica é um perigo para a sociedade. Há um outro consenso de que, enquanto um certo grau de desigualdade é desejável para incentivar o empreendedorismo, a ampla desigualdade não é um resultado inevitável dos processos econômicos, mas o resultado de uma opção consciente na política econômica.

Se ambos estiverem certos, segue-se que a ameaça à sociedade representada pelo excesso de desigualdade pode ser evitada por políticas públicas destinadas a reduzi-la. Então, a resposta para a pergunta "Podemos tornar a desigualdade menos perversa?" é, como alguém já disse, "Sim, podemos". É uma questão de vontade política.

Note que considerações de desigualdade não são a mesma coisa que considerações de pobreza. Seus perigos não surgem em uma sociedade em que todos são igualmente pobres, nem onde as disparidades de renda são relativamente modestas. Em uma sociedade em que os que têm menor renda não são pobres em termos absolutos, mas onde as disparidades são enormes, ainda surgem problemas de desigualdade. É a diferença, e não os índices máximo e mínimo, que causa o problema.

Escrevendo sobre desigualdade na "London Review of Books" no início deste ano, o ex-líder trabalhista britânico Ed Miliband citou conhecidos estudos do Fundo Monetário Internacional e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômicos que mostram que a desigualdade inibe o crescimento econômico. As explicações apresentadas diferem e têm a desvantagem de que, assim que começa a conversa sobre desigualdade, surge a teoria de que ela existe porque os que têm renda mais baixa são mal remunerados. Como disse antes, isto não precisa ser verdadeiro. Mas a fusão de desigualdade com pobreza significa que as soluções oferecidas --salários mínimos mais altos, maior redistribuição por meio de impostos e benefícios-- só abordam parte do problema.

Não é uma parte desconsiderável, é claro. Investir na oferta de oportunidades para todos por meio de bons serviços de saúde básica, educação e justiça, institucionalizar a mesma preocupação pelos direitos de todos nesses aspectos e garantir que a riqueza não possa se amplificar comprando-se isenções de uma contribuição proporcional ao bem geral falam por si mesmos. Mas há também um argumento ético, e é o que deveria ter maior peso.

Em sua análise da questão, "The Spirit Level" (O nível do espírito - 2009), Richard G. Wilkinson e Kate Pickett defenderam uma tese irretocável ao dizer que a desigualdade excessiva aumenta os níveis de desconfiança, ansiedade, doença e consumo excessivo. Eles tabularam os efeitos: em sociedades desiguais há mais problemas de abuso de drogas e saúde mental, maiores níveis de obesidade, maiores porcentagens da população em prisões e menos vida comunitária. Seria errado especificar a desigualdade como a única causa dessas coisas, mas, no mínimo, ela as exacerba muito.

É por isso que a consideração ética se impõe. Como é possível justificar, diante do que os membros de uma sociedade compartilham em termos de humanidade, que a distribuição do acesso aos bens e oportunidades sociais seja maciçamente inclinada a favor de uma minoria? Não é preciso haver um anseio utópico por igualdade nem um desejo de privar os talentosos e trabalhadores de suas recompensas, no desejo de se opor aos arranjos que ampliam enormemente os resultados para uma pequena minoria.

Nos últimos anos, metade da riqueza global passou às mãos do 1% mais rico da população mundial: existe um efeito sifão no funcionamento dos regimes de políticas que canaliza o dinheiro para poucos, e os outros 99% têm de dividir o restante de maneiras que não são mais equitativas, mesmo aí.

O efeito desestabilizador disto é uma consequência direta desse sentimento tão perigoso: um profundo sentido de injustiça. Os indivíduos podem sentir que estão em injusta desvantagem pela lacuna forçada entre eles e a distante minoria pela estrutura econômica que eles habitam, mas também sentirão o mesmo em nome da maioria de seus semelhantes. É aí que o ânimo coletivo, o ressentimento e o desligamento começam a exercer seu papel corrosivo, provocando inquietação.

O dinheiro é um meio para se ter experiências, oportunidades e muito mais, e é por isso que qualquer pessoa racional o deseja. Quando as coisas são arranjadas de modo que uma válvula dirige a maior parte dele para uma pequena minoria, esse sentido de injustiça levanta sua crista. Os níveis de fragmentação e inquietação social aumentam com o crescimento da brecha de renda e se reduzem com sua diminuição: essa é a lição da história econômica.

Os problemas identificados pelos autores de "The Spirit Level" são custosos, um motivo pelo qual menos desigualdade significa maior prosperidade, sem dúvida, mas se o custo econômico é ruim, o atrito do sentimento humano é pior. Desigualdade significa insatisfação: é infeliz em todos os sentidos da palavra; e isto perturba o equilíbrio social, com um potencial desastroso.

(A.C. Grayling é filósofo e professor no New College of Humanities, em Londres, Inglaterra.)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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