Rússia tenta se livrar do vício em cigarro com verba americana

Anna Blundy

  • Maxim Shemetov/Reuters

Lá está você em um ponto de ônibus em Moscou, arrastando os pés na lama de neve derretida e pensando em fumar um cigarro para passar o tempo. Surpreendentemente, como temos a tendência de pensar nos russos como tendo uma dose de vodca em uma mão e um cigarro na outra, concretizar aquela ideia provará ser um tanto difícil.

Na Rússia, agora só é possível fumar em áreas ao ar livre designadas e cigarros não são mais vendidos nas bancas de jornais. Não há mais propaganda deles e nem mais são expostos publicamente no número cada vez menor de locais que ainda os vendem, assim como os alertas à saúde nos maços são grandes e fortes. Um maço de Marlboro Reds agora custa 110 rublos (cerca de R$ 5,70), um valor pequeno para os padrões do Ocidente, mas um aumento acentuado de 20% no ano passado sobre os cigarros importados.

Assim, você se pergunta se deve contribuir para os números de redução do fumo da Rússia (que, se forem confiáveis, mostram que o número de russos fumantes caiu 17% ao longo do ano passado, apesar de 43% da população ainda fumar) quando, de repente, a decisão é tomada para você. Você olha para o cartaz no ponto de ônibus e lá está uma lúgubre propaganda antifumo do Ministério da Saúde russo (um recente cartaz em Moscou do presidente Barack Obama, com a slogan de que fumar mata mais pessoas do que ele, parece ter sido uma brincadeira). Determinada a se livrar do imundo vício americano e seguir em frente como uma cidadã com saúde e capaz de montar a cavalo da gloriosa Rússia de Vladimir Putin, você toma o ônibus.

Pelo menos essa é a ideia.

O senador Sergei Kalashnikov, ex-integrante do Comitê de Saúde da Duma (a Câmara Baixa do Parlamento russo), insiste, em uma voz que sugere que ele deve ter fumado um bocado ao longo dos anos: "A propaganda antifumo está funcionando. Os russos estão começando a entender que fumar não é civilizado". Ele pode ter razão. Pesquisas mostram que há um cumprimento de 90% e aprovação de 80% das novas leis, que foram adotadas em 2013-2014 e seguem rigidamente as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Isso em um país que fuma entusiasticamente desde o século 16. De acordo com a história, em 1533 um navio mercante inglês foi pego em uma tempestade e forçado a ancorar além da costa da Moscóvia de Ivã, o Terrível. O navio transportava tabaco, que os russos tomaram imediatamente. É verdade que o czar Nicolau 1º tentou posteriormente uma proibição como a de Putin nas ruas, praças e espaços públicos, mas seu filho, Alexandre 2º, rapidamente a suspendeu quando chegou ao poder em 1855. Lênin fez uma breve tentativa de restrições, mas foi dissuadido por profissionais de saúde.

Os russos soviéticos fumavam seus cigarros de embalagens e marcas belas (os atraentes maços de Belamorkanal e Kosmos são agora considerados clássicos de design) como se não houvesse amanhã (e para muitos russos realmente não havia). As rações do Exército incluíam cigarros até recentemente e a primeira legislação antifumo soviética só entrou em vigor no final dos anos 80, apresentada como uma preocupação de saúde, mas na verdade alimentada pela escassez de tabaco e condenada ao fracasso. Havia filas, brigas e um imenso mercado negro que vendia até mesmo bitucas descartadas. No início dos anos 90, o tabaco russo foi substituído pelas multinacionais de tabaco e a escassez chegou ao fim.

É o fato de o setor de tabaco na Rússia ser 95% estrangeiro que torna o fumo um alvo relativamente fácil para Putin. A campanha antifumo não foi o tipo de exercício colossal de relações públicas que teria sido no Ocidente. Ela é mais simples, até porque o primeiro-ministro Dmitri Medvedev a apoia pessoalmente. Os autores da legislação antifumo reconhecem que se a presidência concorda, a lei é aprovada. "Mas se Putin a apoiasse", explica Anton Nossik, um blogueiro político, "então os fumantes seriam linchados nas ruas".

Apesar de ser verdadeiro que os produtores de tabaco são estrangeiros (Japan Tobacco International, Philip Morris International, British American Tobacco e Imperial Tobacco controlam juntos 90% do mercado russo de cigarros de US$ 16 bilhões), eles geram uma receita imensa para o Ministério das Finanças russo. Um relatório da OMS sugere que se a Rússia elevasse seu imposto para 70% do preço de varejo, como recomendado e planejado, a receita tributária aumentaria em mais de 300%.

Mas nos últimos nove meses de 2015, o mercado de tabaco caiu 5,7% e a Japan Tobacco pretende fechar sua fábrica em Moscou neste ano, devido a uma "retração séria" das vendas. A empresa também começou a limitar seu portfólio de marcas. A Japan Tobacco fundiu as marcas Nasha Prima e Magna com a More, e a Wings com a LD.

Assim, apesar dos sucessos, a proposta da campanha antifumo ser uma ideia russa de viver com saúde é quase tão absurda quanto soa. Ela é americana tanto em conceito quanto em financiamento. Mas com o azedamento das relações com o Ocidente, os comitês estabelecidos sob um acordo fechado entre Obama e Medvedev, o então presidente russo em 2009, mudaram de nome e estrutura para escapar do radar anti-Ocidente e, apesar das consultas prosseguirem, se tornaram mais ou menos invisíveis ("pisando em ovos" e "caminhando no fio da navalha" são frases muito usadas).

Independente do que Putin queira que pensemos, o movimento antifumo ainda é altamente financiado pela fundação de caridade do bilionário e ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, entre outros, com aprovação do Ministério da Saúde russo. Um americano que combate o fumo na Rússia me disse: "O Ministério da Saúde é uma marca na qual as pessoas confiam". "Eles estão muito empenhados em isto ser visto como uma iniciativa doméstica. O Ministério da Saúde vê isto como uma de suas realizações mais importantes, que melhora seu perfil dentro do governo e no exterior. O governo se tornou um modelo nesta área, com delegações vindo da China para copiar a estratégia." De fato, Gurbanguly Berdymukhamedov, o presidente do Turcomenistão, proibiu completamente o tabaco em janeiro.

Bloomberg pode estar financiando, mas há a sensação de que "Putin entende". Os homens russos morrem em média 12 anos mais cedo do que seus pares do Ocidente. Outra fonte americana anônima me disse: "O Estado-Maior está apavorado com o descarrilamento demográfico da Rússia. Não há soldados suficientes e nem haverá soldados suficientes. O número de homens com 18 anos é metade do que era há 20 anos e não há mulheres jovens suficientes para gerar mais deles. Esse motivo por si só já torna melhorar a saúde da nação uma questão real".

Mas os meios são de tom estranhamente soviético. As pessoas são encorajadas a denunciar donos de cafés e restaurantes que burlam as novas leis por meio de uma linha telefônica dedicada e você pode ser selecionado e autorizado a se tornar um informante, à procura de fumantes ladinos em locais não autorizados. Impressionantes 60 milhões de pessoas infringiram a lei no ano passado, rendendo ao governo 100 milhões de rublos em multas, segundo Andrei Loskutov da União Russa do Charuto, que é diretor-executivo do Movimento de Direitos dos Fumantes da Rússia.

Loskutov explicou: "Esta coisa antifumo é um pequeno presente de vocês do Ocidente. Muito obrigado. Agora 40 milhões de russos cumpridores da lei, que pagam seus impostos e que desejam fumar se tornaram criminosos. O argumento de que os cigarros são produzidos por empresas ocidentais é ridículo a esta altura. Você acha que o fumante preferiria que seu cigarro fosse russo? O governo precisa de um psiquiatra; ele está taxando os fumantes e gastando esse dinheiro para fazê-los parar de fumar! Na União Soviética, o governo usava seu dinheiro para trabalho real: moradias, ferrovias, foguetes espaciais. A campanha antifumo é uma forma de as pessoas ganharem dinheiro com fundos americanos. De qualquer forma, nos 30 anos desde que a campanha internacional antifumo teve início, 15 pessoas por minuto passam a fumar. As pessoas querem fumar".

As pessoas podem querer fumar, mas com impostos mais altos e restrições ainda mais severas prontas para ser adotadas, Putin e seus aliados improváveis estão determinados a impedi-las.

*Anna Blundy é uma escritora que está estudando para ser psicoterapeuta

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos