Trump é o intruso e líder não amado dos republicanos

Sam Tanenhaus

  • Jewel Samad/AFP

Será que Donald Trump pode ser detido, não em novembro, mas antes, ao lhe ser negada a indicação por oponentes dentro de seu próprio partido? A ideia parecia delirante no início de junho, após Trump conquistar 75% dos votos na primária da Califórnia. Mas seus detratores não desapareceram. Seus rivais derrotados, Ted Cruz, John Kasich e Jeb Bush, ainda não lhe deram seu apoio, e os líderes do partido em Washington, incluindo o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, continuam deixando implícito, ou deixando outros pensarem, que Trump é inadequado para servir.

"O que é isso?" rosnou Trump em sua melhor imitação de outro nova-iorquino, o ex-astro do tênis John McEnroe, depois que o presidente da Câmara, Paul Ryan, o líder nacional republicano, indicou que Trump precisava revisar seus "princípios e ideias republicanos". O virtual candidato tinha razão. Ryan, que fracassou como companheiro de chapa de Mitt Romney em 2012, agora estava dando ordens a um herói popular que empolgou as bases em todas as regiões do país, vencendo em 37 dos 50 Estados.

Mas isso foi antes de Trump dar início a uma farra de dois meses de trumpismos "vou dizer o que bem entendo". Primeiro veio sua especulação de que o ilustre juiz federal que está ouvindo o processo impetrado contra a Universidade Trump era tendencioso, por sua ancestralidade mexicana. A acusação foi "a coisa mais antiamericana dita por um político desde Joe McCarthy", disse o senador Lindsey Graham, que retirou seu apoio a Trump e disse que outros deveriam fazer o mesmo. Em seguida veio a reação de extremo mau gosto de Trump ao horrível assassinato em massa em uma boate gay em Orlando, Flórida. Enquanto a nação lamentava (49 mortos e 53 feridos, o pior assassinato em massa na história americana), Trump aplaudia a si mesmo pelo Twitter. "Agradeço as parabenizações por estar certo a respeito do terrorismo radical islâmico." E então, na manhã seguinte à votação pela 'Brexit' (a saída do Reino Unido da União Europeia), enquanto grande parte do Ocidente ainda cambaleava, Trump comentou alegremente que a libra desvalorizada seria ótima para os negócios de seu novo resort de golfe Trump Turnberry, uma observação feita enquanto ele inspecionava as reformas no campo, com seu boné "Torne a América Grande de Novo" cobrindo seus olhos.

Talvez não haja gafes reais no mundo Trump, já que ultrajes verbais são sua moeda natural. Mas por trás desse falar sem pensar está o alto estrondo de uma campanha mal administrada. O tesouro de campanha de Trump está quase vazio (ele junho, ele dispunha de US$ 1,3 milhão em mãos, em comparação a US$ 43 milhões de Hillary Clinton); e sua equipe é ridiculamente pequena (70 funcionários em comparação a 730 de Hillary).

Tudo isso deixa os democratas exultantes e os republicanos em pânico. Estes podem sofrer sua pior derrota desde a surra tomada por Barry Goldwater em 1964, uma derrota não apenas de Trump, mas dos republicanos no Congresso. Naquela ocasião, os democratas obtiveram uma forte maioria e espaço para erguer os andaimes da Grande Sociedade, rica em benefícios, que presidentes republicanos desde Ronald Reagan tentaram derrubar, sem sucesso.

Essa história está impulsionando o esforço repentinamente ressuscitado "Trump jamais". Cerca de 1.000 republicanos participaram de uma teleconferência para planejar um levante de delegados em Cleveland, onde o Partido Republicano realizará sua convenção nacional em meados de julho. As chances de sucesso são pequenas, assim como eram para os Cavaliers, o time de basquete profissional de Cleveland liderado pelo heróico LeBron James. Em meados de junho, os Cavaliers conquistaram um dos resultados mais improváveis e empolgantes na história dos esportes americanos, ao reverterem o resultado de 3 derrotas contra 1 vitória nos sete jogos das finais da NBA (a liga de basquete profissional americana) e superando os detentores do título, os Golden State Warriors. Foi a primeira vez que uma equipe superou tamanha desvantagem nas finais.

Mas o Partido Republicano não tem um LeBron. O fato inescapável da campanha de 2016 é que o despreparado e ideologicamente suspeito Trump esmagou os nomes mais importantes dos republicanos. "O campo republicano deste ano é o mais impressionante desde 1980, talvez o mais rico em talentos desde que o partido escolheu seu primeiro candidato presidencial, em 1856", escreveu o respeitado colunista George Will há um ano, quando Trump mais parecia um provocador do que um candidato sério.

Will, assim como muitos outros, foi cativado pela promessa de Marco Rubio e Cruz, ignorando a força do apelo de Trump junto aos americanos brancos de classe média e operária, que ainda sentiam as dores da Grande Recessão e da marcha da globalização. A promessa de Trump refazer a América à imagem dos que ficaram para trás superou a conversa ideologicamente rançosa recitada por Rubio e Cruz, mais parecendo competidores ansiosos de um debate universitário.

A convenção é um espetáculo de quatro dias, o tipo de evento no qual Trump, entediado pela rotina de campanha, se empenhará totalmente. Como explicou um membro de sua equipe em maio: "Trata-se de uma enorme produção de televisão, e ele é um astro de televisão". De novo, as forças que estão se mobilizando contra ele podem ser sobrepujadas, e isso diz muito sobre o Partido Republicano, assim como sobre o intruso que agora é seu líder.

*Sam Tanenhaus é um escritor americano. Seu próximo livro será uma biografia de William F. Buckley Jr.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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