Turquia cria "cemitério de traidores" para soldados que tentaram golpe de Estado

Alev Scott*

UOL

  • Ozan Kose/ AFP

    Homem diante da placa "Cemitério dos Traidores", escrito em turco e de covas sem identificação, em Istambul

    Homem diante da placa "Cemitério dos Traidores", escrito em turco e de covas sem identificação, em Istambul

No subúrbio de Istambul, talhada na terra dura de um cemitério recém-construído, há uma cova solitária sem identificação. O Cemitério dos Traidores foi preparado especialmente para receber soldados turcos que morreram no golpe fracassado de 15 de julho, e a cova pertence a um major que atirou contra um civil desarmado antes de se matar. Sua família se recusou a aceitar seu corpo, então ele foi levado para lá, onde, de acordo com o prefeito de Istambul Kadir Topbas, "aqueles que passarem vão rogar pragas".

O corpo religioso da Turquia, a Diyanet, se recusou a conceder aos soldados que participaram da tentativa de golpe o serviço fúnebre estatal que geralmente se oferece aos cidadãos turcos. "Esses soldados, com a ação que empreenderam, desrespeitaram não somente indivíduos, mas também a lei de toda uma nação, e portanto não merecem uma exoneração dos fiéis."

Os civis que morreram resistindo ao golpe, por outro lado, foram imortalizados. A Ponte de Bósforo, onde soldados atiraram contra civis desarmados e mais tarde tiveram que se render, foi rebatizada de "Ponte dos Mártires do 15 de Julho", juntamente com a nova "Praça 15 de Julho" de Ancara (anteriormente Praça Kizilay). Durante as homenagens na Praça Taksim, em Istambul, imagens dos civis mortos na resistência foram projetadas em grandes telões, e seus nomes e rostos foram estampados nos vagões do metrô de Istambul.

Existe algo de antigo, quase elementar, a respeito dessa humilhação polarizada e dessa reverência pelas vítimas da guerra civil, que foi o que efetivamente aconteceu -- brevemente -- na noite de 15 de julho. Um paralelo clássico em especial se destaca: na tragédia "Antígona" de Sófocles, Polinices lidera um exército para desafiar seu irmão mais velho, Etéocles, pelo trono de Tebas. Os dois irmãos matam um ao outro e o novo rei, Creonte, julga seus corpos de uma maneira quase idêntica à da república moderna turca. O irmão que morreu pelo Estado é "coroado com todos os rituais que se seguem à morte dos mais nobres'. Quanto a seu irmão rebelde, 'ninguém deve honrá-lo com um enterro ou elegias."

Nunca saberemos quais dos soldados que morreram no dia 15 de julho foram coagidos por seus superiores, ou mesmo quais estavam cientes do que estavam participando. Na noite do golpe, falei com um recruta adolescente na Praça Taksim que não fazia ideia do porquê estava lá. Os sobreviventes agora alegam inocência nos tribunais, e em muitos deles não acreditarão. Enquanto isso, o presidente Recep Tayyip Erdogan tem dado seu apoio a inúmeros apelos pela reintrodução da pena de morte para aqueles culpados de tramar a tentativa de golpe.

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Um país que evitou por pouco um golpe deveria sentir alívio e orgulho. Os turcos que morreram enfrentando tanques e tiros merecem ser homenageados e lamentados. Mas o outro lado, com a humilhação pública no Cemitério dos Traidores, é profundamente perturbador. Qualquer um na Turquia que expresse qualquer simpatia pelos soldados é tachado de simpatizante do golpe, traidor e assassino. Sei disso por experiência pessoal. No clima desesperado e movido a adrenalina da Turquia de hoje, a moralidade pública não tem nuances. Ou você apoia o Estado, ou você é traidor. Você não pode lamentar civis e soldados ao mesmo tempo.

No islamismo, os ritos funerários têm muita importância, mas oferecer um enterro digno é uma questão de direitos humanos básicos. Agora temos um Estado insanamente temerário se impondo sobre um assunto privado dos mais íntimos: a conclusão da vida de um indivíduo.

Alguns dias após a criação do cemitério, Topbas anunciou que removeria sua placa, depois que sugeriram que ela poderia aborrecer as famílias dos soldados mortos. Mas o Cemitério dos Traidores continua lá, um foco de desprezo nacional por aqueles que participaram do golpe.

"Antígona" é uma peça sobre os domínios do público e do privado, sobre as leis dos homens e dos deuses, e sobre os perigos de uma vingança decretada pelo Estado. Seus temas são tão relevantes hoje quanto eram 2.500 anos atrás, e suas lições são válidas. No entanto, mais uma vez elas não serão seguidas.

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* Alev Scott é escritor e mora em Istambul

 

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