Nacionalismo escocês atinge o pico, mas não é suficiente para um novo referendo

Alex Renton*

  • Niklas Halle'n/AFP Photo

No muro de uma velha linha ferroviária, atualmente uma ciclovia, perto de minha casa em Leith, Escócia, alguém pichou "SNLA" em tinta amarelo-pálida. A sigla (em inglês) é do Exército Nacional de Libertação da Escócia, uma pequena organização que ganhou as manchetes nos anos 90, quando vários homens do SNLA foram presos por pequenos e incompetentes atos de terrorismo. Sua ação mais recente registrada foi em 2002, quando um adolescente enviou um frasco de desentupidor líquido rotulado como "Óleo de Massagem de Aromaterapia" para Cherie Blair, a mulher do então primeiro-ministro britânico, Tony Blair.

A pichação é velha, morta e enterrada (tomara!), assim como a noção de que a violência possa libertar a Escócia. Mas que ferramenta poderia fazer esse trabalho? Hoje, o Partido Nacional Escocês, ou SNP (na sigla em inglês), é o partido político mais bem-sucedido no Reino Unido em termos tanto de popularidade quanto de longevidade no poder. Mas está mais difícil do que nunca ver como ele poderia obter a independência da nação que sua marca promete.

O nacionalismo atingiu o pico. Mesmo no amargo pós-votação pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), na qual a Escócia votou em 62% pela permanência, os escoceses não estão mais abertos à ideia da independência, mesmo uma dentro da União Europeia. A primeira-ministra Nicola Sturgeon reagiu resolutamente, apresentando a ideia da Escócia negociando seu próprio acordo com a UE, como parte ou não do Reino Unido. Mas em agosto, as pesquisas mostravam que entre 47% e 52% dos escoceses defendem a independência, pouco mais do que os 45% que votaram por deixar o Reino Unido no referendo de 2014. Sturgeon tem dito de forma consistente que não há sentido em realizar um referendo sem pelo menos 60% dos eleitores apoiando a independência.

Isso não quer dizer que os escoceses não sejam fortemente pró-UE: eu conversei com arrendatários das Hébridas e proprietários de Perthshire que estão tão horrorizados com a perspectiva de serem isolados da Europa quanto as pessoas sofisticadas de Edimburgo, apesar de que por motivos diferentes. Nós não tememos a imigração (ela pouco ocorre aqui) e, após a votação da Brexit, estamos mais enojados de Westminster do que nunca: apenas não vemos como a independência nos apresenta à UE de alguma forma atraente. Nem o governo, com as abordagens de Sturgeon aos líderes europeus, em julho, sendo rejeitadas. "Grécia sem sol" é como um centro de pesquisas econômicas conservador retratou nossas perspectivas na Europa sem o Reino Unido. Esse tipo de linguagem enfurece os escoceses.

Há inúmeras formas de as negociações de divórcio se desenrolarem, mas o Brexit não é um motor garantido de nacionalismo escocês. Mike Small, editor da revista online não alinhada e influente "Bella Caledonia", me disse que "a independência agora está fora do alcance do SNP sozinho, outros terão que se erguer. Mas motivadores além do nacionalismo básico estão surgindo: o desejo das pessoas por representação real, por social-democracia, por internacionalismo, por novos modelos econômicos. Há muitos que não querem fazer parte de um país no qual Boris Johnson é o ministro das Relações Exteriores, ou no qual Priti Patel está administrando a ajuda para desenvolvimento internacional".

Esses são os novos nacionalistas suaves da Escócia. São esquerdistas xenófilos, refugiados dos partidos Trabalhista e Liberal: pessoas para as quais a palavra "nacionalista" é desconfortável. Eles não gostam de Westminster e do governo da primeira-ministra britânica Theresa May, mas não querem cercas de arame farpado ao longo do rio Tweed. É este público mutável que votou pela manutenção do SNP no poder em maio, e pela permanência na Europa em junho. Mas o SNP não tem poder real sobre ele.

Nós enfrentamos uma recessão potencial muito mais profunda que a da Inglaterra, alimentada por cortes nos gastos públicos que o SNP até o momento evitou, juntamente com um setor de serviços financeiros cada vez mais fraco e uma perda catastrófica de empregos no setor de petróleo. Os 15 bilhões de libras (cerca de R$ 64 bilhões) de déficit orçamentário e o preço baixo do petróleo parecem obstáculos intransponíveis. As esperanças do SNP de que, após a votação da Brexit, as instituições financeiras de Londres se mudariam para o norte, formando uma espécie de Luxemburgo escocesa, fracassaram e ultrajaram a esquerda do partido.

Dificilmente passa uma semana sem outro insulto percebido ou promessa não cumprida de Whitehall. No final de julho, ficou claro que as novas fragatas da Marinha "prometidas" aos estaleiros no rio Clyde durante o referendo da independência não se concretizariam. Mas, para obter a independência em um futuro previsível, a Escócia precisará formular uma versão mais ampla do nacionalismo, uma que remodele suas crenças além de queixas e do ego nacional. Isso será conseguido não com bombas de aromaterapia, mas com uma poderosa nova poção mágica. Está claro que o velho partido nacionalista não é capaz disso. Mas com mulheres radicais, céticas em relação a Westminster, liderando tanto o Partido Conservador quanto o Trabalhista na Escócia, somadas a um vibrante Partido Verde, o SNP talvez não esteja tão sozinho.

*Alex Renton é jornalista e escritor

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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