Por que Gary Johnson e os libertários estão ganhando espaço nas eleições dos EUA?

Sam Tanenhaus*

  • John Raoux/Associated Press

As estatísticas mais reveladoras na eleição presidencial de 2016 são as que mostram quão intensamente Hillary Clinton e Donald Trump são rejeitados. Opostos em quase todos os sentidos, eles se encontram no precipício do desprezo público e agora parecem algemados um ao outro na queda para o abismo.

"Notas de imagem historicamente ruins" foram relatadas pelo Gallup em julho: Hillary teve uma nota "altamente desfavorável" de 33% dos entrevistados, e Trump de 42%. Dois meses depois, "The Washington Post" situou a nota desfavorável de Hillary em 56% --algo impensavelmente baixo para um candidato em tempos normais, mas ainda melhor que os 63% de Trump.

"A lógica e os sermões nunca convencem", escreveu Walt Whitman muito tempo atrás. Mas a aritmética instiga jovens mentes perspicazes, apaixonadas por dados. "Quase três quartos da geração do milênio gostariam que um candidato de um terceiro partido ganhasse o cargo", escreveu a adolescente Eliza Jane Schaeffer, que se prepara para dar seu primeiro voto presidencial, no "Louisville Courier-Journal", do Kentucky. Mais de 1 em cada 5 "milenares", acrescentou ela, já haviam decidido.

A opção deles? Gary Johnson, um ex-governador republicano do Novo México, que está disputando pelo Partido Libertário. Na primeira vez em que Johnson concorreu à Presidência, em 2012, ele teve menos de 1%. Agora está com mais de 10% nas pesquisas, ao alcance dos 15% de que precisa para se qualificar para o primeiro debate presidencial, que dezenas de milhões de pessoas vão assistir.

Quando Johnson e seu impressionante colega de chapa, William Weld, também um popular ex-governador, fizeram uma reunião aberta em julho, 1 milhão de pessoas assistiram pela C-SPAN, o canal de TV público.

Por que o interesse, e o salto nas pesquisas? Não é tanto a atração pessoal de Johnson ou de Weld, ambos fracos em carisma. É a substância. Schaeffer, que está no primeiro ano do Dartmouth College, explica: "Enquanto Donald Trump luta para recriar a era Reagan e Hillary Clinton invoca o velho New Deal, Gary Johnson vê uma América autossuficiente, futurista e totalmente diferente de qualquer coisa prometida pela retórica política das últimas décadas".

São temas libertários clássicos, que começam com a desconfiança do governo "Big Brother" e uma preferência pelo voluntarismo. Esquecemos, embora não devêssemos, que o "1984" de Orwell era menos profecia que sátira: a semana do ódio, o buraco da memória e Newspeak definiam a mensagem silenciosa do conformismo no bem intencionado Estado do bem-estar social. Quando essa temível abstração, "o povo", governa, é a pessoa aleatória que paga o preço.

Gary Johnson comete gafe durante entrevista

A mensagem ganhou atualidade na era digital, especialmente para a geração do milênio. Criados em um clima de "transparência" da mídia social, eles sentiram seus custos ocultos: provocações, humilhação e justiça das massas. O "movimento da liberdade" oferece uma alternativa, com sua ênfase na liberdade de impostos, das guerras, da "coleta de dados" pelo governo, de toda forma de intromissão.

A mensagem também agrada igualmente à esquerda e à direita, e é o que pretende. Fundado em 1971, o Partido Libertário surgiu da oposição à Guerra do Vietnã e ao recrutamento forçado. Seus adeptos mais coloridos (como o jornalista e redator de discursos Karl Hess) eram "maconheiros republicanos" --com colares e barbas, mas fanaticamente pró-mercado, "anarcocapitalistas", em uma interpretação.

Durante muito anos o líder do movimento foi o antigo deputado republicano (hoje aposentado) Ron Paul, que concorreu a presidente pela chapa libertária em 1988 e depois disputou a nomeação republicana em 2008. Sua plataforma pedia o fim da guerra do Iraque, enquanto também obedecia aos ditames do livre mercado da escola de economia austríaca.

Ele foi impiedosamente ridicularizado por outros republicanos, especialmente o belicoso John McCain. Paul sorriu diante das agressões e concorreu uma terceira vez em 2012, desta vez surgindo como uma espécie de sábio idoso e familiar --um Bernie Sanders ao avesso.

Enquanto isso, o filho de Paul, Rand, um oftalmologista do Kentucky, foi eleito para o Senado em 2010 e por algum tempo se tornou o republicano mais interessante em Washington. Eu o entrevistei em 2013, e ele falou de uma nova coalizão esquerda-direita sobre questões sociais, como reduzir as sentenças por drogas que punem desproporcionalmente os infratores negros.

Na época parecia que Rand --que insiste que não recebeu esse nome por causa de Ayn Rand-- poderia montar uma campanha forte no início das primárias. Mas como todos os outros ele não viu Trump se aproximar. E foi uma das primeiras baixas.

Mas o libertarismo persiste. Algumas características da doutrina "paulita" --o ódio ao "Estado vigilante", a oposição aos gastos militares-- se infiltraram na ideologia republicana da corrente dominante, deslocando o "conservadorismo do grande governo" no estilo George W. Bush.

Hoje toda a confusão pegajosa do dogma da era Bush --política fiscal pelo lado da oferta, ajudas lucrativas para a classe média, aventureirismo militar e o malfadado "projeto" de democracia no Oriente Médio, tudo embalado em pregações evangélicas-- só sobrevive na câmara de eco cada vez menor da imprensa conservadora, que hoje poucos leem (se é que um dia leram).

De uma maneira limitada, o trumpismo reflete essa mudança. Mas Johnson apresenta uma versão mais saudável e coerente. Ele e Weld prometem um retorno ao republicanismo pré-Bush, tocado por realismo e com um reconhecimento de que o idioma ruidoso do "excepcionalismo americano" se tornou insuportável. Ao mesmo tempo, Johnson reconhece que a Coreia do Norte representa uma ameaça à segurança (e propôs uma aliança estratégica com a China para solucionar isso).

Deixando de lado o rótulo libertário, Johnson é mais consciente que Trump --exceto quando pressionado a falar sobre armas; ele ficou carrancudo e estridente sob um questionamento delicado de David Remnick, de "The New Yorker"-- e muito mais realizado.

E não foram só os milenares que notaram. Algumas autoridades republicanas também, incluindo Mitt Romney, o nomeado pelo partido em 2012, depois renascido como seu estadista mais velho, à falta de opção melhor. Ele elogiou a alternativa libertária e disse que poderia até apoiá-la, embora deseje que os lugares fossem trocados, já que ele sente uma espécie de ligação maçônica com Weld, que, como ele, governou Massachusetts como um pragmático.

Delegados são quem elege presidente dos EUA; entenda o processo

  •  

Romney é um quadrado no estilo anos 1950 --nenhum herói para os milenares. Johnson, entretanto, é um herdeiro do libertarismo maconheiro de uma época anterior. Ele não se desculpa por seu tempo de chapado, quando fumava duas ou três vezes por dia.

Hoje defende a legalização --como 54% dos americanos, segundo uma pesquisa divulgada em junho; só 10% são contra o uso da "maconha medicinal". Johnson e Weld também são a favor do direito ao aborto e apoiam o casamento homossexual --assim como a maioria dos milenares e muitos americanos mais velhos.

Não muito tempo atrás, o grupo de pesquisas de esquerda Public Policy Polling ofereceu aos eleitores uma série de opções presidenciais: "43% escolheram Hillary, 39% Trump e 13% o Meteoro Gigante que atinge a Terra", segundo "The Hill", uma publicação respeitada de Washington; 7% estavam indecisos.

Por enquanto Johnson parece ser o meteoro, mas se ele causar um impacto nos indecisos poderá se ver no palco em setembro. E depois --para citar Ryan Lizza, da "New Yorker"-- "a mais imprevisível eleição nos tempos modernos poderá ficar ainda mais estranha".

*Sam Tanenhaus é um escritor americano. Seu próximo livro será uma biografia de William F. Buckley Jr.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos