Opinião: Existem alguns populistas que merecem ser ouvidos

Bill Emmott*

  • Andreas Solaro/ AFP

Foi aceso o longo e lento pavio da bomba-relógio da Itália. A derrota esmagadora das propostas de reforma constitucional do primeiro-ministro Matteo Renzi no referendo nacional do dia 4 de dezembro deixou o país inteiro —na verdade a Europa inteira— imaginando se o Movimento 5 Estrelas, contra o euro, assumirá em breve o poder em nível nacional.

O movimento, que é um partido político baseado na internet e liderado fora do Parlamento pelo comediante Beppe Grillo, costuma ser descrito como populista, mas é diferente da Frente Nacional da França, do Partido da Independência do Reino Unido ou mesmo do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Enquanto esses são apoiados principalmente por eleitores mais velhos, sem ensino superior e muitas vezes da classe trabalhadora, a base do 5 Estrelas é jovem, universitária e profissional.

Esse era exatamente o grupo que Renzi tentava atrair quando aterrissou de repente no palco nacional da política em 2013, quando decidiu correr de sua base como prefeito de Florença e concorrer primeiro à liderança do Partido Democrático e depois ao cargo de primeiro-ministro, após a eleição geral inconclusiva de fevereiro daquele ano.

Ele ganhou seu prêmio em fevereiro de 2014 através de um golpe em seu partido de centro-esquerda pelo qual ele derrubou seu colega, o primeiro-ministro na época, Enrico Letta. Ele fez isso em grande parte com base em dois argumentos: de que ele poderia oferecer uma reforma radical para o país, por seu apelido auto-atribuído de "il rottamatore", ou "o demolidor"; e de que, aos 38 anos de idade, como o mais jovem primeiro-ministro desde a unificação em 1861, ele poderia simbolizar a mudança e atrair profissionais jovens e de nível universitário como ele.

Então ele se apresentou como o rebelde transformador da Itália. O problema é que ele não conseguiu trazer mudança nenhuma, pelo menos não do tipo que os italianos conseguissem sentir em suas vidas e suas rendas. A economia mal cresceu durante seus quase três anos no cargo. O desemprego está estagnado em 11,7% da população ativa. Jovens ambiciosos ainda estão saindo do país para encontrar oportunidades. O sistema judiciário continua sendo uma desgraça nacional.

As reformas que ele efetuou —para as escolas, para contratos trabalhistas, algumas pequenas mudanças na tributação— só produzirão resultados visíveis após um tempo. Enquanto isso, ele cometeu dois erros enormes: evitou convocar uma eleição geral quando era popular em 2014, então teve de governar através de uma coalizão com pequenos partidos de centro; e usou a maior parte de seu capital político para forçar a aprovação de reformas constitucionais com o objetivo de tornar um futuro governo mais eficaz —um governo que ele pretendia liderar.

Foi sua segunda aposta que fracassou tão retumbantemente no dia 4 de dezembro. Seus planos envolviam acabar com o duplicativo bicameralismo do parlamento da Itália —cortando os poderes do Senado e substituindo as eleições para a câmara alta por nomeações feitas por assembleias regionais— abolindo governos provinciais, e centralizando os poderes sobre os grandes projetos de infraestrutura. Tudo isso agora acabou.

A tarefa mais premente é reformar a lei eleitoral que Renzi trouxe de volta em 2015 para a câmara baixa, a Câmara dos Deputados. Ela ainda está em vigor, mas não vai resistir politicamente, já que foi parte de um pacote com a reforma do agora suspenso Senado. Ela veio do mesmo impulso de "deixa o governo governar" que os eleitores acabaram de rejeitar, e caso executada veria um único conjunto de eleições produzir resultados muito diferentes nas duas câmaras. Mas as eleições precisam acontecer no máximo antes de maio de 2018, e nenhum dos principais partidos quer que elas sejam realizadas até que haja um acordo de reforma eleitoral. Por quê? Para estorvar o Movimento 5 Estrelas. Essa lei eleitoral de 2015 foi projetada para permitir um governo de partido único no estilo britânico, entregando cadeiras extras ao partido que lidere após dois turnos de votação, para lhe garantir uma maioria absoluta.

Leis eleitorais anteriores basicamente encorajavam ou necessitavam da formação de coalizões, fosse antes das eleições ou depois. O Partido Democrático, seus atuais aliados centristas e o Forza Italia de Silvio Berlusconi, de centro-direita, agora querem voltar para esse tipo de sistema. O raciocínio deles é simples: o 5 Estrelas terá muito mais dificuldades do que eles para formar coalizões.

Na verdade, o 5 Estrelas evitou coalizões no passado, por princípio, e por enquanto ele não tem parceiros naturais. Essa é a consequência natural de se concorrer com uma postura de praga contra todos os partidos políticos existentes —ou, como no excêntrico slogan de Grillo, "Vaffanculo!", que basicamente quer dizer "vão todos se f.!"

Então uma nova lei eleitoral provavelmente será negociada por um governo temporário, um processo que poderia tomar boa parte do próximo ano. Enquanto isso, a economia da Itália permanecerá estagnada e sem melhoras, seu sistema bancário continuará instável, sobrecarregado como está com empréstimos ineficientes que ficam maiores à medida que a economia demora para crescer. Qualquer esperança de uma reforma substancial terá de esperar até novas eleições.

Porém, nem a política, nem a revolta popular ficarão paradas enquanto isso acontece. O Movimento 5 Estrelas ganhará nova energia e novos partidários como resultado da derrota no referendo. As dúvidas a respeito de sua coerência e eficácia, que cresceram após o caótico início de mandato da prefeita de Roma, a ex-advogada Virginia Raggi, do 5 Estrelas, poderiam agora ser substituídas por um sentimento crescente de que ele é realmente o único caminho possível para qualquer um que queira mudanças.

Subentende-se que essa é uma bomba-relógio que deve ser levada a sério. Mesmo com a nova lei eleitoral, o 5 Estrelas tem o potencial de conquistar uma grande parte dos votos e, portanto, na teoria, até de formar o próximo governo sozinho. Não há certeza nenhuma a respeito disso —13 meses é um tempo muito longo na política— mas o partido certamente será uma força a ser considerada. Isso não é, de forma alguma, algo ruim. O Movimento 5 Estrelas defende muitas coisas sensatas, juntamente com algumas outras mais polêmicas. Ele vem construindo um bom histórico em administrações municipais, com destaque para a jovem prefeita de Turim, Chiara Appendino.

Em vez de condená-lo como um bando de populistas imprudentes, seria mais sensato que os empresários, a mídia e os acadêmicos se envolvessem com ele a sério. Um processo como esse poderia até acabar desativando a bomba-relógio, fazendo do 5 Estrelas aquele que trará as mudanças das quais a Itália de fato precisa —e que Renzi deveria ter sido, mas não foi.

*Bill Emmott é jornalista e ex-editor-chefe da "The Economist"

Tradutor: UOL

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